sábado, 20 de abril de 2013
A Geografia do Prazer
A METÁFORA DA PONTE
O cansaço adivinha-se nos olhos e no suor
das mãos que escrevem saudades em nosso rosto. Longe vão as manhãs das viagens
de comboio ao longo da névoa dourada que ora se atravessava nos caminhos do
vale, ora se diluía num horizonte
pródigo em sonhos e certezas.
Para solene remissão de tanto labor a
encher os dias e a preocupar as noites, sacrificámos aos deuses o perfume
subtil de uma magnólia em flor para, com suas
pétalas carnosas, incendiar de novo os olhos e os gestos que parecem morar
noutra cidade, para lá de todos os horizontes onde não habitam nem sonhos, nem certezas.
Amanhã, por certo, viajaremos para lá dos
limites da tristeza e faremos da ponte sobre o rio a metáfora que favorecerá a
cura pelas palavras que não chegaremos a pronunciar.
O silêncio será o remédio mais expressivo
para as dores que afligem os gestos da alma.
Augusto Mota, texto 31 de «A Geografia do Prazer», 1998
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
A Geografia do Prazer
O CONTRAPONTO DA TRISTEZA
É triste a
tristeza que ameaça
as mãos e
invade o corpo todo como se a cidade estivesse sitiada, ou fosse o frio seco de uma
manhã de Inverno que arrefecesse a alma e fizesse tremer o mais íntimo de nós.
Parecendo habitar os países do norte, o sol já não
abrilhanta as melhores horas do dia e a magia da noite ilude-se com palavras
que não conseguem disfarçar o desassossego de algumas emoções. É no corpo que
mais se sente o peso da angústia que passou a habitar as horas do trabalho e do
sono. Assim, dormir, é antecipar os sonhos maus que gostaríamos de relegar para
outras paragens, já que o dia e a noite são uma repetição da mesma tristeza e
as mãos já não conseguem ser o que eram, quando certas estrelas desabrochavam
em suas palmas e a boca percorria o nome das ruas no roteiro da cidade e da
saudade.
A saudade é a traição do tempo que habita o espaço do
nosso querer. Por isso adiamos sempre as horas que não coincidem nesse espaço
das mãos e dos olhos que sofrem, deste modo, o vazio de tudo e já nem conseguem
viver dos prazeres que a memória guarda para nós, com secretas intenções.
Melhores dias e novos
desígnios serão, amanhã, o contraponto ajustado a este despovoado existir.
Augusto Mota, texto 30 de «A geografia do Prazer», 1998
A Geografia do Prazer
A RELEITURA DAS PALAVRAS
Entre a noite e a noite, os sonhos, como
barcos, desfazem-se contra a luz clara da madrugada. Mesmo assim vogamos ao
sabor do prazer que as ondas trazem até à praia dos nossos corpos deitados no
convés dos livros que soubemos ler para lenitivo da solidão que, tão cedo,
invadiu o nosso destino. Aos livros oferecemos o ritual deste sacrifício e
refazemos a leitura das mesmas páginas com outra experiência, mas com a mesma
certeza de encontrar o justo critério para uma nova análise do que se escreve
nas entrelinhas.
O que recriamos será, portanto, uma
releitura das palavras que vivem e morrem e renascem por dom dos corpos que as
alimentam e dos olhos que as desenham nas paisagens dos sonhos que bebemos,
como néctar, em saudação da vida que circula pelas artérias do corpo e da
cidade.
Serão vãs as promessas que não regamos com
o prazer do vinho e do arroz que o acaso serve à mesa dos nossos sentidos. Por
isso nos encanta a satisfação que a comida traz aos olhos e à boca e,
pausadamente, saboreamos o tempo no recanto da memória. Os doces são sobremesa
ideal para tal refeição passada no breve espaço entre a noite e a noite e,
assim, regressamos ao princípio, com os barcos a desfazerem-se, como sonhos,
contra a luz clara da madrugada.
