segunda-feira, 20 de maio de 2013
domingo, 19 de maio de 2013
O Artifício da Loucura
Pareceu-me traição ter ficado encostado a uma coluna enquanto, bem
dentro de mim, não aceitava a despedida. É sempre mais justo que seja eu a
partir. Pelo menos disfarça-se mais a fraqueza. Assim fiquei triste e alheio e,
de repente, comecei a achar tudo estúpido. Tudo, isto é, a vida a estação, o
porteiro, eu a entregar um bilhete
que foi separação (era curioso que nas
estações se pudessem comprar bilhetes de separação… Era curioso e estúpido!), a
cidade lá fora com um Domingo que também foi nosso e eu outra vez só com a
minha tristeza e as mãos saudosas da
mossa liturgia solar. Fiquei triste como um menino que enfrenta sozinho as ruas
e as casas de uma cidade pela primeira vez. Por breves momentos caiu-me toda a
vida em cima e não to consegui dizer quando o adivinhaste e me tentavas animar.
É que eras ali toda a minha razão de ser, não só futura, mas de todo o passado.
De repente como que se justifica a utilidade de toda a inutilidade,
como que se vitaliza numa separação o
dom subtil de um acto:
“Dá-me um bilhete-de-gare-de-separação!”
(O comboio
rápido parte com atraso de dez minutos).
Toda a vida se resume a um atraso. Cada minuto de recuperação é uma
viagem ao encontro da ligação para o infinito de nós.
Depois, vertigem de mim. Não sei quem fui. Perdi-me passeando até ao
cansaço físico. Conversei alheado de tudo, porque eu era ainda todo-outro. Não
estava, nem ia. Era. Era nas mãos a saudade. Era nas mãos o sol. Era nas mãos a calma da vegetação que nos acolheu em silêncio. Sobretudo
era, sinto-o, o respeito cada vez mais nítido das nossas duas e amplas fontes
de vida. Isto é, cada vez mais consciência de um respeito e de uma
naturalidade.
É bom que este processo de individualização seja comum e paralelo, porque é
beleza. E beleza é necessidade que não morre, já que ser perene é parte
integrante e principal de sua própria definição. E aqui não será erro definir
com o definidor. Beleza é beleza. Um copo é um copo. No entanto só percebemos
bem o copo quando o amamos em nosso amor e necessidade, por via da água.
Percebemos, então, que o copo tem em si uma função, para além do existir em
vidro. Realiza-se quando tem água e serve uma transição.
Hoje existir é ter audaciosa liberdade, mas cá dentro. Ama-se, mas cá
dentro. O que se vê é sempre fruto de outras coisas que nada têm a ver com
amor. Este é de dentro. Mas também é das mãos. Este é de dentro. Mas também é
dos olhos. Olhos e mãos são a conjugação gramatical para quem não sabe dizer
outros, ou nenhuns pronomes pessoais. São o eu absoluto feito tu. São o
processo maravilhoso de outra forma de poesia, porque maior. São em sua
insaciável e plástica substância a identificação total dos sub-planos e dos
super-planos de nossa física e metafísica existência.
Na confiança que conhece se funda a confiança na vida. Neste
voluntarioso acto de aceitação se baseia, pois, a amizade e a energia que
dominamos. A amizade de sangue quebrou barreiras, não de escrúpulos, mas de
sociedade, deixando que se fortaleça cada vez mais o respeito de e a
algo que não se pode definir, mas que parece radicar em nossa própria carne e
em nosso próprio espírito.
Agradeço-te, mulher ou cidade, a saudade que me fazes ter de ti. Mas
saudade-sempre. Hoje e quando habitas em meus olhos pelo favor da distância,
mas da física. Por isso me torço e me envolvo e me canso para me dar todo à
memória da tua presença. Fixo, porém, a vista numa escada e tenho saudade de
ti. Fixo a vista outra vez na escada e tenho saudade de ti. Por isso quando
estou longe, ou abstracto, pode ser por saudade de ti. Às vezes é de mim. Por
pena de mim. Por morte de mim. Para vida de mim.
