terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A Geografia do Prazer

5  A GEOGRAFIA DO PRAZER

A boca respira outras sensações e molda a paisagem ao ritmo da descoberta. Novos caminhos sobrevivem a tão ingente esforço e na madrugada habitam os gestos que correm e percorrem o sabor do corpo. Que novo sentido definirá esta hesitação que povoa a geografia do prazer?
 
Uma mulher em oferenda sagra a cidade que habito em cada gesto. Alongo e prolongo as mãos e, assim, o horizonte aproxima o ritmo de um outro poema. É Vivaldi escutado entre a memória e o presente. É o gesto que antecipa o futuro e morre entre as palavras que a emoção não articula.
 
Outra gramática terá que definir a sintaxe das novas sensações e povoar as mãos com a recordação dos dias que vivemos em cada segundo.
 
 
Augusto Mota, texto 5 de «A Geografia do Prazer», 1998
 

A Geografia do Prazer

4  AS SÍLABAS DO SILÊNCIO

Com as mãos amacio as palavras e o néctar dos dias que amanhecem em cada gesto. O prazer repete o olhar e molda cada segundo ao ritmo de um desejo que é sagração primaveril de todas as estações do corpo.
 
Vai longe a maré alta do equinócio, quando as ondas trouxeram à praia a rebentação dos dias. Oficiamos agora outros conhecimentos entre as redes e o perfume da maresia que envolve a espuma dos dias.
 
Habitamos, assim, o ritmo das ondas que se desfazem no gesto do olhar, lá onde as palavras não dizem mais do que as mãos querem percorrer. Longa jornada esta entre o carinho e o verbo! Como contornar, então, as sensações que se erguem entre os dedos e acariciam o despontar desta madrugada?
 
Tarefa difícil esta em que as sílabas do silêncio vivem e morrem na revolta das palavras que traem as sensações-todas que habitam as mãos. Cada gesto irá perpetuar a dimensão da oferta e os dias claros esbatem-se para além das colinas que festejam o amanhecer da cidade.
 
O futuro despertará satisfeito por entre as sensações de cada gesto!
 
 
Augusto Mota, texto 4 de «A Geografia do Prazer», 1998


- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Textos transversais


 

PRENÚNCIO DA CIDADE SITIADA

Como um deus sorvo as colinas do desejo e sigo, perdido, pelas sendas agrestes da memória e de um tempo que parou aqui. E agora, receoso, fujo de mim em direcção às mãos que desenham cada gesto e perpetuam o amanhecer.
 
Duas estrelas recordam os êxitos dessa memória e clamam pelo subtil silêncio da cidade sitiada. Não é vã a glória que é prenúncio de outra cidade! Sempre o corpo há-de ser metáfora de mulher e de cidade! Assim a conquista corre célere pelas mãos que, em uníssono, celebram o ritual do sacrifício.
 
Um dia tudo há-de ser claro como o grito da vitória entre as mãos em penitência. A confissão ficará adiada para a memória do presente!
 
Augusto Mota, texto 3 de «A Geografia do Prazer», 1998 
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continenntes da memória.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Textos transversais

 
 


Textos brevíssimos


Recreação
Por sugestão amiga, a contragosto, fui visitar um museu de marionetas. Afinal gostei. Encontrei lá muitos políticos da nossa praça, ainda bem presos aos cordelinhos e às cruzetas que os manobravam na feira de todas as vaidades.
 

Textos brevíssimos

 
Fundamento
Num país perdido algures, entre o deserto e o esquecimento, havia um ministério que era um mistério. Só quando o povo defenestrou o ministro se descobriu que, por debaixo da sua majestática poltrona estava, disfarçado, um poço sem fundo.
 

Textos transversais

 
 


AS MURALHAS DE JERICÓ

 
O peito aberto é a espada ávida dos novos cruzados. A conquista passa sempre pelo ritual dos dias e Jericó anuncia o cantar da madrugada. Os guerreiros despem a cota de malha e oferecem o corpo à sagração da luta e beijam a vida e a morte no ardor de cada segundo. Mas o silêncio da luta só perpetua o gesto das mãos que correm e percorrem o calor da eternidade. Se cada segundo é o pulsar da artéria, então, aí, jaz a eternidade, no pulsar da artéria, entre as mãos que conquistam o amanhã de todas as madrugadas e a boca que saboreia o acaso do futuro. É nesse momento preciso, em que tudo excita e consome a memória dos dias, que a vitória canta e rejubila entre as muralhas do desejo. Depois amanhece o presente como se fora o sabor de um horizonte proibido e tudo se esvai entre as mãos que acariciam o sol, ou o futuro.
 
