sábado, 20 de abril de 2013

A Geografia do Prazer

 
O  CONTRAPONTO  DA  TRISTEZA

É triste  a tristeza  que  ameaça  as  mãos  e  invade  o corpo todo como se a cidade estivesse sitiada, ou fosse o frio seco de uma manhã de Inverno que arrefecesse a alma e fizesse tremer o mais íntimo de nós.
 
Parecendo habitar os países do norte, o sol já não abrilhanta as melhores horas do dia e a magia da noite ilude-se com palavras que não conseguem disfarçar o desassossego de algumas emoções. É no corpo que mais se sente o peso da angústia que passou a habitar as horas do trabalho e do sono. Assim, dormir, é antecipar os sonhos maus que gostaríamos de relegar para outras paragens, já que o dia e a noite são uma repetição da mesma tristeza e as mãos já não conseguem ser o que eram, quando certas estrelas desabrochavam em suas palmas e a boca percorria o nome das ruas no roteiro da cidade e da saudade.
 
A saudade é a traição do tempo que habita o espaço do nosso querer. Por isso adiamos sempre as horas que não coincidem nesse espaço das mãos e dos olhos que sofrem, deste modo, o vazio de tudo e já nem conseguem viver dos prazeres que a memória guarda para nós, com secretas intenções.
 
Melhores dias e novos desígnios serão, amanhã, o contraponto ajustado a este despovoado existir.    
 
Augusto Mota, texto 30 de «A geografia do Prazer», 1998      

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


A  RELEITURA  DAS  PALAVRAS
 
Entre a noite e a noite, os sonhos, como barcos, desfazem-se contra a luz clara da madrugada. Mesmo assim vogamos ao sabor do prazer que as ondas trazem até à praia dos nossos corpos deitados no convés dos livros que soubemos ler para lenitivo da solidão que, tão cedo, invadiu o nosso destino. Aos livros oferecemos o ritual deste sacrifício e refazemos a leitura das mesmas páginas com outra experiência, mas com a mesma certeza de encontrar o justo critério para uma nova análise do que se escreve nas entrelinhas.
 
O que recriamos será, portanto, uma releitura das palavras que vivem e morrem e renascem por dom dos corpos que as alimentam e dos olhos que as desenham nas paisagens dos sonhos que bebemos, como néctar, em saudação da vida que circula pelas artérias do corpo e da cidade.
 
Serão vãs as promessas que não regamos com o prazer do vinho e do arroz que o acaso serve à mesa dos nossos sentidos. Por isso nos encanta a satisfação que a comida traz aos olhos e à boca e, pausadamente, saboreamos o tempo no recanto da memória. Os doces são sobremesa ideal para tal refeição passada no breve espaço entre a noite e a noite e, assim, regressamos ao princípio, com os barcos a desfazerem-se, como sonhos, contra a luz clara da madrugada.  
 
Augusto Mota, texto 29 de «A Geografia do Prazer», 1998   
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


A  LIBAÇÃO  DO  ACASO
 
Que afazeres são estes que roubam o tempo à navegação das viagens que empreendemos a olhar as estrelas na palma das mãos?  Como adivinhos em mercado de levante queremos ler o futuro nos sulcos abertos em nossas mãos pelo sofrimento e pelo passado, esperando que a consulta breve nos trace outro destino e traga satisfação nas viagens que fazemos à volta de nós mesmos e dos olhos claros que iluminam o sortilégio da noite.
 
Estrelas são todas as memórias boas que ficam a meio caminho do esquecimento e iluminam o prazer do tempo que, insistentemente, chama por nós, como se o dia estivesse já a desfazer os traços fundos que percorrem as mãos e o nosso fado. A ele votamos cada viagem e o deleite de apagar as estrelas entre o silêncio e a cor dos olhos que, agora, apenas reflectem a Via Láctea, onde moram promessas e desejos.
 
À ciência dos astros entregamos a solidão que vive entre viagens e desencontros. Mas enquanto a sorte bafejar as mãos frias do Inverno, o nosso contentamento será iguaria saboreada à mesa de um acaso e que libamos em sua e em nossa própria honra!  
 