Tudo é tão estranho e subtil, hoje! Hoje o quê? Hoje, sobretudo. Hoje
que existo por dom da palavra e da distância verbal de meus desejos e
sentimentos. Por isso estou calmo. Talvez por não saber nenhum pronome pessoal
para a conjugação do nosso verbo. Calmo por saber que esta ignorância é douta
em sua maravilhosa e natural sublimação. Não há castigos, nem promessas do
mestre. Há um existir em mãos no sol, em mãos na água, em mãos no fogo, em mãos
na terra. Em nossas mãos existe o favor dos pontos cardeais. Por nós o norte,
por nós o sul, por nós o leste, por nós o oeste.
Assim virados para o mundo em tal favor, corramos dentro de nós mesmos
e abracemo-nos lá onde as mãos parecem calar-se, por grandeza ou complexo, mas
onde os olhos já são suficientemente grandes para se aceitarem de imediato.
Augusto Mota, texto 13.4 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
O Artifício da Loucura
Parece que hoje te desejo praia, hoje
nesta manhã enevoada e retirada ao meu horário habitual por imposição própria,
como se eu e a metereologia quisessemos coincidir na celebração do que foi
sagrado há oito dias. Dentro do vocabulário litúrgico talvez seja melhor
chamar-lhe requiem, um requiem de carne e estação, uma selvagem
atitude de compromisso necessário e lícito como a frieza da neblina que nos
acompanhou e fez, depois, derramar
orvalho sobre as margens e a vegetação da margens e as margens de nós
próprios.
Assim marginados em nós e pela circunstância ambiente,
especialmente o céu e a terra, atingimos um litoral distante, como náufragos à
deriva durante meses. Mas o nosso naufrágio era outro, talvez inverso. A
salvação parece volver-se em afogamento. O porto seguro é bem o centro de tudo,
de nós e do universo. Foi, sobretudo para o meu panteísmo feroz, o clímax das
atitudes ofertórias. Por isso te sagro na minha obscura religião. É com
lágrimas que o sinto e com grandeza de alma que o agradeço. Sabes, é como se
fosse um deus que, repentinamente, entrasse no redondel ao toque de uma marcha
tauromáquica e aclamado por milhares de aficionados. Seria o delírio perante a
besta ofensiva. Seria, antes de tudo, a apoteose do que é sagrado (porque justo e bom) e do que é feroz em sua grandeza animal (o que implica a própria definição de
tauromaquia).
Assim compreendida perante um deus
panteísta e animal esta missa saudosista
do sétimo dia, assim mesmo e apesar de todo o rito literário, continua a
atravessar-se neste santuário, como raio desferido por outro deus invejoso,
algo que me contraria e me faz volver sobre mim mesmo e reagir mal, como o
caracol que se espirala dentro da concha, quando, certamente como eu, prefere a
horizontalidade da acção, ou a verticalidade
de estado.
Contrariar é, por vezes, vencer. O
vencer é, por vezes, teimosia da parte do vencedor. Assim, vencer e vencedor
identificam-se numa mesma proposição que, se envolve acto e des-acto, é
sobretudo fraqueza e, talvez mais, desejo de aniquilação para mais vencer. Será
confuso tal raciocínio, mas, acima de tudo, quis dar-lhe aquele tom existencial
que agora me fecunda num desejo de me realizar.
Repetir todas as noites o gesto do
acordar será destruição. Isolarmo-nos em atitudes não pode substancialmente
nada. Assim o que propor? Fuga? Tomada de hábito? Reclusão? E quando os cavalos
relincham de encontro aos muros da cidade? Atacam simultâneos. Acobardam-se os
gestos. Prostituem-se ali mesmo na praça pública e, depois, aborrecem-se com
uma moral em decadência. Desencanto, sim, é a voz da cantora. Ponto final digo
eu, como falha em pauta de música. A vida, assim, perde a graça em melancolia,
como folhas mortas trazidas pelo vento leste.
“Ouves como é suave o mar? Ou será
Beethoven ajudando a união?” Agora o barquito rema contra o maestro e o
primeiro violino executa a batuta. Será o absurdo impondo um desejo atraiçoado,
ou um requinte de sábio saboreado depois da sobremesa?
(Algo escorre por mim acima e desfaz-se
em lágrimas para dentro).
Será que hoje me aproximei de um
vocativo? Ou tentei disfarçar um compromisso? Não. Chamar como todos fazem é
falta de entrega total. As palavras gastas de tantas afirmações metem nojo.
