segunda-feira, 15 de abril de 2013

A Geografia do Prazer


O  DISFARCE  DA  SAUDADE
 
Enfunada pelo vento do Outono desliza uma vela branca a caminho dos mares do sul. Lá moram os momentos felizes de toda a nossa memória de hoje e de ontem. Para eles navego a todo o pano, esperando repetir aventuras na ilha solitária da descoberta renovada. Aí residirei enquanto o vento estiver de feição para outras viagens, mas à vista da costa. Viverei da colheita de amoras e frutos tropicais. Experimentarei novos doces com receitas caseiras. Beberei dos licores que o acaso me sugerir. Descansarei todo o cansaço entre os palmares e as dunas. Do mar obterei meu líquido alimento e refrigério para a sede do corpo.
 
A quem dedicarei tanto esforço para viajar sozinho nestas aventuras meridionais? Talvez à saudade que disfarça ausências e olhares por entre tanta vegetação luxuriante!
 
As mãos saberão abrir novas sendas por entre lianas e sombras da floresta tropical, até que o caminho de regresso fique assegurado na carta topográfica que guardaremos em memória das nossas emoções quotidianas. 
    
Augusto Mota, texto 25 de «A Geografia do Prazer», 1998
 

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


O  VELO  DE  OURO 

É manhã e estamos no cabo do mundo. Virados a sul adivinhamos, por entre a névoa, o país de onde viemos. Encostamos as saudades ao nosso silêncio e lançamos promessas sobre o Mondego lá em baixo, como quem arremessa a tarrafa à pesca de grandes sensações. Mas a rede é de malha larga e a pescaria foge aos nossos íntimos desejos. Compensa-nos a bem-aventurança de tanto sol a inundar a paisagem dos nossos horizontes secretos.
 
Que pescado é este que vive, permanentemente, no estuário das nossas emoções? Assim o rio cumprirá um destino diferente e o mar será já outro mar, talvez uma serena superfície líquida que se confunde com o prazer que sentimos ao ver as ruas da nossa cidade serem navegadas por barcos e mãos, como se continentes perdidos estivessem à espera do nosso achamento. Novas naus cruzam as avenidas de tanta comparação e tudo o que vemos remete a descoberta para a sabedoria dos livros que ocupam as estantes reservadas da nossa biblioteca particular. Folheamos o saber das páginas que vivem em nossa memória e exercitamos a educação dos gestos para assumir uma rota certa para a navegação dos sentimentos. Líquidos são estes sentimentos, porque desaguam num mar onde a faina se anuncia mais exigente e temerosa. Pobres pescadores somos nós que vivemos e trabalhamos entre as margens dos continentes e dos dias!
 
A quem culpar por tamanho risco em nosso projecto? Apertamos ainda mais a malha de nossas artes e encontramos a justificação de tanto esforço. Neste líquido pomar os frutos são outros e, juntos, os saboreamos contando histórias de um passado aprendido entre as viagens e as noites, entre as dunas e o mar, entre nós e nós.
 
Novos são estes frutos que o mar refez em nossos gestos e em nossas bocas! O sal é tempero certo para a certeza que domina os olhos e a mesa de tão secreta refeição. Onde aprender outras maneiras de servir e estar à mesa de tal banquete? Inventaremos etiquetas mais apropriadas ao ritmo que os trabalhos e os dias impõem. Contrataremos firmas mais especializadas para aconselharem o que desejamos viver e alimentar. E pagaremos o justo imposto das conveniências nos momentos discretos que queremos viver junto dos outros.
 
Assim pacificados, vamos continuar virados a sul e a lançar mútuas promessas de outras viagens que adivinhem o país onde estamos. Do cimo do Cabo Mondego, onde permanecemos, o horizonte abarca todos os pontos cardeais e podemos, até, escolher uma outra rota para aplicar melhor a experiência de verdadeiros argonautas que somos.
 
A demanda do velo de ouro justifica as exigências de semelhante navegar.
 