Augusto Mota, texto 28 de «A Geografia do Prazer», 1998
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória, 
 

Textos transversais



A Geografia do Prazer

 
A  VOLÚPIA  DO  NOME
 
Gosto de ver a cidade de cima, do castelo que habito por querer e prazer.  As ruas, lá em baixo, são azáfama e vertigem. As avenidas estendem-se até aos jardins que povoamos de segredos e adiamentos. À noite, então, tudo parece subitamente diferente, com rios de luz desaguando nas praças onde apetece fazer navegar a imaginação e deitarmo-nos à deriva no tombadilho, olhando o mastro da mezena. No cesto da gávea o fiel Nikki, como bom cão rateiro, assiste à viagem e zela pelo nosso encantamento.
 
Enfunada a vela latina, partimos a caminho das sensações todas que as cidades oferecem aos turistas que buscam em cada canto a emoção adivinhada antes da partida. Pedra a pedra saboreiam os olhos o arrebatamento que transcende a boca. Esta apenas pronuncia o nome próprio de cada rua e repete-o, voluptuosamente, como se quisesse confirmar o roteiro turístico que o visitante desdobra contra o vento calmoso de um estio imaginado.
 
A cidade vista de cima ganha sempre outra vida. A vertigem é, assim, viagem e a ela nos entregamos como marinheiros experientes no manejo do cordame e do velame. No camarote de tal navio partilhamos o mesmo beliche e contamos o tempo a olhar as madeiras preciosas da sua arquitectura, agora realçada pela luz quente dos trópicos, onde aportamos pela primeira vez.
 
Deitada sobre a colina deste Outono tardio a cidade transcende-se e subjuga o visitante apressado. Futuros circuitos turísticos abrirão novas ruas e outras viagens no calendário de nossos afazeres.  
 
Augusto Mota, texto 27 de «A Geografia do Prazer», 1998      


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer

 
O  SEGREDO  DO  DESERTO
 
Hoje as palavras estão quase esgotadas quando procuramos outros sentidos para as mesmas emoções. As mãos, sendo o que são, serão para nós viagem, interiorização, construção, desconstrução. Construção e desconstrução de tudo o que habita em nós e que buscamos na memória recôndita das coisas que se atravessam à frente do tempo que passamos a viajar pelas estradas da madrugada, a caminho dos pontos cardeais.
 
Hoje é o norte que chama por nós. A velocidade das palavras ultrapassa, por vezes, o limite do sentido que damos às coisas e só novos significados serão o registo particular das nossas forças e fraquezas. Buscamos, então, entre o calor dos gestos percorridos em silêncio a satisfação de tal sinonímia:
 
                                                       o segredo do deserto é o perfume da rosa selvagem em secreta mistura com o aroma refrescante dos oásis, que são já um bálsamo para as longas viagens e para as mãos que constroem vertigens e conduzem velocidades pelas vias duplas das palavras e das emoções.    as ultrapassagens são cuidadosas para nunca se chegar antes de participar no festim das melodias que abreviam o percurso e satisfazem a paisagem que se desdobra até à portagem da cidade onde habita o deserto do nosso corpo.
    
                                                       aí se compram e vendem os aromas do outono que as caravanas trazem de todos os oásis do mundo.  aí se experimentam ilusões e satisfações no mercado das nossas vontades.
                                                
                                                        queremos, é certo, prolongar o sabor    de tal  jornada  e, por isso, como um beduíno avisado oferecemos aos gestos futuros a fragrância que, repentinamente, invadiu os pulsos e as mãos.    por tudo isto somos nómadas em busca de um oásis perpétuo, sem comércio de segredos, mesmo que seja de essências tão naturais como o desejo que viaja pelas promessas e pelos pomares onde colhemos romãs e sensações.     
 
Tudo se resume, afinal, ao segredo que o deserto de algumas palavras esconde por debaixo das sílabas que soletramos com o sorriso dos olhos e o júbilo dos gestos.
 
Assim, as viagens desaguam sempre na foz de um entendimento correcto das imagens que o norte e o sol poente trazem até nós, como se fôssemos aves marinhas pousadas nos rochedos à espera do descanso e da noite.
 
Augusto Mota, texto 26 de «A Geografia do Prazer», 1998
 
 - Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.


Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


O  DISFARCE  DA  SAUDADE
 
Enfunada pelo vento do Outono desliza uma vela branca a caminho dos mares do sul. Lá moram os momentos felizes de toda a nossa memória de hoje e de ontem. Para eles navego a todo o pano, esperando repetir aventuras na ilha solitária da descoberta renovada. Aí residirei enquanto o vento estiver de feição para outras viagens, mas à vista da costa. Viverei da colheita de amoras e frutos tropicais. Experimentarei novos doces com receitas caseiras. Beberei dos licores que o acaso me sugerir. Descansarei todo o cansaço entre os palmares e as dunas. Do mar obterei meu líquido alimento e refrigério para a sede do corpo.
 