Prefiro inventar novos mitos e novas expressões de amor. Assim dominaremos o
original com um sabor de entrega não disfarçada. É que, neste caso, estamos a
abusar de uma criação para determinado fim que só nos pode trazer uma
satisfação muito especial, mesmo que nela vejamos a sublimação de um outro
desejo que se sente, mais do que se exprime. Assim rebolamo-nos nas palavras.
Assim adaptamos, sem compromisso, a exclamação ao tempo psicológico e ao tempo
físico. Será isto o denominador comum da entrega em palavras.
Tudo o que é natural é estranho, pois
acreditamos sempre mais no irreal
(quando ideal) do que no
real (quando nunca imaginado). Andamos,
deste modo, permanentemente presos numa luta de compromissos. Por isso imagino
primeiro o real, para viver depois o ideal. Isto é perigoso, mas bom e justo.
Assim me canso. Assim me arrasto. Assim não acredito que estejamos certos.
Mas o silêncio será vingança, ou espera?
Quando vingança, terá de ser vingança de nós. Quando espera terá de
ser a mesma e idêntica atitude de ansiedade de cada um de nós. Assim, e por
minha parte, desculpo um pouco a vertigem que se me atravessou nos olhos,
arrastando-te impessoal e deixando-me alheio de mim e de ti. Tenho vogado
inconsciente e ando a dormir a todo o momento, por necessidade da alma e
descanso do corpo.
De modo algum ainda regressei. Vivo
debaixo de pontes. Constantemente. No fim, mesmo no fim, vejo-me enclausurado
nesta cidade rodoviária como se a vida fosse um transbordo entre o não-ser e o
deixar de existir.
Augusto Mota, texto 13.3 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.
sábado, 11 de maio de 2013
O Artifício da Loucura
Com tudo isto já tenho lágrimas na garganta e rostos no coração. Sou
nem sei quem nesta escolha de um figurante para mim mesmo. Suicido-me nas
minhas próprias lágrimas como se tecesse uma corda de água para me enforcar.
Mas, então, hesito e espero. Tudo se dissolve na ausência da memória e na
exigência do querer.
Quando entornaremos o passado pela vertente abaixo de nossa vida já
vivida? Assim tecemos roupa nova para as mãos e outros olhares para os gestos.
Depois há coisas que se perdem pelo espaço fora e eu já tenho ciúme das aves.
Animais poéticos somos nós! Para quê efeminar um sentimento? Oh, pobres aves!
Não lhes dêem liberdade e verão como hão-de morrer em nossas próprias mãos
assassinas!
Mas eu queria uma flor! Grito angustiado por uma flor e confundem-me
com um louco. Vem, só para mim, um hospital e tanta enfermeira! Ah! deuses e
demónios, dai rodas a minhas mãos que voarei pela cura dentro, perpetuamente
pela cura dentro! Ah! mas vivo louco por mim abaixo, louco por mim acima! Ninguém
sabe, parece-me, que me arrasto com tanta dor desde que, pela primeira vez, descobri que algo me estava a ser negado.
Criei, então, qualquer coisa com estas minhas verdadeiras mãos e, assim, um
mundo se me abriu: conversando com as flores descobri em mim algo de diferente.
( Eu de flores só lhes percebo os olhos ougados! )
Assim o sexo dos animais foi para mim a primeira afirmação de que
qualquer coisa nos estava a ser ensinada de outra maneira. Assim eu me fecundei
em flores e pássaros.
Alguém me diz agora: “Vem aí um hospital!”. Ah! flores, fazei-me
habitar em vosso cálice ou sentirei todas as ambulâncias do universo gritarem
por mim,
Loucura, sábia loucura esta que me arrebata todo, mas todo, para os
minutos em que me sinto respirar sem mim. Invejo os átomos que se escondem nas
sensações, nas agora estúpidas sensações que não atravesso com o olhar.
“Ai, assassino, atómico assassino, procuram-te por teres roubado o
maior ciclotrão da Europa!” - isto parecem dizer-me as palavras que ainda não
chegaram à minha razão.
