quarta-feira, 6 de março de 2013

A Geografia do Prazer


A    ÁRVORE    DOS    SONHOS

Por prazer do sonho adormeço sob o cansaço da viagem da véspera e revejo os frutos que já repousam em minhas mãos. Todo o pomar de nossas intenções se abre às carícias do vento fresco e brando que murmura novos desígnios para futuras colheitas.

Continuo pelas margens do sono e do sonho e sorvo cada uma das sementes carnosas que tais frutos me oferecem em sua rósea aparência. São romãs, por certo, pois vejo-me a descansar os olhos na frescura da sua polpa, como se estivesse a preparar os ingredientes de uma bebida requintada. Ou de um tónico para todos os males que definham as noites e se atravessam nas paisagens agrestes de alguns sonhos opressivos.

Que estranho é este laboratório do sonho quando fazemos o jogo dos pequenos prazeres e deixamos que tudo aconteça e seja retribuído em oferenda simbólica! Por isso os frutos são intenções e cada árvore a sagração do nosso existir. Por isso temos de colher tanto fruto para armazenar a memória deles em nossas mãos e descrever cada gesto como louvor e pacificação. É que a paz, a nossa e a dos outros, se define e é aceite quando tudo está bem conjugado na gramática dos nossos verbos particulares. De outro modo definharão as sensações já antecipadas com tanto prazer e o sonho não passará de angústia adiada, de criação subvertida, de vigília atormentada.

Vamos, pois, adormecer sabiamente e desejar que no pomar dos sonhos frutifiquem as romãs e as intenções que alimentarão o exercício dos dias.   
 
Augusto Mota, texto 19 de «A Geografia do Prazer», 1998    

- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória. 

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


O    POMAR    DAS    INTENÇÕES

 A febre que sinto não é só da cabeça. Também as mãos estão quentes e tudo parece estalar no lento caminhar pela memória da imaginação. Os sons estridentes da música afogam a saudade desejosa de tudo e, assim, fico a vaguear entre o sol e a penumbra de mim. Outra afirmação não é possível quando o calor vem de dentro, tolda os movimentos e alarga a distância que os sons percorrem pelos fios além. A articulação das palavras soa penosa e diferente é a mensagem que ouvimos desencantados e cada vez mais longe.
 
Esta febre deve vir do esforço e da luta que o sonho nos impõe. A paisagem desdobra-se à nossa volta e a vegetação fere as imagens com os seus espinhos ameaçadores e quase esvazia o sentido das coisas para lhes dar outro sentido. Velhas palavras vão arrastar novos significados como se tudo fosse, só agora, descoberto e saboreado. Este território das palavras parece falso quando com elas queremos assumir o domínio de nós por via de subtil dádiva de outrem.
 
Algures no descampado que a febre trouxe até mim vejo erguerem-se intenções como árvores em pomar carregado de frutos maduros e o apetite avassala as mãos para novas e delicadas colheitas. Mas quando os gestos já antecipavam o prazer e saudavam tão prometedora safra tudo se esvaiu entre os dedos e o sonho. Ficou o deserto amargo do nada e a memória do que a realidade nos vai permitindo.
 
É este vaguear entre os caminhos do sonho e a memória real das coisas saboreadas que ajuda a acalmar a febre dos dias que ainda vêm ao nosso encontro.
 
Augusto Mota, texto 18 de «A Geografia do Prazer», 1998

A Geografia do Prazer


OS DILEMAS DA GEOMETRIA
 
Mesmo que seja só na capa do poema dramático O Amor Vigilante*, erguer as mãos e segurar as asas da esperança é vigiar e vingar a paixão que incendeia a cidade à nossa volta e, ao mesmo tempo, é caminhar pelas ruas sonhadas, mas nunca prometidas, dos bairros da noite. Tacteamos o caminho como se a lua cheia estivesse escondida pelas nuvens espessas que vestem os gestos deste progredir em direcção ao coração da cidade.

Tal ânsia de chegar a tempo ao festim das emoções é ordálio que compensa o rito, o sacrifício e o corpo. As sensações que afloram aos olhos são já o eco da resignação para tão grande esforço. O vértice desta caminhada é o ponto de encontro das rectas que amparam os nossos desejos e os mantêm verticais.