A quem dedicarei tanto esforço para viajar sozinho nestas aventuras meridionais? Talvez à saudade que disfarça ausências e olhares por entre tanta vegetação luxuriante!
 
As mãos saberão abrir novas sendas por entre lianas e sombras da floresta tropical, até que o caminho de regresso fique assegurado na carta topográfica que guardaremos em memória das nossas emoções quotidianas. 
    
Augusto Mota, texto 25 de «A Geografia do Prazer», 1998
 

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A Geografia do Prazer


O  VELO  DE  OURO 

É manhã e estamos no cabo do mundo. Virados a sul adivinhamos, por entre a névoa, o país de onde viemos. Encostamos as saudades ao nosso silêncio e lançamos promessas sobre o Mondego lá em baixo, como quem arremessa a tarrafa à pesca de grandes sensações. Mas a rede é de malha larga e a pescaria foge aos nossos íntimos desejos. Compensa-nos a bem-aventurança de tanto sol a inundar a paisagem dos nossos horizontes secretos.
 
Que pescado é este que vive, permanentemente, no estuário das nossas emoções? Assim o rio cumprirá um destino diferente e o mar será já outro mar, talvez uma serena superfície líquida que se confunde com o prazer que sentimos ao ver as ruas da nossa cidade serem navegadas por barcos e mãos, como se continentes perdidos estivessem à espera do nosso achamento. Novas naus cruzam as avenidas de tanta comparação e tudo o que vemos remete a descoberta para a sabedoria dos livros que ocupam as estantes reservadas da nossa biblioteca particular. Folheamos o saber das páginas que vivem em nossa memória e exercitamos a educação dos gestos para assumir uma rota certa para a navegação dos sentimentos. Líquidos são estes sentimentos, porque desaguam num mar onde a faina se anuncia mais exigente e temerosa. Pobres pescadores somos nós que vivemos e trabalhamos entre as margens dos continentes e dos dias!
 
A quem culpar por tamanho risco em nosso projecto? Apertamos ainda mais a malha de nossas artes e encontramos a justificação de tanto esforço. Neste líquido pomar os frutos são outros e, juntos, os saboreamos contando histórias de um passado aprendido entre as viagens e as noites, entre as dunas e o mar, entre nós e nós.
 
Novos são estes frutos que o mar refez em nossos gestos e em nossas bocas! O sal é tempero certo para a certeza que domina os olhos e a mesa de tão secreta refeição. Onde aprender outras maneiras de servir e estar à mesa de tal banquete? Inventaremos etiquetas mais apropriadas ao ritmo que os trabalhos e os dias impõem. Contrataremos firmas mais especializadas para aconselharem o que desejamos viver e alimentar. E pagaremos o justo imposto das conveniências nos momentos discretos que queremos viver junto dos outros.
 
Assim pacificados, vamos continuar virados a sul e a lançar mútuas promessas de outras viagens que adivinhem o país onde estamos. Do cimo do Cabo Mondego, onde permanecemos, o horizonte abarca todos os pontos cardeais e podemos, até, escolher uma outra rota para aplicar melhor a experiência de verdadeiros argonautas que somos.
 
A demanda do velo de ouro justifica as exigências de semelhante navegar.
 
Augusto Mota, texto 24 de «A Geografia do Prazer», 1998
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

domingo, 14 de abril de 2013

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


O  ÊXTASE  DO  APETITE
 
Almoçamos à luz do sol que se reflecte, ao meio dia, num mar de iguarias que enche os nossos pratos. Agora os frutos são do mar e saboreamos o vinho e o pão, enquanto os olhos se cruzam em tons que vão da esperança verde ao subtil azul, indício feliz de quem parece ter compreendido como metáfora pode ser mulher ou, simplesmente, uma ilha de luz brilhando no mar e dentro de nós, por mercê de uma mão que afaga o nosso contentamento.
 