É isso, sou um homem permanentemente desacreditado. A história e a
glória de minhas mãos pertence sempre ao fracasso. Vivo nem sei como. Tenho os
olhos a ocidente e o sexo a oriente. Assim não sei como governar os segundos e
os anos. Vou desistir de viver. É que não arranjo maneira de fazer de tudo isto
um diálogo permanente com a sensatez da minha própria razão.
Dói-me tudo hoje. Tudo. O norte onde não habito, porque estou no sul. O
sul que não habito, porque estou no norte. O sexo e os olhos é que parecem
estar parados. Fui vítima daquilo que não me deram: a unidade de mim quando
jovem criança. Deviam ter-me prendido a imaginação e os dias às pernas das
mesas. Fiquei demasiado senhor e desconfiado daquilo que tocava. Depois dei
nova grandeza (outra grandeza) àquilo que queria distante, ou sabia distante e
queria perto das mãos. O mundo
revelou-se-me demasiado desfeito, demasiado inoportuno para o que eu já sabia.
Entrei cedo demais na música das flores e no círculo dos segredos mais íntimos
do universo.
Tudo se reduz, afinal, ao relativo de nossas sensações, ao tempo exacto
de nossas sensações. E como gostaríamos de as prender, ou matar, quando elas se
impõem à memória com uma permanência exacta, viva, real, quotidianamente exasperada. Assim concluímos tanta coisa
errada!
Augusto Mota, texto 13.2 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
O Artifício da Loucura
O ARTIFÍCIO DA LOUCURA
Loucura, sábia loucura de sexo e mar esta que passou a
invadir-nos e que espalhamos por nós mesmos como se fora uma benção para o
corpo. É que assim obrigamo-nos só a acreditar naquilo que conseguimos dominar
e fazer e desejar. E então quando se tem uma mulher, nem que seja só pelas
mãos, ou pelos olhos, ou ainda no mais secreto do nosso centro, o infinito
estala-nos nas unhas como se fosse fogo
(ou artifício) a relaxar-nos os
nervos. Depois o receio passa a ter outra dimensão, já que o desejo se alimenta
da própria loucura. Esta, porém, nunca é um fim de libertação, mas um meio de
justificação, ou caminho paralelo para a purificação.
Tudo isto, tudo isto, contudo, deve saber a
estultícia, a outra maneira de disfarçar a solidão e o tempo que separa as mãos
que amam dos olhos que desejam. Este género de apetências acarreta sempre
outros factores que definem e condenam. Mas salvam, sobretudo. E é bom que
assim seja. A salvação quando está no desejo justo é uma via justa para as
pernas, ou para a imaginação que nunca se cansa de caminhar, de muito caminhar
pelas flores dentro, pelos prados fora, pela ausência de outro corpo, ou pela
presença de nosso próprio sexo.
Ai as mãos e os poetas! As flores
quando germinam já estão condenadas. Faz parte da apetência. É a salvação. É
outro ritmo para o sangue e para a carne. É um novo plano para a construção do
mundo, ou da cidade, ou da nossa célula familiar. A poesia é que, quase sempre, receia a
edificação das ruas, ou servir as montras de
nossos estabelecimentos corporais. Nessa altura já não se processa nada e
ingentes serão os braços perante tal recusa.
O que vale é disparar contra o
espaço todas as nossas virtualidades e agarrarmo-nos bem ao tempo, não das
recordações, mas ao tempo que iremos viver realmente. Arranjaremos, por certo,
calma para os olhos e calma para as mãos. A boca terá
outra tarefa. Ficar
calada, ou sorver
os nossos próprios olhos para
alimentar o futuro espaço na exiguidade das horas que vão sobrar. É que quando se alimentam tais
horizontes em nosso próprio peito sujeitamo-nos
à tortura das palavras. A desfilada é outra espécie de corrida para as
sensações e para os dedos:
Encostei-me a uma sensação e despenhei-me pelo abismo do meu sangue.
Ah! Como domino estas flores e estes
pulsos que ergo para ameaçar a derrocada! Grito! Grito por mim abaixo e
sinto nos pés a força deste caminhar. Vou para oriente. Aí repousa a memória
dos dias e revejo-me criança. Esta queda em minha infância parece insidiosa. É
justa, contudo. Sinto-lhe o valor e albergo nela todos os gestos que hoje me
amparam as sensações. Por isso este desfalecer encostado à memória me traz uma
satisfação de juventude e uma força de método.