Augusto Mota, texto 24 de «A Geografia do Prazer», 1998
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

domingo, 14 de abril de 2013

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


O  ÊXTASE  DO  APETITE
 
Almoçamos à luz do sol que se reflecte, ao meio dia, num mar de iguarias que enche os nossos pratos. Agora os frutos são do mar e saboreamos o vinho e o pão, enquanto os olhos se cruzam em tons que vão da esperança verde ao subtil azul, indício feliz de quem parece ter compreendido como metáfora pode ser mulher ou, simplesmente, uma ilha de luz brilhando no mar e dentro de nós, por mercê de uma mão que afaga o nosso contentamento.
 
A mesa é farta de comeres e recordações. A memória surge entre o deglutir prazenteiro dos frutos marinhos, do pão e do vinho. Comprometedor ritual este que prolonga o tempo que queremos viver no sabor da comida e nas palavras que alimentam os desejos. Desejos de mais comida e de mais bebida, até que a fome que sentimos encontre um justo caminho de eleição. Mas de uma eleição sem votos, antes uma preferência nossa, por nós e para nós, sem lamentações, nem queixumes. É que quando os olhos brilham na justa proporção do desejo que aparentam tudo se torna mais fácil: o mar já não tem que ser outra coisa senão o sabor do sal que tempera o corpo e o alimento que lhe dá outra vida.
 
Agora já podemos regressar, bem alimentados de luz, de formas e de sabores que guardamos no mais íntimo das mãos. Tanta intimidade é outra e diferente refeição para o prazer dos olhos que tacteiam, milímetro a milímetro, o corpo dos nossos caprichos.
 
Tanta saudade apressa a vertigem e novos sabores extasiam um outro apetite. Por isso devoramos o tempo e deixamos para trás as promessas que intimidam os dias da vitória. Soltam-se pombas brancas por entre os lábios e as mãos agitam bandeiras de paz. Os olhos querem chorar tamanha plenitude, mas o calor dos gestos seca as lágrimas e o sal acentua o prazer e o silêncio da harmonia.
 
Agora já é noite feita e tudo ficou, subitamente, diferente. A angústia das viagens longas emudeceu por entre as promessas de um acaso que saberá aproveitar a sabedoria dos dias que caminham ao nosso encontro. Deles tiraremos proveito e com eles festejaremos a memória que alimentará a sensação do nosso existir.
 
Augusto Mota, texto 23 de «A Geografia do Prazer», 1998
 

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer

 
A TRAVESSIA DA VAZANTE
 
De mãos dadas sobre o vértice do universo ouvíamos o Adágio em sol menor de Albinoni, enquanto as gaivotas, como flores aladas, desabrochavam nas ínsuas da vazante. A ponte passou por nós a caminho da foz e uma figueira frutificou entre a névoa da manhã e o sol nascente. Como mel, seus frutos adocicaram a paz que envolvia o espanto de nossa boca e eternizaram o descanso de tanta ave no meio do estuário florido de branco.
 
A este tempo de servidão e certidão confiámos o nosso trajecto e logo outras viagens impuseram novos desejos. Que apenas queriam saborear os figos e o mel que ia subindo pelas mãos acima. A elas entregámos o sabor da manhã, a motivação das aves, a travessia da vazante.
 
Uma ponte é sempre uma passagem para o outro lado das palavras que motivam a manhã, as aves e os frutos da vazante. O regresso à justiça dos dias é que torna penosa a significação das palavras que descansam nos livros, ou em nossas mãos.
 
Augusto Mota, texto 22 de «A Geografia do Prazer», 1998
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

domingo, 31 de março de 2013

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer

 
O   CONVÉS    DA  VIAGEM
 
Deitado sobre o convés dos livros olho o cavername da sala, agora transformada em navio, e zarpo em direcção ao território da espera. O oceano atormenta a saída da barra, enquanto disfarço a demora com sequências apetecidas e imaginadas:
                
                                          uma cidade repousa a meu lado e, juntos, vivemos e morremos num perpétuo vaguear pela nudez das sensações que descobrimos a cada momento.   face a face olhamos o espanto de nossos olhos, enquanto a mão do acaso alcança um sol-em-flor e lança sobre os nossos corpos o artifício do fogo que já queima as ruas que desejamos visitar.     nelas habitamos o prazer desta peregrinação.   não vogamos, afinal, no oceano.   preferimos a volúpia da ria espraiando-se pelo tempo passado a ver barcos altivos a sulcar a calma das suas águas e a sentir  o cheiro acre do moliço acabado de estender ao sol.
                 