A mesa é farta de comeres e recordações. A memória surge entre o deglutir prazenteiro dos frutos marinhos, do pão e do vinho. Comprometedor ritual este que prolonga o tempo que queremos viver no sabor da comida e nas palavras que alimentam os desejos. Desejos de mais comida e de mais bebida, até que a fome que sentimos encontre um justo caminho de eleição. Mas de uma eleição sem votos, antes uma preferência nossa, por nós e para nós, sem lamentações, nem queixumes. É que quando os olhos brilham na justa proporção do desejo que aparentam tudo se torna mais fácil: o mar já não tem que ser outra coisa senão o sabor do sal que tempera o corpo e o alimento que lhe dá outra vida.
 
Agora já podemos regressar, bem alimentados de luz, de formas e de sabores que guardamos no mais íntimo das mãos. Tanta intimidade é outra e diferente refeição para o prazer dos olhos que tacteiam, milímetro a milímetro, o corpo dos nossos caprichos.
 
Tanta saudade apressa a vertigem e novos sabores extasiam um outro apetite. Por isso devoramos o tempo e deixamos para trás as promessas que intimidam os dias da vitória. Soltam-se pombas brancas por entre os lábios e as mãos agitam bandeiras de paz. Os olhos querem chorar tamanha plenitude, mas o calor dos gestos seca as lágrimas e o sal acentua o prazer e o silêncio da harmonia.
 
Agora já é noite feita e tudo ficou, subitamente, diferente. A angústia das viagens longas emudeceu por entre as promessas de um acaso que saberá aproveitar a sabedoria dos dias que caminham ao nosso encontro. Deles tiraremos proveito e com eles festejaremos a memória que alimentará a sensação do nosso existir.
 
Augusto Mota, texto 23 de «A Geografia do Prazer», 1998
 

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer

 
A TRAVESSIA DA VAZANTE
 
De mãos dadas sobre o vértice do universo ouvíamos o Adágio em sol menor de Albinoni, enquanto as gaivotas, como flores aladas, desabrochavam nas ínsuas da vazante. A ponte passou por nós a caminho da foz e uma figueira frutificou entre a névoa da manhã e o sol nascente. Como mel, seus frutos adocicaram a paz que envolvia o espanto de nossa boca e eternizaram o descanso de tanta ave no meio do estuário florido de branco.
 
A este tempo de servidão e certidão confiámos o nosso trajecto e logo outras viagens impuseram novos desejos. Que apenas queriam saborear os figos e o mel que ia subindo pelas mãos acima. A elas entregámos o sabor da manhã, a motivação das aves, a travessia da vazante.
 
Uma ponte é sempre uma passagem para o outro lado das palavras que motivam a manhã, as aves e os frutos da vazante. O regresso à justiça dos dias é que torna penosa a significação das palavras que descansam nos livros, ou em nossas mãos.
 
Augusto Mota, texto 22 de «A Geografia do Prazer», 1998
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

domingo, 31 de março de 2013

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer

 
O   CONVÉS    DA  VIAGEM
 
Deitado sobre o convés dos livros olho o cavername da sala, agora transformada em navio, e zarpo em direcção ao território da espera. O oceano atormenta a saída da barra, enquanto disfarço a demora com sequências apetecidas e imaginadas:
                
                                          uma cidade repousa a meu lado e, juntos, vivemos e morremos num perpétuo vaguear pela nudez das sensações que descobrimos a cada momento.   face a face olhamos o espanto de nossos olhos, enquanto a mão do acaso alcança um sol-em-flor e lança sobre os nossos corpos o artifício do fogo que já queima as ruas que desejamos visitar.     nelas habitamos o prazer desta peregrinação.   não vogamos, afinal, no oceano.   preferimos a volúpia da ria espraiando-se pelo tempo passado a ver barcos altivos a sulcar a calma das suas águas e a sentir  o cheiro acre do moliço acabado de estender ao sol.
                 
                                        pousamos a cabeça nas horas solares, como que para sentir o pulsar do tempo e desenhamos na paisagem aquática o sonho de ontem: como um polvo agigantam-se os braços tentaculares de uma árvore de carne e seiva.   nos seios pendentes queremos olhos, enquanto do esbracejar dos ramos despontam rosas, relógios e o ritmo que alimenta a fantasia.    é uma árvore feminina esta a que propomos ao nosso encantamento e é através dela que esperamos lavrar a ria, o mar e os rios que se atravessam em nossos lábios e impedem a tranquilidade do corpo.    por isso sentimos a cabeça vazia e não somos capazes de nada.    intranquilos, então, nos olhamos e cansados ficamos da azáfama das horas e do jogo das palavras que se intrometem nas situações.
 