O sangue agora é outro e a mulher que me atravessa a garganta
verticalizou-se apoiada ao mais belo de mim. Respiro com outra dificuldade
e tenho
que dizer às mãos
que a poesia já não é um grito de pássaro, ou um grito de flor. A poesia, agora, é tudo o que vibra entre
os meus dedos. As sinfonias passaram a ser outra coisa, mas a mesma coisa vista de outro modo. O maestro sou eu. Domino a orquestra com um
simples gesto, ou repudio a liberdade das escalas musicais.
Outra maneira de me encostar às sensações é este costume de domínio
para perceber o que tento criar. A criação parece ser, portanto, uma sensação
de domínio que nos é oferecida para nosso governo:
HÁ FOGO NA
CONSTRUÇÃO DO MEU ANIMAL !
Agora habita-me as pernas um horizonte estranho. Estou virado a norte e
a ocidente queda-se o mar e o céu. Os pinhais escoam-se até aos joelhos e não
me deixam andar. Os passos são outro sentimento para aquilo que empresto às
mãos. Estas, por força da noite, entregam-se a outro caminhar que não sabe o
que é distância, nem o que é cansaço. São vertigens isto que tenho! Vertigens
num mirante sobre a planície e a aula. Os alunos são camponeses e operários.
Moços de lavoura todos nós o somos. A algazarra e os bois é que nos dão uma
estabilidade de pessoas opulentas.
Sensações, sensações, sensações. Os óculos são um automóvel. Os olhos
um corredor e eu um quarto encerado. Os passos espelham-se no lustro como se
fora um palácio que me dessem para habitar. O mármore está nas veias. A
escadaria são as pulsações. Quando entro em mim parece que há trombetas para
saudar um visitante desconhecido. Régia corte esta! Alabardas sim, mas quero
outro ritmo em toda esta diplomacia.
Augusto Mota, texto 13.1 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
A Geografia do Prazer
UMA FLORESTA DE APARÊNCIAS
Chove sobre o corpo da cidade emudecida e
as beiras a pingar no vidraço dos passeios são o único sinal de vida que chega
até nós. Foi-se a azáfama de outros tempos e, agora, apenas os cães de raça
nórdica, que jazem a nossos pés, transmitem vibrações carinhosas e aquecem o
ambiente com a sua máscara característica e o olhar azulado das grandes, frias
e brancas extensões boreais.
Esta chuva lava-nos por dentro. Ao mesmo
tempo enriquece o solo onde plantámos árvores-de-homenagem para crescerem e
recordarem os tempos dignos de uma memória viva, quando o machado azul do
lenhador não conseguia cortar a raiz ao pensamento. E é este pensamento que vem
de longe, agora reforçado pela memória das coisas ausentes, que sentimos viver
à flor da pele e nas ruas chuvosas do nosso silêncio. E é este silêncio que faz tremer as raízes e os ramos das
árvores por onde, todas as Primaveras, corre a seiva que alimenta os gomos de
onde surgirão os novos ramos, as novas flores e os novos frutos. Esta
celebração da natureza não é um rito tribal, antes a justa homenagem aos feitos
que devem povoar a história dos dias e das cidades que guardamos na memória.
E assim gravamos o passado nos troncos
firmes das árvores! Mas vai sendo cada vez difícil progredir nesta floresta de
aparências que não deixa ver a clareira onde desejaríamos acampar emoções e
sensações.
A chuva parou. As beiras já não pingam na
calçada. O que não gravámos na memória das árvores perdeu-se pelo meio das
recordações mais recentes e vive algures. Talvez no espaço. Por certo entre as
palavras que, a esmo, nos inundam a escrita e tingem de negro as mãos que as
atiram ao ar para caírem, de novo, no crivo da experiência, deixando que o
vento norte arraste, para longe da eira onde escrevemos, as impurezas de estilo
e de significado.
Depois de tantos dias de amanho da terra e
a plantar palavras, a regar palavras, a colher palavras, a joeirar palavras,
resta-nos, para consolo do corpo e do espírito, a adiafa das palavras.