 
Augusto Mota, texto 2 de «A Geografia do Prazer», 1998

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

ENTRE AS COLINAS DA MEMÓRIA

 
A verde escrevo o sol que escorre pelas minhas mãos e tudo se dilui na saudade de infinito e nos desejos dos olhos claros da madrugada. Antes fosse um poema que perpetuasse os segundos que em mim ardem como bicos aguçados que sangram os lábios e a dor do futuro. Mas futuro é o presente que arde e sente, que fere e pressente o rosto que acaricia um horizonte de mãos entre as colinas da memória.
Se o futuro é cada segundo que hoje vivemos, que se eternize o júbilo da sagração e se festeje cada gesto como dádiva sequiosa que inunda o corpo e percorre, em êxtase, os caminhos da cidade sitiada.
Sobre as colinas de Jerusalém dormem as mãos e a boca dessa memória renascida das cruzadas, dessas lutas sem inimigo, desse esvair por dentro do passado sem futuro, ou do futuro sem presente. De qualquer modo sentem-se e pressentem-se as mãos que ardem entre as colinas da memória, agora rejuvenescida, e sentem-se e pressentem-se as lágrimas que escorrem entre os dedos do dia que amanhece. Serão contas, talvez, de um novo rosário de feitiços e encantamentos.
Um outro sufrágio das mãos ritualiza, agradecido, uma nova religião de gestos em oferenda. O oficiante está pronto para as trindades do amanhecer!
 
Augusto Mota, texto 1 de «A Geografia do Prazer», 1998
 
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

Textos transversais

  

 

Textos brevíssimos

 
 Contratempo
 
“Só faço o que quero, quando quero e para quem quero”. Um dia, inesperadamente, a dama sem rosto e de capuz negro ceifou-lhe, para sempre, as palavras de tal querer.
 

Textos brevíssimos

 
 Extinção
 
Foi o fundador da sua própria religião, seu único oficiante e seu único crente.
Por isso não houve lugar a qualquer cerimónia religiosa fúnebre.
 

Textos brevíssimos

 
 
 
 
Lenda tibetana
 
 Qual alpinista, chegou sem  fôlego ao pico mais alto da montanha. Aí depôs uma bandeira de oração no monte de pedras sagradas e dessedentou, com as próprias lágrimas, o esforço da escalada. Depois adormeceu o cansaço na ternura do sono e do sonho. 
 
 
 
 
* Tibete - Bandeiras de oração. Fotos de Nuno Verdasca.



quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Textos brevíssimos

 
Abelhão
 
 Repetia continuadamente  em pensamento, até à exaustão, dias a fio, Bombus lucorum, Bombus lucorum, Bombus lucorum…
Já dentro da ambulância os enfermeiros tiveram mesmo muita dificuldade em escapar às suas impertinentes ferroadas.
 
 
 
 

 
 
 

 
 
 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Textos brevíssimos

Poupança
 
 
Já que fornecia parte do combustível não abandonou o vício do álcool, convencido que a cremação do seu cadáver lhe ficaria mais em conta. Tal era o apego ao dinheiro!


 

Textos brevíssimos

 
 
Lenda indiana
 
Quiseram amar-se de acordo com os textos e respectivas pinturas eróticas das tradicionais folhinhas soltas das tábuas de alcova. Tanto calor puseram no acto que a tinta pegou fogo, incendiando toda a obra, o leito e, em breve, o próprio lupanar já era um mar de chamas que alastrou a todo o bairro.

A partir de então uma lei bastante severa proibiu o comércio livre de tais manuais. Mas o casal, esse, alcançou pela primeira vez a iluminação transcendental.



* Imagens: em cima frente de uma das tábuas que protegem as folhas soltas (9,2x16,3cm /espessura:  0,5cm); em baixo: texto explicativo no verso de uma folha ilustrada.