Augusto Mota, texto 29 de «A Geografia do Prazer», 1998
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
A Geografia do Prazer
A LIBAÇÃO DO ACASO
Que afazeres são estes que roubam o tempo
à navegação das viagens que empreendemos a olhar as estrelas na palma das
mãos? Como adivinhos em mercado de
levante queremos ler o futuro nos sulcos abertos em nossas mãos pelo sofrimento
e pelo passado, esperando que a consulta breve nos trace outro destino e traga
satisfação nas viagens que fazemos à volta de nós mesmos e dos olhos claros que
iluminam o sortilégio da noite.
Estrelas são todas as memórias boas que
ficam a meio caminho do esquecimento e iluminam o prazer do tempo que,
insistentemente, chama por nós, como se o dia estivesse já a desfazer os traços
fundos que percorrem as mãos e o nosso fado. A ele votamos cada viagem e o
deleite de apagar as estrelas entre o silêncio e a cor dos olhos que, agora,
apenas reflectem a Via Láctea, onde moram promessas e desejos.
À ciência dos astros entregamos a solidão
que vive entre viagens e desencontros. Mas enquanto a sorte bafejar as mãos
frias do Inverno, o nosso contentamento será iguaria saboreada à mesa de um
acaso e que libamos em sua e em nossa própria honra!
Augusto Mota, texto 28 de «A Geografia do Prazer», 1998
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória,
A Geografia do Prazer
A VOLÚPIA DO NOME
Gosto de ver a cidade de cima, do castelo
que habito por querer e prazer. As ruas,
lá em baixo, são azáfama e vertigem. As avenidas estendem-se até aos jardins
que povoamos de segredos e adiamentos. À noite, então, tudo parece subitamente
diferente, com rios de luz desaguando nas praças onde apetece fazer navegar a
imaginação e deitarmo-nos à deriva no tombadilho, olhando o mastro da mezena.
No cesto da gávea o fiel Nikki, como bom cão rateiro, assiste à viagem e
zela pelo nosso encantamento.
Enfunada a vela latina, partimos a caminho
das sensações todas que as cidades oferecem aos turistas que buscam em cada
canto a emoção adivinhada antes da partida. Pedra a pedra saboreiam os olhos o
arrebatamento que transcende a boca. Esta apenas pronuncia o nome próprio de
cada rua e repete-o, voluptuosamente, como se quisesse confirmar o roteiro
turístico que o visitante desdobra contra o vento calmoso de um estio
imaginado.
A cidade vista de cima ganha sempre outra
vida. A vertigem é, assim, viagem e a ela nos entregamos como marinheiros
experientes no manejo do cordame e do velame. No camarote de tal navio
partilhamos o mesmo beliche e contamos o tempo a olhar as madeiras preciosas da
sua arquitectura, agora realçada pela luz quente dos trópicos, onde aportamos
pela primeira vez.
Deitada sobre a
colina deste Outono tardio a cidade transcende-se e subjuga o visitante
apressado. Futuros circuitos turísticos abrirão novas ruas e outras viagens no
calendário de nossos afazeres.
Augusto Mota, texto 27 de «A Geografia do Prazer», 1998
segunda-feira, 15 de abril de 2013
A Geografia do Prazer
O SEGREDO DO DESERTO
Hoje as palavras estão quase esgotadas
quando procuramos outros sentidos para as mesmas emoções. As mãos, sendo o que
são, serão para nós viagem, interiorização, construção, desconstrução.
Construção e desconstrução de tudo o que habita em nós e que buscamos na
memória recôndita das coisas que se atravessam à frente do tempo que passamos a
viajar pelas estradas da madrugada, a caminho dos pontos cardeais.