Augusto Mota, texto 40 de «A Geografia do Prazer», 1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
A Geografia do Prazer
O JARDIM DAS PALAVRAS
É com orquídeas que
se sagram as mãos e os frutos que colhemos nas tardes de Janeiro, quando as
árvores já aguardam o abrolhar primaveril e as plantas mais exóticas iludem as
estações do ano com a explosão do seu artifício floral. Sempre que os jogos
poéticos das palavras e dos perfumes mais ténues se articulam, de viva voz,
sobre um peito nu, a sintaxe que combina as frases do discurso é já outra. Por
isso as relações entre as flores, as mãos e os poemas se confundem nas
alegorias e nas alegrias da jardinagem que enfeita as cidades do nosso querer.
Enfeitamos de odores as dores que
disfarçamos de flores. Enfeitamos de flores os odores que disfarçam as dores.
Enfeitamos as dores com os odores das flores.
É esta arte de jardinar as palavras em
rectilíneos canteiros que dá sabor novo aos frutos que acolhemos em nossas mãos
e depositamos, com carinho, na cesta de vime que os transportará ao mercado de
todas as sensações. Flores e frutos são vivências de um mesmo ciclo da natureza
que ajudamos a renovar com enxertos da nossa memória. Flores e frutos são,
também, as palavras enxertadas de experiência que deixamos deslizar pelo corpo
fora, como se elas pudessem lavar as angústias que povoam os bairros degradados
das cidades invisíveis que ontem construímos.
Tanta palavra escondida nas orquídeas que
descobrimos, por mero acaso, ao pôr-do-sol! Entre brincos-de-princesa e cálices-de-Vénus, elas esperavam a
nudez de um gesto que confundisse o seu aroma suave com o calor rosado dos
frutos da nossa memória.
A ela, à memória, oferecemos, em ritual,
as primícias do nosso jardim interior!
Augusto Mota, texto 39 de «A Geografia do Prazer», 1999
quinta-feira, 9 de maio de 2013
A Geografia do Prazer
São invisíveis as cidades que criamos à
volta de nós mesmos e dos passos que damos em direcção aos pontos cardeais de
uma secreta navegação interior. A nosso bel-prazer lançamos os alicerces de
novos horizontes e, serenamente, construímos ruas e avenidas que correm a nosso
lado, mas que, por vezes, nos ultrapassam sempre que é preciso adiantar as
pontes de que nos servimos para alcançar o outro lado das palavras.
No seio desta cidade repousa a glória das
viagens tantas vezes empreendidas ao sabor de um acaso que disfarça as rotas
íntimas da solidão. Por vezes é nas mãos frias que aquecemos o peito abandonado
ao ritmo apressado da respiração. E com elas modelamos os edifícios que
bordejam as ruas e avenidas da nossa construção. E com elas, em jeito de
concha, sorvemos a água das fontes que ornamentam as praças da nossa liberdade.
E ainda com elas, agora aquecidas de tanto caminhar pelas sensações adentro,
saboreamos os frutos das árvores que soubemos ir plantando ao longo da nossa
imaginação.
É nos frutos da liberdade que ousamos descansar os olhos doridos do
traçado metódico das palavras que se
atrevem a significar o impossível. As cidades possíveis, essas, continuarão a
ser invisíveis, mesmo que as pontes das palavras nos levem ao outro lado das emoções.
Augusto Mota, texto 38 de «A Geografia do Prazer», 1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
A Geografia do Prazer
TEMPO DE LAVRAR
Junto às muralhas da cidade antiga
acampámos as sensações que invadiram a noite de lua cheia. Como turistas
avisados percorremos as ruas todas dos bairros periféricos e saudámos com
gestos amigos a azáfama que agitava o mercado de levante. Em cada tenda
saboreámos os doces regionais e provámos quase todas as iguarias da gastronomia
local. Experimentámos roupa nova e divertimo-nos nas barracas de jogos
inofensivos. Comprámos flores brancas para entrelaçar no vento frio que agitava
os cabelos e gretava os lábios. Nos olhos cansados de tanto alvoroço guardámos
as emoções que os dedos foram lavrando no campo enluarado, como se estivessem a
bordar um precioso bragal.