Tudo fica, subitamente, aquém e além de tal ângulo. Agudo e obtuso será o tempo da oração que vivemos em cada segundo do nosso rosário. A exacta definição geométrica desta meditação alimenta-se do espaço que acompanha os segredos do tempo.

A cada hora segredamos aos olhos o que ninguém quer ver. A cada dia segredamos aos outros o que nós não podemos ser.

Os dilemas da geometria  são este balançar contínuo entre os segredos dos olhos e a amizade dos dias.
  
Augusto Mota, texto 17 de «A Geografia do Prazer», 1998
 
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
 
* Vítor Matos e Sá, O Amor Vigilante, Livraria Almedina, Coimbra, 1962. Capa de minha autoria.
 

domingo, 3 de março de 2013

Textos transversais

 
 

A Geografia do Prazer


A    ARTICULAÇÃO  DOS  DIAS

 As gaivotas e Bach ajudam a esta harmonia com o mar, onde o coração e a boca, a acção e a vida são um coral da Cantata nº. 147. Assim a ardente memória do sol em meu peito queima e transporta os reflexos da natureza bem para dentro de mim. Com um entardecer destes a melodia espraia-se entre os escolhos que agora se avistam na baixa-mar, como se quisessem ilustrar, de seguida, um adágio executado por um oboé e por um violino.

A ondulação forte que as mãos sentiram no início deste concerto arrasta-se, agora silenciosamente, pelo areal de nossos olhos, enquanto a névoa ao longe vai escondendo, envergonhada, toda esta harmoniosa sensação de estar vivo no coração e na boca e no agir e no viver. Por isso quando tudo se harmoniza em nosso pensar, as horas e os dias são uma doce recordação que gostaríamos de viver não só junto ao mar, mas também no mais alto do monte, para de lá avistar o cabo do mundo e todas as cidades que povoámos de ruas e de passos em volta dessas ruas.

Tanta memória das coisas faz girar a paisagem em torno de nós como se fôssemos o centro do universo. Tudo rodopia cada vez mais à nossa volta, até que, exaustos, acenamos ao tempo que já passou e despedimo-nos de nós e da harmonia que a natureza e o silêncio provocaram em nossos gestos.

Os gestos são sempre a ilustração do silêncio que as palavras não sabem articular. Que outra e nova medicina saberá curar este tempo de lazer e desejo?   
 
Augusto Mota, texto 16 de «A Geografia do Prazer», 1998  
 

A Geografia do Prazer


O   AZIMUTE  DAS  SENSAÇÕES

Terna navegação esta que precisa de gestos experientes para rodar o leme e virar a bombordo, como se o azimute não indicasse o caminho mais recto para os olhos que esperam e para a boca que acaricia o horizonte. Mais do que experientes são sábios tais gestos, porque tudo se volve em vagas e espuma que se desfaz nas sensações do fim da manhã.
 
É vertical este prazer de navegar para fora do porto de abrigo, agora que sentimos a salvação em nossas mãos, quando a viagem apressa o desejo de chegar. Já contemplamos o país de exílio ao longe, como uma ilha que se oferecesse ao trabalho de um imigrante clandestino. Aí aportamos após longa navegação costeira. E tudo é outra coisa, ou a mesma coisa, mas vista de outro modo.      
 
Assim ficamos hesitantes entre a amplitude do arco de círculo do horizonte e o ponto cardeal que orienta este marítimo caminhar. Estão suados os olhos da espuma que se evolve da restinga e o nosso caminhar torna-se difícil contra o vento leste. São nítidas as pegadas que deixamos no areal, como se quiséssemos marcar o caminho para um regresso mais fácil. O sorriso e o prazer ajudam esta viagem contra o vento e a maré-cheia de sensações. Espraia-se o olhar pela água onde chapinham as emoções das crianças que somos momentaneamente e lavamos a cara para refrescar os gestos oferecidos à sagração dos segundos que ritualizam o nosso corpo.
 