                                        pousamos a cabeça nas horas solares, como que para sentir o pulsar do tempo e desenhamos na paisagem aquática o sonho de ontem: como um polvo agigantam-se os braços tentaculares de uma árvore de carne e seiva.   nos seios pendentes queremos olhos, enquanto do esbracejar dos ramos despontam rosas, relógios e o ritmo que alimenta a fantasia.    é uma árvore feminina esta a que propomos ao nosso encantamento e é através dela que esperamos lavrar a ria, o mar e os rios que se atravessam em nossos lábios e impedem a tranquilidade do corpo.    por isso sentimos a cabeça vazia e não somos capazes de nada.    intranquilos, então, nos olhamos e cansados ficamos da azáfama das horas e do jogo das palavras que se intrometem nas situações.
 
 
Solidários regressamos aos livros que atapetam o convés da viagem e transpomos o portaló a caminho da realidade dos dias que são o nada e o tudo de tão difícil existir. 
 
 
Augusto Mota, texto 21 de «A Geografia do Prazer», 1998      
 
 - Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
                                                  

Legendas íntimas



O Artifício da Loucura


O  ÚLTIMO  CÍRCULO
 
Há que ter a maravilhosa certeza de que amanhã tudo vai estar certo. Urge fazer dos dias que avançam para nós limites possíveis de nossas sensações todas. Há que poder enquadrar em cada minuto essa certa certeza que hoje nos individualiza. Essa esperança tão subtil no devir guiado por nossas mãos tem que ser o denominador comum de todas as sensações de hoje. Senão tudo é falso, tudo nos vai saber a régia ante-câmara para uma terrível pobreza. De espírito. Sim, porque é o espírito que hoje nos alimenta e dá forças cada vez mais renovadas para a carne que, em festim, temos de oferecer a alguém. Ou, então, será a morte.
 
Vive-se sempre para a carne por sabor estético. Sempre. Hoje e cada vez mais. Esta deve ser a maior descoberta do nosso tempo. Devemo-la à psicologia e aos poetas. Destes tiramos, por dom de formação e sofrimento, aquela verve simbólica com que nos deixamos envolver e que, mais ainda, nos dá aquele gozo (quase subalimentação)  cujo gesto deixamos morrer em nossas entranhas por egoísmo lúcido, que outros teimam em disfarçar de educação. Esta jamais pode ser confundida com disfarce. Será sempre e sempre consciência lúcida em actos e palavras. Será, cada vez mais, exegese de espírito e de matéria. Impõe-se (e só) por uma consciência universal de tudo o que define o homem e o integra na vida, essa vida total que hoje o progresso exige sábia, humilde e consciente. Para tanto, a psicologia  (e a poesia)  impõe-nos o espírito como consciência primeira de vida.
 
Há que ir bem fundo em nosso eu de hoje e quase morrer no esforço da travessia  de nosso mar subterrâneo. Sejamos individualistas nessa perigosa viagem. Se voltarmos à superfície será com a cabeça coberta de limos e alegres com o prazer da vitória. Haverá, então, a certeza de que trouxemos connosco toda a vida escura de outrora, todo esse arrastar de algas que nos retraía os passos e nos fazia prisioneiros em nossa própria habitação.
 
Feliz viagem esta a dos poetas e da psicologia. Felizes os que se dão todos depois deste cansaço obscuro.
 