Hoje é o norte que chama por nós. A
velocidade das palavras ultrapassa, por vezes, o limite do sentido que damos às
coisas e só novos significados serão o registo particular das nossas forças e
fraquezas. Buscamos, então, entre o calor dos gestos percorridos em silêncio a
satisfação de tal sinonímia:
o
segredo do deserto é o perfume da rosa selvagem em secreta mistura com o aroma
refrescante dos oásis, que são já um bálsamo para as longas viagens e para as
mãos que constroem vertigens e conduzem velocidades pelas vias duplas das
palavras e das emoções. as
ultrapassagens são cuidadosas para nunca se chegar antes de participar no
festim das melodias que abreviam o percurso e satisfazem a paisagem que se
desdobra até à portagem da cidade onde habita o deserto do nosso corpo.
aí se compram e vendem os aromas do outono que as caravanas trazem de
todos os oásis do mundo. aí se
experimentam ilusões e
satisfações no mercado das nossas vontades.
queremos, é certo, prolongar o sabor de tal
jornada e, por isso, como um beduíno avisado oferecemos aos
gestos futuros a fragrância que, repentinamente, invadiu os pulsos e as
mãos. por tudo isto somos
nómadas em busca de um oásis perpétuo, sem comércio de segredos, mesmo que seja
de essências tão naturais como o desejo que viaja pelas promessas e pelos
pomares onde colhemos romãs e sensações.
Tudo se resume, afinal, ao segredo que o
deserto de algumas palavras esconde por debaixo das sílabas que soletramos com
o sorriso dos olhos e o júbilo dos gestos.
Assim, as viagens
desaguam sempre na foz de um entendimento correcto das imagens que o norte e o
sol poente trazem até nós, como se fôssemos aves marinhas pousadas nos rochedos
à espera do descanso e da noite.
A Geografia do Prazer
O DISFARCE DA SAUDADE
Enfunada pelo vento do Outono desliza uma
vela branca a caminho dos mares do sul. Lá moram os momentos felizes de toda a
nossa memória de hoje e de ontem. Para eles navego a todo o pano, esperando
repetir aventuras na ilha solitária da descoberta renovada. Aí residirei
enquanto o vento estiver de feição para outras viagens, mas à vista da costa.
Viverei da colheita de amoras e frutos tropicais. Experimentarei novos doces
com receitas caseiras. Beberei dos licores que o acaso me sugerir. Descansarei
todo o cansaço entre os palmares e as dunas. Do mar obterei meu líquido
alimento e refrigério para a sede do corpo.
A quem dedicarei tanto esforço para viajar
sozinho nestas aventuras meridionais? Talvez à saudade que disfarça ausências e
olhares por entre tanta vegetação luxuriante!
As mãos saberão abrir novas sendas por
entre lianas e sombras da floresta tropical, até que o caminho de regresso
fique assegurado na carta topográfica que guardaremos em memória das nossas
emoções quotidianas.
Augusto Mota, texto 25 de «A Geografia do Prazer», 1998
A Geografia do Prazer
É manhã e estamos no cabo do mundo.
Virados a sul adivinhamos, por entre a névoa, o país de onde viemos. Encostamos
as saudades ao nosso silêncio e lançamos promessas sobre o Mondego lá em baixo,
como quem arremessa a tarrafa à pesca de grandes sensações. Mas a rede é de
malha larga e a pescaria foge aos nossos íntimos desejos. Compensa-nos a
bem-aventurança de tanto sol a inundar a paisagem dos nossos horizontes
secretos.
Que pescado é este que vive,
permanentemente, no estuário das nossas emoções? Assim o rio cumprirá um
destino diferente e o mar será já outro mar, talvez uma serena superfície
líquida que se confunde com o prazer que sentimos ao ver as ruas da nossa
cidade serem navegadas por barcos e mãos, como se continentes perdidos
estivessem à espera do nosso achamento. Novas naus cruzam as avenidas de tanta
comparação e tudo o que vemos remete a descoberta para a sabedoria dos livros
que ocupam as estantes reservadas da nossa biblioteca particular. Folheamos o
saber das páginas que vivem em nossa memória e exercitamos a educação dos
gestos para assumir uma rota certa para a navegação dos sentimentos. Líquidos
são estes sentimentos, porque desaguam num mar onde a faina se anuncia mais
exigente e temerosa. Pobres pescadores somos nós que vivemos e trabalhamos
entre as margens dos continentes e dos dias!