Caminhamos ainda mais para oeste, vencendo o vento e a distância da preia-mar. Chegados ao destino que ansiámos, redobrámos esforços e fizemos a viagem terminar ali mesmo, no justo espaço onde quisemos habitar o nosso exílio.
 
Uma vez mais se cumpriu o mar, agora sem pontes, já que ambas as margens nos pertenciam por direito de opção e sentido de rumo. A bússola de nossos afazeres é que apontava outro ponto cardeal.
 
Augusto Mota, texto 15 de «A Geografia do Prazer», 1998 

- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

 

sábado, 2 de março de 2013

Textos transversais

 
 

A Geografia do Prazer


A CIRCUM-NAVEGAÇÃO DOS DIAS
 
Cumpriu-se o mar quarenta anos após a descoberta de Metáfora! Era à tardinha que o sol poente destacava no mar chão a cidadela povoada de imaginação, memórias e ilusões. Não habitavam lá gestos, nem olhares, e só aves marinhas recordavam o tempo vazio de tudo, o vaguear entre mim e os anseios que se desfaziam como vagas contra os molhes da barra.   
 
 Cansava tal viajar pelas ruas de uma solidão que ia esfriando os trababalhos e os dias...
 
Mas hoje cumpriu-se o mar e atravessámos a ponte nova como quem sobe o arco-íris a caminho de nossas mãos e da aliança que refresca a saudade de tudo. Lá de cima avistámos um passado sofrido entre o pôr do sol e o nevoeiro espesso que assustava os barcos quando a ronca nos entrava pela manhã dentro. Lá de cima avistámos o presente de hoje que já não nos deixa viajar pelas cores além e se fica pelo reflexo dos peixes e das aves marinhas nuns olhos onde se espelha, tão bem, a impossibilidade de navegar para lá da neblina que esconde a saída da barra e anuncia o perigo aos mareantes.
 
O porto de abrigo somos nós quando aportamos às justas emoções que nos preenchem os dias e o sabor das noites. Os barcos serão as sensações que navegam o corpo e se escapam pelos olhos rumo ao infinito de nós. O som cavo que previne a viagem do nevoeiro, ou da névoa espessa da manhã, será o nosso guia a caminho de um país distante onde habitamos os minutos que esperam sempre por nós, como se o tempo fabricasse o espaço de nossos desejos.

O arco-da-velha-aliança voltou a ser a ponte de regresso aos nossos afazeres de hoje. Quarenta anos depois cumpriu-se o mar em terna navegação!
 
 
Agusto Mota, texto 14 de «A Geografia do Prazer», 1998
 
 
 - A Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
 
 
 

Textos transversais

 


domingo, 24 de fevereiro de 2013

A Geografia do Prazer


 13  O PRELÚDIO DO VAZIO

A espera é difícil como o silêncio que não atende os desejos e a distância. O tempo vai longo e esquecido dos anseios e das emoções. De longe apenas chegam os vibrantes aplausos no final da Patética de Tchaikovsky. Tudo parece conjugar-se para entristecer a noite e sublinhar o desconcerto da espera.
 
Que nova sinfonia ouviremos agora?
 
Já se anuncia o prelúdio do longo vazio que irá atravessar a noite. Estranha melodia esta que vive entre o silêncio e o desejo, entre a distância e o tempo, entre as trindades e o toque do amanhecer!
 
Que acordes ouviremos, então, na madrugada de nós? 
 
 
Augusto Mota, texto 13 de «A Geografia do Prazer», 1998  

- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória. 
 

Textos transversais

 
 

A Geografia do Prazer

12  A DESCONSTRUÇÃO DOS SONHOS
 
É de noite que se constrói o futuro, quando os corpos se beijam e as cidades crescem segundo as regras do desordenamento urbano e sem pontes para fugir ao vazio de nós.
  
O vazio uma vezes é das mãos, outras da cabeça que coordena os gestos e assume as vitórias sobre o próprio corpo. Os gestos, esses, se parecem impetuosos, são sempre a exteriorização de uma energia que carregamos ao longo dos dias vividos atrás das máscaras que emprestamos às emoções.   
 
Assim, quando gozaremos o prazer da dádiva e, milímetro a milímetro, correremos o corpo todo que nos habita?
 