 
Solidários regressamos aos livros que atapetam o convés da viagem e transpomos o portaló a caminho da realidade dos dias que são o nada e o tudo de tão difícil existir. 
 
 
Augusto Mota, texto 21 de «A Geografia do Prazer», 1998      
 
 - Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
                                                  

Legendas íntimas



O Artifício da Loucura


O  ÚLTIMO  CÍRCULO
 
Há que ter a maravilhosa certeza de que amanhã tudo vai estar certo. Urge fazer dos dias que avançam para nós limites possíveis de nossas sensações todas. Há que poder enquadrar em cada minuto essa certa certeza que hoje nos individualiza. Essa esperança tão subtil no devir guiado por nossas mãos tem que ser o denominador comum de todas as sensações de hoje. Senão tudo é falso, tudo nos vai saber a régia ante-câmara para uma terrível pobreza. De espírito. Sim, porque é o espírito que hoje nos alimenta e dá forças cada vez mais renovadas para a carne que, em festim, temos de oferecer a alguém. Ou, então, será a morte.
 
Vive-se sempre para a carne por sabor estético. Sempre. Hoje e cada vez mais. Esta deve ser a maior descoberta do nosso tempo. Devemo-la à psicologia e aos poetas. Destes tiramos, por dom de formação e sofrimento, aquela verve simbólica com que nos deixamos envolver e que, mais ainda, nos dá aquele gozo (quase subalimentação)  cujo gesto deixamos morrer em nossas entranhas por egoísmo lúcido, que outros teimam em disfarçar de educação. Esta jamais pode ser confundida com disfarce. Será sempre e sempre consciência lúcida em actos e palavras. Será, cada vez mais, exegese de espírito e de matéria. Impõe-se (e só) por uma consciência universal de tudo o que define o homem e o integra na vida, essa vida total que hoje o progresso exige sábia, humilde e consciente. Para tanto, a psicologia  (e a poesia)  impõe-nos o espírito como consciência primeira de vida.
 
Há que ir bem fundo em nosso eu de hoje e quase morrer no esforço da travessia  de nosso mar subterrâneo. Sejamos individualistas nessa perigosa viagem. Se voltarmos à superfície será com a cabeça coberta de limos e alegres com o prazer da vitória. Haverá, então, a certeza de que trouxemos connosco toda a vida escura de outrora, todo esse arrastar de algas que nos retraía os passos e nos fazia prisioneiros em nossa própria habitação.
 
Feliz viagem esta a dos poetas e da psicologia. Felizes os que se dão todos depois deste cansaço obscuro.
 
 
 
Tem sempre que ser assim. Este egoísmo que inunda as vísceras é antes amor ao próximo e nunca a nós mesmos. Depois a entrega é sempre mais total e nem se confunde com propaganda altruísta e só-palavras. É adesão total, por carne e mãos, à alma dos outros, àquela secreta existência alheia que, ávida de calor e gestos, quase sentimos arranhar nossos olhos e nossos pés. Por isso se torna difícil  o caminhar. Os pés sangram, doridos, e os olhos recusam-se a olhar, por quererem ver mais.
 
Tudo é assim tão estranho, mas tão verdade. Tudo é assim tão exigente, mas tão belo. Tudo está, então, certo, por nada estar certo. É, porém, nesta antinomia de palavras  (nunca na oposição total do drama)  que tem de radicar o vigor da nossa fé. É aí que a psicologia e os poetas buscam a definição da vida. O resto perde-se em  palavras que nunca encontrarão eco para lá do ruído das fábricas, ou dos números que invadem cada vez mais as escrivaninhas dos bancos e das companhias de seguros. Estranha esta metafísica dos números por virtude da poesia. Entanto sejamos impenitentes no julgar da máquina que nos envolve. Há sempre que deitar um braço de fora e gritar por entre as engrenagens que nos torturam a carne e a alma. Sábio indício de que progredimos em nosso trajecto. Urge mesmo um movimento de rotação em torno do nosso próprio eixo, enquanto gravitamos, de pés e mãos, na sistemática desagregação que a máquina nos impõe. Essa imposição é vital. Mas que o rodar sobre nós próprios nos dê a meticulosa certeza de que esse facto, em si causa e consequência, é, sobre todas as coisas, utilidade para nós revertida utilidade para os outros.
 