 
 
Tem sempre que ser assim. Este egoísmo que inunda as vísceras é antes amor ao próximo e nunca a nós mesmos. Depois a entrega é sempre mais total e nem se confunde com propaganda altruísta e só-palavras. É adesão total, por carne e mãos, à alma dos outros, àquela secreta existência alheia que, ávida de calor e gestos, quase sentimos arranhar nossos olhos e nossos pés. Por isso se torna difícil  o caminhar. Os pés sangram, doridos, e os olhos recusam-se a olhar, por quererem ver mais.
 
Tudo é assim tão estranho, mas tão verdade. Tudo é assim tão exigente, mas tão belo. Tudo está, então, certo, por nada estar certo. É, porém, nesta antinomia de palavras  (nunca na oposição total do drama)  que tem de radicar o vigor da nossa fé. É aí que a psicologia e os poetas buscam a definição da vida. O resto perde-se em  palavras que nunca encontrarão eco para lá do ruído das fábricas, ou dos números que invadem cada vez mais as escrivaninhas dos bancos e das companhias de seguros. Estranha esta metafísica dos números por virtude da poesia. Entanto sejamos impenitentes no julgar da máquina que nos envolve. Há sempre que deitar um braço de fora e gritar por entre as engrenagens que nos torturam a carne e a alma. Sábio indício de que progredimos em nosso trajecto. Urge mesmo um movimento de rotação em torno do nosso próprio eixo, enquanto gravitamos, de pés e mãos, na sistemática desagregação que a máquina nos impõe. Essa imposição é vital. Mas que o rodar sobre nós próprios nos dê a meticulosa certeza de que esse facto, em si causa e consequência, é, sobre todas as coisas, utilidade para nós revertida utilidade para os outros.
 
Então existir é cumprir uma existência de sangue no lugar justo. É saber florir as unhas no esforço da carne. É, depois, entregar as rosas de nossa fecundação à órbita onde gravitamos por direito e por utilidade. É assim que a psicologia nos diz que todas as rosas são vermelhas do esforço do nosso sangue. É assim que os poetas nos confirmam que as rosas são vermelhas do esforço do nosso sangue. Nesta identidade de rotação e translação descobrimos o círculo de nossa existência. Por isso sentimos que tudo nos pertence. Mas de tudo há que ter a poética consciência do que é orgulho e do que é responsabilidade. É que não pode existir orgulho na entrega. Ela tem de se justificar pela razão da própria vida e de tudo.
 
A responsabilidade é que é fruto da razão que se quer forte para dar mais vida às próprias sensações. Esse será o gozo total, o último círculo, o nosso limite, a consciência grandiosa de que o nada e o tudo se identificam com o verbo da existência.
 
 
Só assim teremos a maravilhosa certeza de que amanhã tudo vai estar certo.  
 
Augusto Mota, texto 12 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964  
 
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Legendas íntimas

 


O Arttifício da Loucura

 
O  MERCADO  DE  NOSSOS  AFAZERES
 
Andamos permanentemente desacreditados. Todos! Somos diplomatas desde o nascimento. Envergonhamo-nos uns dos outros. Invejamo-nos uns aos outros. Se nos ajudamos é, até, para disfarçar a nossa própria fraqueza. Vivemos dominados nem sei por quê. Agimos controlados pelas horas e apontamos os minutos como moeda de troca muito corrente. O balanço geral do tempo é impotência.
 
A juventude, que é uma forma de utilidade e não uma questão biológica, diz-nos, muitas vezes, que assim acontece. Somamos os anos e temos pena de qualquer coisa que não fizemos. Sentimo-nos vítimas de um enredamento da sociedade e da época e da nação. Isto pode ser uma desculpa, mas nunca uma verdade.
 
A nação é um conjunto de trabalho.  A época é definida pela utilidade desse trabalho, utilidade que tem de ser só progresso. A sociedade, essa, não vitima ninguém. É vítima da nossa desculpa.
  
 
Assim é fácil o logro. O que podemos é desanimar e desconfiar da nossa verdadeira utilidade. Mas não é verdade que um simples tronco pode salvar alguém de um naufrágio? Exigir um transatlântico ao nosso lado é snobismo turístico. E vida é viagem. Viagem ao centro de nós. E a purificação é derivada da participação, nunca da entrega-só. Participar na vida dos outros é viajar no justo lugar a caminho do centro comum que é o trabalho.
  