Aqui o silêncio é a noite que paira sobre a vigília de um caminhar contínuo em sonhos que se fazem e desfazem. O vazio é esse mesmo espaço que habita entre a construção e a desconstrução dos sonhos e de tudo. O vazio será, portanto, o olhar que não vê, a boca que não saboreia, as mãos que não apartam.
 
Mais vale acordar de vez e negociar o momento presente do que vermo-nos continuamente perseguidos pelos fantasmas que habitam o terreno movediço do sono e dos sonhos e onde se afunda a esperança e a voz que chega de longe através do silêncio da manhã.
 
A noite continuará a construir o futuro das cidades, com novas regras e outras pontes sobre o vazio de nós.
 
 
Augusto Mota, texto 12 de «A Geografia do Prazer», 1998
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer

11  A VÉSPERA DO CORPO
 
É tão forte a sensação de desfilada sobre o jardim acolchoado de malvas e rosas bravas que, como corcéis de crinas ao vento frio do norte, nos perdemos pelos ínvios caminhos do prazer entre as mãos e as colinas sonhadas, por onde suavemente sobe um rio que regressa à nascente. Que reencontro difícil este entre a memória e a vertigem dos dias que já passaram! A nova cidade impõe-se em cada gesto que acompanha a sagração de tal rio, como se todas as religiões do mundo nos encaminhassem para o vértice do universo.
 
Atávica inibição esta de regressar ao passado, com mãos apartando colinas e desejos, ultrapassando, sobretudo, as recordações que se imiscuem entre os dedos e subjugam o corpo todo! Desejar é, assim, uma outra maneira de sofrer ou de querer adiar o desencontro. Só as mãos, portanto, saboreiam os segundos de cada fruto, como se o relógio de tempo estivesse na hora legal!
 
Preferível será estar sentado na cadeira do tempo e esperar que o rio volte a descer por nossos braços e desagúe num mar renovado de emoções:
 
os corcéis do tempo agigantam a hora que passa e se dissolve como música em nossas artérias.     vemos o infinito na palma da mão e agradecemos ao poeta tal augúrio da inocência.     por isso um  céu brilha em cada flor selvagem que acoberta os corpos da nossa razão.     um estertor inunda todos os gestos e parece anunciar o fim da desfilada.     o vento norte mudou de rumo e, agora, uma lufada morna aquece as frontes e abre, deliciada, as portas de uma outra percepção.    a paisagem muda de ritmo.   o outono anuncia-se no escarlate das folhas que se despedem das árvores e de nós.     o silêncio é partitura nova partilhada com emoção.     o diálogo renova a despedida das folhas que já atapetam os nossos olhos.    novo húmus fecundará a próxima estação dos corpos e amanhã recordaremos as mãos, as flores, os frutos e, novamente, as mãos, as flores, os frutos e as alegrias do tempo que vive e morre em nós e na correria louca dos corcéis no amanhecer selvagem de uns olhos aguados a caminho do mar e da liberdade. 
  
Os jardins são feitos de espera e de emoções. Os dias são as estações que regamos com nossos anseios. Os frutos, esses, serão colhidos na véspera de tudo.  
 
 
Augusto Mota, texto 11 de «A Geografia do Prazer», 1998
 
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
                                                                                               

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Textos transversais

 


Textos transversais

 


A Geografia do Prazer

10  A LITANIA DO AZUL

Em nosso peito abre-se a rosa azul do prazer que habilidoso jardineiro cultivou em suas experiências de vida e de morte. Assim  se libertam as sensações como pétalas caídas no chão que havemos de percorrer em sublime litania. Assim beijamos as pétalas azuis e sentimos um frémito avançar sobre o corpo todo e uma maré de recordações enrusbecer as mãos e os pés.
 
Caminhar, agora, é difícil. Voar seria a deslocação apetecida. E pairar sobre o jardim das rosas azuis a satisfação plena de nossos desejos.
 
Tanta energia consumida a tirar, primeiro, os espinhos!
 
Resta-nos, por hoje, um punhado de pétalas azuis que, sôfregos e sofredores, agarramos bem com ambas as mãos e lançamos ao vento pela janela aberta de nossa desilusão.
 