Então existir é cumprir uma existência de sangue no lugar justo. É saber florir as unhas no esforço da carne. É, depois, entregar as rosas de nossa fecundação à órbita onde gravitamos por direito e por utilidade. É assim que a psicologia nos diz que todas as rosas são vermelhas do esforço do nosso sangue. É assim que os poetas nos confirmam que as rosas são vermelhas do esforço do nosso sangue. Nesta identidade de rotação e translação descobrimos o círculo de nossa existência. Por isso sentimos que tudo nos pertence. Mas de tudo há que ter a poética consciência do que é orgulho e do que é responsabilidade. É que não pode existir orgulho na entrega. Ela tem de se justificar pela razão da própria vida e de tudo.
 
A responsabilidade é que é fruto da razão que se quer forte para dar mais vida às próprias sensações. Esse será o gozo total, o último círculo, o nosso limite, a consciência grandiosa de que o nada e o tudo se identificam com o verbo da existência.
 
 
Só assim teremos a maravilhosa certeza de que amanhã tudo vai estar certo.  
 
Augusto Mota, texto 12 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964  
 
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Legendas íntimas

 


O Arttifício da Loucura

 
O  MERCADO  DE  NOSSOS  AFAZERES
 
Andamos permanentemente desacreditados. Todos! Somos diplomatas desde o nascimento. Envergonhamo-nos uns dos outros. Invejamo-nos uns aos outros. Se nos ajudamos é, até, para disfarçar a nossa própria fraqueza. Vivemos dominados nem sei por quê. Agimos controlados pelas horas e apontamos os minutos como moeda de troca muito corrente. O balanço geral do tempo é impotência.
 
A juventude, que é uma forma de utilidade e não uma questão biológica, diz-nos, muitas vezes, que assim acontece. Somamos os anos e temos pena de qualquer coisa que não fizemos. Sentimo-nos vítimas de um enredamento da sociedade e da época e da nação. Isto pode ser uma desculpa, mas nunca uma verdade.
 
A nação é um conjunto de trabalho.  A época é definida pela utilidade desse trabalho, utilidade que tem de ser só progresso. A sociedade, essa, não vitima ninguém. É vítima da nossa desculpa.
  
 
Assim é fácil o logro. O que podemos é desanimar e desconfiar da nossa verdadeira utilidade. Mas não é verdade que um simples tronco pode salvar alguém de um naufrágio? Exigir um transatlântico ao nosso lado é snobismo turístico. E vida é viagem. Viagem ao centro de nós. E a purificação é derivada da participação, nunca da entrega-só. Participar na vida dos outros é viajar no justo lugar a caminho do centro comum que é o trabalho.
  
O trabalho purifica. E o amor também. Tudo o que nos faz participar, felizes, purifica. Por isso a poesia  purifica sempre o poeta. Pode não agir assim  para com o leitor. Só quando se pressente identidade de vivências se exalta a ligação. E toda a gente tem vivências. Do que viveu e do que não viveu, mas desejou.
 
O desejo em poesia importa, aliás, sempre muito mais. É incontido por natureza. Falha, porém, sempre que as mãos querem agir muito directamente sobre a cabeça. Vem a tal gramática e a filologia e impõe-se e interpõe-se, até, a história dos povos. As imagens desbragadas ficam-se a ruminar outra vingança e podem mesmo dar assassínio.
 
A morte é, tantas vezes, falta de poesia! Quando esta existe exalta-se, por suficiência, a distância que a carne impôs entre o que vive e o que viveu. Não é certo que se exalta, ainda hoje, a morte dos heróis e poetas com festejos e grinaldas? Nós é que erramos a educação de todos os nossos sentimentos. Ficamo-nos quietos como as bestas que vêem os filhos partir a caminho das feiras. Alimentamos de outra maneira o espaço religioso e familiar e dizemos às crianças que a realidade nos é superior quando, afinal, o que tocamos vive para nós a partir desse despreocupado gesto.
 
Os gestos permanecerão em toda a sua plenitude se os quisermos memorizar. E é essa memória que faz heróis e poetas para os povos. E essa mesma memória - memória satisfeita -  podia fazer, também, heróis para a família.
 
Um herói familiar será, portanto, todo o cidadão justo e guerreiro de intenções. É simples e traz a todos contentamento social.
 
As grandes batalhas são estas, as do mercado de nossas intenções. 
 
Augusto Mota, texto 11 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
 
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.   

sábado, 16 de março de 2013

Legendas íntimas

 


Legendas íntimas