O trabalho purifica. E o amor também. Tudo o que nos faz participar, felizes, purifica. Por isso a poesia  purifica sempre o poeta. Pode não agir assim  para com o leitor. Só quando se pressente identidade de vivências se exalta a ligação. E toda a gente tem vivências. Do que viveu e do que não viveu, mas desejou.
 
O desejo em poesia importa, aliás, sempre muito mais. É incontido por natureza. Falha, porém, sempre que as mãos querem agir muito directamente sobre a cabeça. Vem a tal gramática e a filologia e impõe-se e interpõe-se, até, a história dos povos. As imagens desbragadas ficam-se a ruminar outra vingança e podem mesmo dar assassínio.
 
A morte é, tantas vezes, falta de poesia! Quando esta existe exalta-se, por suficiência, a distância que a carne impôs entre o que vive e o que viveu. Não é certo que se exalta, ainda hoje, a morte dos heróis e poetas com festejos e grinaldas? Nós é que erramos a educação de todos os nossos sentimentos. Ficamo-nos quietos como as bestas que vêem os filhos partir a caminho das feiras. Alimentamos de outra maneira o espaço religioso e familiar e dizemos às crianças que a realidade nos é superior quando, afinal, o que tocamos vive para nós a partir desse despreocupado gesto.
 
Os gestos permanecerão em toda a sua plenitude se os quisermos memorizar. E é essa memória que faz heróis e poetas para os povos. E essa mesma memória - memória satisfeita -  podia fazer, também, heróis para a família.
 
Um herói familiar será, portanto, todo o cidadão justo e guerreiro de intenções. É simples e traz a todos contentamento social.
 
As grandes batalhas são estas, as do mercado de nossas intenções. 
 
Augusto Mota, texto 11 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
 
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.   

sábado, 16 de março de 2013

Legendas íntimas

 


Legendas íntimas

 


O Artifício da Loucura


A  LIBERDADE  DA  RAZÃO
 
Sempre que a dúvida procura sobrepor em nosso espírito o desprezo pelos outros, será bom virar, ainda mais, os olhos para dentro e mostrar a essoutros a alvura (ou pureza) de nossas intenções, de nossos devaneios, de nossa utilidade integrada naquilo que nos obrigaram a ser e fomos, naquilo que não nos deixam ser e queremos ser.
 
Sempre a vida é este caminhar entre hipóteses, como se não fossem as árvores da borda da estrada que nos dessem a sombra, ou os frutos. Que a hipótese seja, quando muito, um estímulo e não a génese da própria dúvida. Uma e outra se se abraçam é para nosso conforto espiritual. A ambas devemos o movimento das mãos. Mas a nenhuma só devemos entregar a herança dos olhos. Estes querem sempre mais, muito mais do que aquilo que avistam em cada rua e em cada segundo de nós. Os milímetros da carne que nos enforma são tão necessários aos olhos que, sem horizontes e sexo, tudo ficará reduzido a uma hipótese, a uma qualquer questão a exigir sábia resposta. 
 
Esta exigência tem, assim, um valor específico em nossa vida. Ela, por vezes, ultrapassa a própria carne e faz-nos chorar. Teremos, então, o desequilíbrio entre uma força que age e uma força que não age. Em sua substância serão idênticas. Diferenciam-se no agir, ou no não-agir. Por outro lado chega a não agir a mais forte. Por isso mesmo, por ser a mais forte. Nesta negação ao movimento radica a angústia a sua maior esperança – a de deixar de ser propriamente angústia.
 