Que cada porção de azul se multiplique em fértil terreno e melhores emoções germinem apetecidas em nossas bocas! As mãos, assim, ficarão mais quentes e, agradecidas, colherão as primícias desse jardim para depois saborearmos o perfume azul da nova botânica.
 
Tal jardim será o constante renovar dos olhos e das mãos em apoteose!
 
Augusto Mota, texto 10 de «A Geografia do Prazer», 1998

A Geografia do Prazer

9  O CIO DO SOL

Enquanto lavro o corpo da manhã, o sol, em seu cio, cavalga um cão de fogo por entre nuvens afiladas e a construção das cidades adivinhadas. Bem perto, porém, há o rodopiar incessante do disco rubro que agora se estampa em nosso olhar. Vemo-lo para além das nuvens. Vemo-lo em cima e para além deste corpo que se adelgaça no esforço de transportar o astro a caminho de outras galáxias mais perto de nós.
 
Rítmica é a sensação do sexo em desespero perante o olhar artesanal, a firmeza da mão, o gravar da matéria.
 
Assim se constroem as nossas cidades interiores, que ora são corpo de mulher, ora vielas estreitas por onde vagueamos a tristeza e as mãos vazias de tudo.
 
As colinas ao longe agridem o espaço como justo contraponto a este paroxismo de dor e de prazer.
 
Deixemos as coisas acontecer ao ritmo do tempo que tomou conta do nosso acaso.
 
Augusto Mota, texto 9 de «A Geografia do Prazer», 1998
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

Textos transversais

 
 

A Geografia do Prazer

8  O SORTILÉGIO DOS FRUTOS

Suculentos frutos frescos abrem-se à boca como romãs ao sol poente e o sumo carmim de suas veias derrama-se como música em nossas mãos. O bardo entoa o sortilégio de um céu longínquo de azul e fantasia. Muito para além das janelas desses frutos antevejo os tempos em que, juntos, bebemos suas sementes, quando a maresia e o vento leste nos pinhais parecia prolongar a doçura de cada gesto e tais frutos, abertos à natureza, diziam de nós e de todas as colheitas que sagravam os bosques do nosso contentamento.
 
Em seu constante revolver o mar acolhe este balançar entre a memória e o vento, enquanto o bardo insiste nos tons outonais do poente que separa a vida e a gente.
 
Lestos são os frutos em seu despontar do prazer. Serão novo andamento em secreto concerto, melodia vaga e triste que ensombra os dedos e chora por nós um adeus que festeja o álacre outono em sua primaveril renovação.
 
As estações do corpo cumprirão seus ritos!
 
Augusto Mota, texto 8 de «A Geografia do Prazer», 1998

A Geografia do Prazer

7  O CÍRCULO DO DESEJO

O destino é célere em seu espanto quando tudo se torna subitamente impossível. Cada curva é o assomar do desejo fértil e a razão irrompe pressurosa num dissipar da luz que invade os membros e nos arrasta para longe das emoções que já inundam a cabeça e os pés. Viandantes somos nesta peregrinação errante pelas veredas do desejo.
 
Desejar é uma outra maneira de saborear os olhos e com eles sorrir às mãos que guiam tal caminhar apressado na direcção do impossível. Desejar será, ainda, um outro modo sereno e meticuloso de medir as distâncias entre o ser e o existir. Existimos quando viajamos a caminho do que somos só para nós mesmos. Seremos quando o caminho percorrido nos dá a grata certeza de termos viajado, satisfeitos, para fora do nosso limitado círculo de acções e reacções.
 
Se um verbo pode acender a noite, as estrelas serão flores num universo de emoções e o jardim do desejo ficará perene em sua flamejante primavera.
 
A quem ofereceremos as rosas de tal estação? Ao mito ou à emoção? Para nós guardaremos os espinhos como consciência deste viajar sem remissão.
 