Agora, sentados nas largas avenidas do
centro da cidade, descansamos do tempo da lavra e aguardamos uma safra
abundante a justificar o zelo que soubemos repartir pelo terreno arável da
imaginação e pelo corpo aberto das sensações. A cidade, vista de dentro e de
perto, parece aliviar-nos do esforço e dos anos que caminham sempre ao nosso
lado. Por isso é bom olhar os olhos que sabem olhar e aquecer as mãos nos gestos que sabem desculpar.
A noite fria
dilui-se no brilho dos olhos que reflectem a lua cheia e juntos atravessamos a
barbacã a caminho da realidade.
Augusto Mota, texto 37 de «A Geografia do Prazer», 1999
A Geografia do Prazer
OS CAMINHOS DO ACASO
A quem vamos oferecer as rosas e as espigas secas pelo
tempo e pela ausência? Por certo à memória da cidade onde vivemos outrora o
ciclo de muitas estações, procurando, entre a Primavera e o Outono, plantar as
memórias floridas do nosso futuro, memórias que secaram muito antes do nosso
último e íntimo Inverno. Traiu-nos a esperança de tanto esperar. Fugiu-nos o
horizonte dos poentes frios, mas prometedores, dos fins de tarde de Outono à
beira- mar, ou no meio dos pinhais a ouvir, ao longe, o marulhar das ondas e a
sentir o cheiro agridoce das camarinhas que íamos ripando pelo caminho e
comendo às mancheias. Ficou a memória de tudo isto, bem como do ritual de fazer
geleia com tais bagas silvestres, o que prolongava a calma dessas tardes
vividas entre o prazer e a paixão. O resto ficou gravado, como se fora um
epitáfio, na memória da natureza, que recolhe e reconhece todos os gestos bons
que fazemos em seu e em nosso proveito.
Se hoje outras rosas negras vêm ao nosso encontro,
orvalhadas pela maresia e pelas lágrimas, é porque a natureza reconhece não só os gestos bons que guardámos
na memória, mas também o destino das promessas feitas em intenção de despedida,
como se tudo fosse tão fácil, ou difícil, como apanhar um comboio na gare, a
caminho do Oriente. Só que para tal viagem sem retorno as despedidas são mais
embaraçosas, as palavras não têm significado e os olhares cruzam-se num
horizonte de angústia. Que promessas, então, se podem fazer, para além de
algumas palavras que morrem no absurdo do momento?
Hoje, em cada rosa viva que colhemos nos caminhos do
acaso, cumpre-se ainda o absurdo das viagens empreendidas sem rota programada,
nem espírito de aventura, mas em seus espinhos refrescamos os lábios e os
olhos, como se fôssemos um jardineiro-mestre encantado com os resultados de
suas experiências botânicas. Com desvelo acariciamos o perfume silencioso das
pétalas e guardamos a flor inteira no mais secreto solitário que enfeita o
nosso trabalho e motiva as palavras escritas no frio isolamento das
noites.
Uma nova Primavera
há-de antecipar, por certo, as narrativas justas e íntimas das tardes de
Outono vividas à beira-mar, entre rosas e esperanças e, assim, aquecer a
memória dos dias.
Augusto Mota, texto 36 de «A Geografia do Prazer»,1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
A Geografia do Prazer
UMA MÃO CHEIA DE ÁRVORES
Do cimo deste monte avista-se a estrada larga das boas
recordações que enxameiam a memória e se estendem pelo vale além, por entre os
povoados que marginam as fontes do Lis e por entre a neblina que anuncia um fim
de tarde de Inverno e sol. O vento refresca os olhos e a cara, como se quisesse
acordar-nos para todo um passado onde os sabores e os cheiros se misturam com a
infância e revivem, agora, no prazer gostoso das palavras, do vinho, dos
enchidos recordados e de outros realmente saboreados.
Saber ver a natureza também é isto de saborear o gosto
das palavras, apreciar o tempero dos enchidos e avaliar o corpo do vinho, tudo
à mistura com as vivências irrequietas dos tempos em que o nossos dias corriam
ao sabor das estações do ano e da cor das flores que salpicavam de amarelo as
colinas viradas a poente.
Tudo hoje é diferente, embora tudo seja a mesma coisa.
Olhamos e vemos o mundo como se já nos estivéssemos a despedir dele. Por isso
as recordações de infância invadem as palavras e os comeres. Com elas passeamos
pelos montes e pelos vales deste território que definimos com os gestos que
desenham o círculo do horizonte à nossa
volta.