 
 
Os olhos participam bem neste jogo. São eles que ferem e matam. A garganta, porém, é que absorve toda a força das pupilas e seca-se nesse esforço. Então paramos em degradação. Então sentimos no sangue e na pele a própria infâmia de existir. Passamos a desejar outra liberdade em outro clima, sob outro céu que acaba por ser o mesmo daqui. O turismo é,  pois, o grande culpado destes enganos psicológicos. Em nosso corpo, todavia, é que urge criar um órgão de informação turística apropriado a todos os estados afectivos que ainda não explorámos. Tudo, então, estaria sob outras ordens e a infância e a adolescência não seriam jamais presentes de aniversário para nossa desgraça, mas sim justificação aceitável para cada viagem, para cada minuto, para cada milímetro de carne e de horizonte.
 
Ah! Estupor de vida e de corpo que arrasta connosco as causas e as consequências! Algo deveria separar o que se ama do que se despreza. Mas separação nítida. Ultrapassável, apenas, em caso de ocasional exploração em profundidade. É que a horizontalidade é ainda o grande aroma das sensações. Nela habitamos por imperativo estético, moral, religioso. Nela alargamos a vista e a carne para fins mais sóbrios do que aqueles em que se fica o equilíbrio vertical.
 
Enfim, é esse desejo de fuga e consequência que nos afasta de nós nos minutos mais belos. Essa fuga uma vezes é música, outras solidão. Quase sempre é beleza impraticável para lá do gesto de cada mão, ou do sorriso de cada minuto. Este domínio do tempo por meio dos gestos corporais é uma outra forma de sabedoria. É um desejar saber para mais querer. É aguentar as consequências do impraticável, quando a hipótese e a dúvida não se distanciam o suficiente para nos fazer amar outra liberdade. Liberdade e vontade são domínios comuns para o mesmo corpo. O corpo, por vezes, é que se aluga por baixo preço a um desejo-outro que não a liberdade.
 
 
 
Assim volvidos ao centro de nossa própria liberdade, que mais exigir para tão urgente instância? Ah! A comida para a boca! O vinho e o pão! Novas liberdades para a carne que, milímetro a milímetro, grita por liberdade! Ah! O vinho, o vinho! E a carne. Sagração múltipla a do nosso sexo que também vai, de repente, de um a outro canto de nós, sem que haja barreiras no seu caminhar. Ele caminha no pão e no vinho como camponês em busca de lavradio para a sua sementeira. Ele caminha na própria definição de liberdade e extingue-se no prazer da vontade. É que acima de tudo temos a razão. E desejamos a razão. A razão é, afinal, um ponto de partida para a solução do nosso existir.
 
Assim, que maior desânimo a ultrapassar? Talvez a razão diga mais do que um gesto da garganta que não chega a articular o nosso próprio medo. 
 
Augusto Mota, texto 10 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
 
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Legendas íntimas

 
 

O Artifício da Loucura


PERSPECTIVA  DE  UMA  POSIÇÃO  DIMENSIONISTA-ACTUANTE

Descobrir em cada objecto a sua verdadeira essência é desdobrar cada partícula em ritmo de força e de vida. Força e vida serão para nós sentimentos demasiado humanos para os fossilizarmos, inertes, em sua contextura superficial, porquanto todo o movimento que possa descobrir-se na vida das coisas e dos próprios seres é sempre uma tradução rítmica da atomização de suas moléculas.
 
Amamos, então, mais o interior das coisas  (mas sempre em compromisso com o exterior)  para as dominarmos. O domínio da matéria terá que ser a característica suprema de toda a criação. Aí reside a finalidade do acto. Ser traído pela matéria, julgando que se alcançou a forma, será abortar a intenção lógica do pressuposto artístico. Esta condição exigível não é invenção de uma época. Foi sempre jugo aceite para uma derrota-em-êxito-fácil. Ela, a condição exigível  (ou a derrota que existe na própria definição de exigência), tem sido religião de todos os que, embora conscientes do fracasso imediato, não renegam os princípios de uma exigente preocupação social e lutam pela manutenção de uma escala de valores a que, por direito próprio, se mantêm conscientemente fiéis. Nesta religião reside quase toda a possibilidade de entendimento de uma única forma e força de expressão, em que um conteúdo humano e psicológico latente no cerne da nossa constituição se imiscui, por simpatia e não por vaidade, na descoberta, melhor no desvendar do compromisso interior-exterior das coisas.
 