A quem culpar por tamanho risco em nosso
projecto? Apertamos ainda mais a malha de nossas artes e encontramos a
justificação de tanto esforço. Neste líquido pomar os frutos são outros e,
juntos, os saboreamos contando histórias de um passado aprendido entre as
viagens e as noites, entre as dunas e o mar, entre nós e nós.
Novos são estes frutos que o mar refez em
nossos gestos e em nossas bocas! O sal é tempero certo para a certeza que
domina os olhos e a mesa de tão secreta refeição. Onde aprender outras maneiras
de servir e estar à mesa de tal banquete? Inventaremos etiquetas mais
apropriadas ao ritmo que os trabalhos e os dias impõem. Contrataremos firmas
mais especializadas para aconselharem o que desejamos viver e alimentar. E
pagaremos o justo imposto das conveniências nos momentos discretos que queremos
viver junto dos outros.
Assim pacificados, vamos continuar virados
a sul e a lançar mútuas promessas de outras viagens que adivinhem o país onde
estamos. Do cimo do Cabo Mondego, onde permanecemos, o horizonte abarca todos os pontos
cardeais e podemos, até, escolher uma outra rota para aplicar melhor a
experiência de verdadeiros argonautas que somos.
A demanda do velo de ouro justifica as
exigências de semelhante navegar.
Augusto Mota, texto 24 de «A Geografia do Prazer», 1998
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
domingo, 14 de abril de 2013
A Geografia do Prazer
O ÊXTASE DO APETITE
Almoçamos à luz do sol que se reflecte, ao
meio dia, num mar de iguarias que enche os nossos pratos. Agora os frutos são
do mar e saboreamos o vinho e o pão, enquanto os olhos se cruzam em tons que
vão da esperança verde ao subtil azul, indício feliz de quem parece ter
compreendido como metáfora pode ser mulher ou, simplesmente, uma ilha de luz
brilhando no mar e dentro de nós, por mercê de uma mão que afaga o nosso
contentamento.
A mesa é farta de comeres e recordações. A
memória surge entre o deglutir prazenteiro dos frutos marinhos, do pão e do
vinho. Comprometedor ritual este que prolonga o tempo que queremos viver no
sabor da comida e nas palavras que alimentam os desejos. Desejos de mais comida
e de mais bebida, até que a fome que sentimos encontre um justo caminho de
eleição. Mas de uma eleição sem votos, antes uma preferência nossa, por nós e
para nós, sem lamentações, nem queixumes. É que quando os olhos brilham na
justa proporção do desejo que aparentam tudo se torna mais fácil: o mar já não
tem que ser outra coisa senão o sabor do sal que tempera o corpo e o alimento
que lhe dá outra vida.
Agora já podemos regressar, bem
alimentados de luz, de formas e de sabores que guardamos no mais íntimo das
mãos. Tanta intimidade é outra e diferente refeição para o prazer dos olhos que
tacteiam, milímetro a milímetro, o corpo dos nossos caprichos.
Tanta saudade apressa a vertigem e novos
sabores extasiam um outro apetite. Por isso devoramos o tempo e deixamos para
trás as promessas que intimidam os dias da vitória. Soltam-se pombas brancas
por entre os lábios e as mãos agitam bandeiras de paz. Os olhos querem chorar
tamanha plenitude, mas o calor dos gestos seca as lágrimas e o sal acentua o
prazer e o silêncio da harmonia.
Agora já é noite feita e tudo ficou,
subitamente, diferente. A angústia das viagens longas emudeceu por entre as
promessas de um acaso que saberá aproveitar a sabedoria dos dias que caminham
ao nosso encontro. Deles tiraremos proveito e com eles festejaremos a memória
que alimentará a sensação do nosso existir.
Augusto Mota, texto 23 de «A Geografia do Prazer», 1998
A Geografia do Prazer
A TRAVESSIA DA VAZANTE
De mãos dadas sobre o vértice do universo
ouvíamos o Adágio em sol menor de Albinoni, enquanto as gaivotas, como flores aladas, desabrochavam nas ínsuas da vazante. A
ponte passou por nós a caminho da foz e uma figueira
frutificou entre a névoa da manhã e o sol nascente. Como mel, seus frutos
adocicaram a paz que envolvia o espanto de nossa boca e eternizaram o descanso
de tanta ave no meio do estuário florido de branco.