Augusto Mota, texto 7 de «A Geografia do Prazer», 1998
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

Textos transversais

 


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

EKPHRASIS

A propósito dos três textos abaixo publicados, todos baseados em obras plásticas, em cujo universo sentimos necessidade de voltar a entrar  pela emoção das palavras, ora através de uma escrita mais automática, como em «A Ponte» e «Génese», ora através de uma prosa mais elaborada e racional como em «Loro Sae», recomendamos a leitura do texto seguinte, que define tecnicamente este tipo de produção literária, onde também se podem enquadrar os «Textos transversais» e as  «Legendas íntimas», que, em breve, voltaremos a publicar.

Termo grego que significa "descrição" (no plural, ekphraseis), aparecendo em primeiro lugar na retórica de Diónisos de Halicarnasso (Retórica, 10.17). Tornou depois um exercício escolar para aprender a fazer descrições de pessoas ou lugares. O locus classicus na literatura épica é a descrição do escudo de Aquiles feita por Homero (Ilíada, 18, 483-608). Virgílio seguiu o mesmo modelo para a descrição do escudo de Eneias na Eneida (8, 626-731). Um outro tipo de ekphrasis concentra-se em descrições epigramáticas de pinturas e estátuas, como La galeria de Marino e muita poesia emblemática. O termo alemão Bildgedicht corresponde praticamente ao conceito de ekphrasis, neste sentido de descrição de uma obra de arte (pintura ou escultura). Os poetas românticos recorreram amiúde a este artíficio, tendo ficado célebre, por exemplo, a "Ode on a Grecian Urn", de Keats. Naturalmente, o recurso às descrições particulares está presente em muita poesia contemporânea, sobretudo a partir do momento em que a poesia se tornou cada vez mais próxima da prosa narrativa. Na literatura portuguesa, o livro Metamorfoses (1963), de Jorge de Sena introduz um tipo de poesia descritiva que tem como objecto de contemplação toda a obra de arte visual. Este tipo de descrição plástica, não limita o conceito de ekphrasis a uma simples e passiva exposição dos dados observados, mas conduz-nos a um exercício reconstrutivo do que foi examinado, querendo interferir subjectivamente nas qualidades do objecto. O poeta ecfrástico raramente se contenta com uma descrição objectiva do que observa, quando tem a possibilidade de comunicar livremente o seu próprio gosto. A Secreta Vida das Imagens (1991), de Al Berto, ou Depois de Ver (1995), de Pedro Tamen, podem ilustrar o lado dinâmico da ekphrasis.

 
Carlos Ceia, in «Dicionário de Termos Literários»

http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&task=viewlink&link_id=961&Itemid=2
 

LORO SAE

 
 
 
Augusto Mota, «Sol Nascente / Loro Sae», serigrafia, 44 x 33 cm, 1999
 
 
Abre-se a terra para homenagear um povo que habitou as suas entranhas, enquanto aguardava que, um dia, o sol como um galo de luta, anunciasse a vitória perpétua dos seus sonhos.
 
Abre-se, depois, a terra para erguer um monumento à memória dos que já não viram o futuro, mas onde as cruzes, em honra do seu sacrifício, serão memória e fundamento de uma nova cidade.
 
Abre-se, também, a terra para marcar uma fronteira visível entre essa memória das muitas vidas anónimas perdidas e a perfídia das resoluções urgentes todos os dias convenientemente adiadas.
 
Abre-se, ainda, a terra para afastar, de vez, do sol nascente, as palavras ardilosas e os sorrisos dissimulados que, como um verme astuto e peçonhento, rastejam, sem rosto, pelos caminhos cobardes da traição cruel e impiedosa.
 
E a terra abre-se, finalmente, para deixar o engenho das mãos e das máquinas limpar as sombras negras que o fogo do ódio projectou na paisagem clara e nas ruas férteis de tanta esperança. Que os nós que alimentam as cordas dessa esperança sejam bem firmes, para aguentarem os ventos de tanta adversidade. E que nas praias do desespero de ontem arribem, pela maré cheia, os barcos da boa-nova e da abundância. Nos porões da solidariedade hão-de levar, também, fado e saudade. Para cantar o destino de um país que terá de carregar, para sempre, em seu nome, como letra inicial, a cruz dolorosa da sua construção.
 
Augusto Mota, in «Juntos por Loro Sae», Leiria 1999, Edição Jorlis, p.52.