Depois de amanhã plantaremos, mesmo por entre as
pedras agrestes do monte, uma mão cheia de árvores, das que melhor sombra
possam oferecer aos frutos que hão-de antecipar outros futuros!
Augusto Mota, texto 35 de «A Geografia do Prazer», 1999
A Geografia do Prazer
O ÍNTIMO DESÍGNIO
Enfeitado de rosas negras e juncos selvagens,
criados nas margens da madrugada, chegou o fim do ano, apressado e secreto.
Amanhã é sempre o hoje que dissimulamos no rosto
das pequenas emoções que vivem e desaguam no gesto da oferta e nos abraços que
envolvem a saudação ao novo ano. É íntimo este desígnio das flores enlaçadas
pela dádiva e que cintila nos laços e nos gestos que amarram o passado à memória do futuro.
Hoje é noite. E a memória vive por entre os juncos e a natureza que enfeita de saudades as
margens deste nosso rio, das fontes até à foz.
Augusto Mota, texto 34 de «A Geografia do Prazer», 31.12.1998
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
A Geografia do Prazer
A ESTRELA DE ALVA
A ânsia da
espera desbarata as emoções e não deixa
viver o tempo presente que tanto
amparámos entre sonhos e vigílias. A saudade do que se imaginou inventa novos
pretextos para admirar a paisagem que renasce sobre o corpo da memória e a
carícia das mãos.
O silêncio
junta os olhares deitados sobre a planície onde outrora cavalos selvagens
corriam em direcção ao mar e à liberdade. Hoje pouco se avista para além do
cansaço e das intenções que desaguam nas palavras apenas murmuradas.
É Inverno, já.
Sabe bem, por isso, encostar as sensações à aragem fria da tarde e esquecer o
tempo que despimos das obrigações da quadra festiva. A festa, agora, é a dos
sentidos que percorrem a geografia do corpo e traçam novos itinerários para a
descoberta do princípio da vida. Se é a alma que procuramos, ela poderá estar
na ponta dos dedos e na palma da mão onde, em tempo de sonho e júbilo, já
cresceram estrelas.
Agora é nos
olhos que queremos a estrela de alva, para com ela avivar e avisar a memória de
tudo quanto iludiu o espaço da viagem e das emoções.
Augusto Mota, texto 33 de «A Geografia do Prazer», 1998
A Geografia do Prazer
Tocata e fuga é a melodia que acompanha a viagem
através da manhã e das gaivotas que anunciam a
aproximação da cidade. Silenciosos atravessamos a ponte entre a paz e o azul
aveludado que aquece os gestos e os dedos que buscam o princípio e o fim do
horizonte. Aí se sente a respiração da cidade. Uma sensação de vazio sobe pelo
corpo todo e invade as palavras que já não conseguimos pronunciar. Uma calma
inesperada dilui-se no desejo que desagua no rio voluptuoso a caminho da foz e
dos navios mercantes que esperam notícias deste bloqueio sentimental.
São fardos pesados os segredos que se ocultam por
detrás de cada chamada à realidade que vivemos entre viagem e viagem, entre ser
e existir.
Existimos para viajar por nós dentro, como se o corpo
físico fosse a máscara alugada para o carnaval perpétuo que disfarça angústias
e alegrias.
Somos nós nos gestos que enfeitam as palavras pensadas
- e nunca pronunciadas - que acompanham as excursões sentimentais a caminho do
mar alto, onde emoções, sensações e recordações se afundam para, mais tarde,
dar à costa do prazer que, solitários, enfeitamos com as vozes distantes que os
fios e a memória trazem até nós. Então revivemos o percurso vertiginoso das
viagens oferecidas aos sentidos-todos que nos possuem e nos forçam a desenhar,
nos mapas da imaginação, os roteiros certos que queremos percorrer a caminho de
nós.
São difíceis estas viagens onde queremos ser para além
de existir!
O silêncio, em sua eloquência, não compromete nem os
gestos, nem os olhares que se dirigem sempre para além do horizonte e da ponte
que agora atravessamos a caminho do cais onde aportamos as nossas intenções.
Augusto Mota, texto 32 de «A Geografia do Prazer», 1998
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
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