É, pois, neste dissecar tantas vezes sangrento que radica o amor próprio e a característica suprema de toda a criação como finalidade, como exigência e, acima de tudo, como vontade.
 
Augusto Mota, texto 9 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
 
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Legendas íntimas

 


O Artifício da Loucura


DA  ARTE  COMO  CONSEQUÊNCIA

Toda a arte é sempre uma consequência. Consequência da família, da cidade, do país, do mundo. Consequência ainda do segundo, da hora, do ano.
 
Em todos os meridianos o homem deve tender para a sua perfeição, perfeição que se traduzirá em utilidade. Esta utilidade, porém, deve manifestar-se mais na nossa actividade social diária do que nas obras que realizamos por imperativo estético. Estas não são imediatamente úteis à comunidade; são, sim, imediatamente úteis ao indivíduo que as produz, porque ajudam a libertá-lo, consciencializando-o para realizações mais capazes de o integrarem no substrato nacional de que não nos podemos alhear.
 
É preciso, sobretudo, dar unidade às nossas acções todas e conceber a execução da arte como factor de construção interna, construção que é sempre evolução e progresso para nós e que se reverte, por força moral, em utilidade para os outros, para a cidade, para o país, já que a vida comunitária nos impõe sempre uma qualquer forma de participação, de actividade diária onde podemos espalhar as sementes de nossas conclusões. A vida, então, mais do que a crítica de arte, nos dirá se fomos ou não sábios em nossas descobertas. Só assim se poderá progredir, pela entrega de todas as nossas pulsações àquilo que dizemos amar. Mas este amar obriga-nos a destruir para reconstruir segundo as nossas paixões, ou impulsos da família, da cidade, do país, do mundo.
 
Tudo isto, porém, tudo isto submetido à lei do tempo, imprime à vida um ritmo novo e ao espírito uma sageza que não pode contemporizar com atrofias de qualquer espécie.  
 
Augusto Mota, texto 8 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 196

- Discorrências sobre o nosso próprio limite.

Legendas íntimas

 


terça-feira, 12 de março de 2013

Legendas íntimas

 


O Artifício da Loucura


DA  CRIAÇÃO  COMO  ADVERTÊNCIA
 
Em qualquer atitude de criação há sempre algo que fica destruído. É, porém, na consciência dessa destruição que reside um prazer novo, um imaginar de reacções que, por vezes, não se concretizam, uma satisfação de criança má cujo primeiro e grande interesse é destruir por destruir.
 
Mas se a maldade é, quando muito, um prazer subvertido para os outros, temos, ao menos, que contemporizar com o prazer só, nunca com as consequências desse prazer. Essas são, por vezes, demasiado irremediáveis para as tolerarmos um minuto que seja. Assim urge que a satisfação subvertida não ultrapasse a barreira da imaginação criadora, ou antes, destruidora, já que todo e qualquer acto de criação implica sempre outro que se lhe opõe e o antecede no tempo – a destruição. A destruição é, portanto, em sua origem e considerada moralmente admissível, um primeiro passo para a criação.        
 
Outrossim urge que saibamos medir todas as consequências de nossos actos e deles usufruamos aquele estado de satisfação  plena que nos identifica com a destruição e a criação.  Ambas terão de ser demasiado conscientes e integradas num plano de vida socialmente proveitoso.
 
 
Destruir, negar, recusar por simples e sádico prazer é posição demasiado cómoda para nela divisarmos uma ponta de verdade. Esta nunca se confude com atitudes e gestos teatrais. Nem ainda com a intoxicável sabedoria dos deuses que tudo desprezam. O seu culto, porém, nem a hoje subsiste. Assim estaremos mais descansados quanto a amanhã.
 
Sempre amanhã foi uma palavra adiada para tudo o que desejamos hoje. Melhor seria que o abuso desse desejo não disfarçasse o vocábulo num futuro remoto, para lhe saborearmos já a advertência.
 
Augusto Mota, texto 7 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
 
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.

Legendas íntimas

 


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