A este tempo de servidão e certidão
confiámos o nosso trajecto e logo outras viagens impuseram novos desejos. Que
apenas queriam saborear os figos e o mel que ia subindo pelas mãos acima. A
elas entregámos o sabor da manhã, a motivação das aves, a travessia da vazante.
Uma ponte é
sempre uma passagem para o outro lado das palavras que motivam a manhã, as aves
e os frutos da vazante. O regresso à justiça dos dias é que torna penosa a
significação das palavras que descansam nos livros, ou em nossas mãos.
Augusto Mota, texto 22 de «A Geografia do Prazer», 1998
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
domingo, 31 de março de 2013
A Geografia do Prazer
O CONVÉS DA VIAGEM
Deitado sobre o convés dos livros olho o
cavername da sala, agora transformada em navio, e zarpo em direcção ao
território da espera. O oceano atormenta a saída da barra, enquanto disfarço a
demora com sequências apetecidas e imaginadas:
uma cidade repousa a meu lado e, juntos, vivemos e morremos num
perpétuo vaguear pela nudez das sensações que descobrimos a cada momento. face a face olhamos o espanto de nossos
olhos, enquanto a mão do acaso alcança um sol-em-flor e lança sobre os nossos
corpos o artifício do fogo que já queima as ruas que desejamos visitar. nelas habitamos o prazer desta
peregrinação. não vogamos, afinal, no
oceano. preferimos a volúpia da ria
espraiando-se pelo tempo passado a ver barcos altivos a sulcar a calma das suas
águas e a sentir o cheiro acre do moliço
acabado de estender ao sol.
pousamos a cabeça nas horas solares, como que para sentir o pulsar do
tempo e desenhamos na paisagem aquática o sonho de ontem: como um polvo
agigantam-se os braços tentaculares de uma árvore de carne e seiva. nos seios pendentes queremos olhos, enquanto
do esbracejar dos ramos despontam rosas, relógios e o ritmo que alimenta a
fantasia. é uma árvore feminina esta a
que propomos ao nosso encantamento e é através dela que esperamos lavrar a ria,
o mar e os rios que se atravessam em nossos lábios e impedem a tranquilidade do
corpo. por isso sentimos a cabeça
vazia e não somos capazes de nada.
intranquilos, então, nos olhamos e cansados ficamos da azáfama das horas
e do jogo das palavras que se intrometem nas situações.
Solidários regressamos aos livros que
atapetam o convés da viagem e transpomos o portaló a caminho da realidade dos
dias que são o nada e o tudo de tão difícil existir.
Augusto Mota, texto 21 de «A Geografia do Prazer», 1998
O Artifício da Loucura
O ÚLTIMO CÍRCULO
Há que ter a maravilhosa
certeza de que amanhã tudo vai estar certo. Urge fazer dos dias que avançam
para nós limites possíveis de nossas sensações todas. Há que poder enquadrar em
cada minuto essa certa certeza que hoje nos individualiza. Essa esperança tão
subtil no devir guiado por nossas mãos tem que ser o denominador comum de todas
as sensações de hoje. Senão tudo é falso, tudo nos vai saber a régia
ante-câmara para uma terrível pobreza. De espírito. Sim, porque é o espírito
que hoje nos alimenta e dá forças cada vez mais renovadas para a carne que, em
festim, temos de oferecer a alguém. Ou, então, será a morte.
Vive-se sempre para a carne por
sabor estético. Sempre. Hoje e cada vez mais. Esta deve ser a maior descoberta
do nosso tempo. Devemo-la à psicologia e aos poetas. Destes tiramos, por dom de
formação e sofrimento, aquela verve simbólica com que nos deixamos envolver e
que, mais ainda, nos dá aquele gozo (quase subalimentação) cujo gesto deixamos morrer em nossas
entranhas por egoísmo lúcido, que outros teimam em disfarçar de educação. Esta
jamais pode ser confundida com disfarce. Será sempre e sempre consciência
lúcida em actos e palavras. Será, cada vez mais, exegese de espírito e de
matéria. Impõe-se (e só) por uma consciência universal de tudo o que define o
homem e o integra na vida, essa vida total que hoje o progresso exige sábia,
humilde e consciente. Para tanto, a psicologia
(e a poesia) impõe-nos o espírito
como consciência primeira de vida.
Há que ir bem fundo em nosso eu de hoje e quase morrer no esforço da
travessia de nosso mar subterrâneo.
Sejamos individualistas nessa perigosa viagem. Se voltarmos à superfície será
com a cabeça coberta de limos e alegres com o prazer da vitória. Haverá, então,
a certeza de que trouxemos connosco toda a vida escura de outrora, todo esse arrastar
de algas que nos retraía os passos e nos fazia prisioneiros em nossa própria
habitação.
Feliz viagem esta a dos poetas
e da psicologia. Felizes os que se dão todos depois deste cansaço obscuro.
Tem sempre que ser assim. Este
egoísmo que inunda as vísceras é antes amor ao próximo e nunca a nós mesmos.
Depois a entrega é sempre mais total e nem se confunde com propaganda altruísta
e só-palavras. É adesão total, por carne e mãos, à alma dos outros, àquela
secreta existência alheia que, ávida de calor e gestos, quase sentimos arranhar
nossos olhos e nossos pés. Por isso se torna difícil o caminhar. Os pés sangram, doridos, e os
olhos recusam-se a olhar, por quererem ver mais.
Tudo é assim tão estranho, mas
tão verdade. Tudo é assim tão exigente, mas tão belo. Tudo está, então, certo,
por nada estar certo. É, porém, nesta antinomia de palavras (nunca na oposição total do drama) que tem de radicar o vigor da nossa fé. É aí
que a psicologia e os poetas buscam a definição da vida. O resto perde-se
em palavras que nunca encontrarão eco
para lá do ruído das fábricas, ou dos números que invadem cada vez mais as
escrivaninhas dos bancos e das companhias de seguros. Estranha esta metafísica
dos números por virtude da poesia. Entanto sejamos impenitentes no julgar da
máquina que nos envolve. Há sempre que deitar um braço de
fora e gritar por entre as engrenagens que nos torturam a carne e a alma. Sábio
indício de que progredimos em nosso trajecto. Urge mesmo um movimento de
rotação em torno do nosso próprio eixo, enquanto gravitamos, de pés e mãos, na
sistemática desagregação que a máquina nos impõe. Essa imposição é vital. Mas
que o rodar sobre nós próprios nos dê a meticulosa certeza de que esse facto,
em si causa e consequência, é, sobre todas as coisas, utilidade para nós
revertida utilidade para os outros.
Então existir é cumprir uma
existência de sangue no lugar justo. É saber florir as unhas no esforço da carne.
É, depois, entregar as rosas de nossa fecundação à órbita onde gravitamos por
direito e por utilidade. É assim que a psicologia nos diz que todas as rosas
são vermelhas do esforço do nosso sangue. É assim que os poetas nos confirmam
que as rosas são vermelhas do esforço do nosso sangue. Nesta identidade de
rotação e translação descobrimos o círculo de nossa existência. Por isso
sentimos que tudo nos pertence. Mas de tudo há que ter a poética consciência do
que é orgulho e do que é responsabilidade. É que não pode existir orgulho na
entrega. Ela tem de se justificar pela razão da própria vida e de tudo.
A responsabilidade é que é
fruto da razão que se quer forte para dar mais vida às próprias sensações. Esse
será o gozo total, o último círculo, o nosso limite, a consciência grandiosa de
que o nada e o tudo se identificam com o verbo da existência.
Só assim teremos a maravilhosa
certeza de que amanhã tudo vai estar certo.
Augusto Mota, texto 12 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
-
Discorrências sobre o nosso próprio limite.
quarta-feira, 20 de março de 2013
Subscrever:
Mensagens (Atom)












