quarta-feira, 22 de maio de 2013
O Artifício da Loucura
Será que ainda caminhas pela areia de nossos passos, ou
reduzimos o tempo ao sabor da memória? Será que ainda caminho pele areia de
nossos passos, ou reduzimos o tempo ao sabor da memória? Ai esta imaginação que
se alimenta tanto do que perdem as mãos!
Tenho-me preocupado com a imagem de nós a caminho das dunas, nós
delicadamente amigos e um tanto diplomatas! Esta imagem impõe-me qualquer coisa
de estranho que ainda não desvendei. Reparaste que o longe que avistámos estava
já lá, mas o perto que íamos vivendo conquistava-se àquele imediato futuro cujo
sabor, ou posse, às vezes desperdiçamos? Portanto o futuro pode conquistar-se
com a vista, mas não se viver com as mãos.
O que fui, o que sou, o que serei a ti cabe em desgraça. Se é o coração
que beijas é, antes, a minha vida que sorves, como se novos processos da
medicina pudessem resolver-se num acto físico recíproco. Ah! Eterna esta carne
que nos cobre os ossos e nos transmite também as doenças! Ah! Diabo de vida
onde vivemos e morremos com a sensação de contínuo perdão! Mas perdão para
quê? Quero querer para
além de todas as forças e descobrir, descobrir porque se me abafa a cabeça em certos momentos e
me sinto assassino, ou desgraçado de sentimentos. Às vezes parece-me ultrapassar o cume lícito de minhas
vibrações e desfaleço tanto que me sinto como a criatura mais repudiada do
universo. Começo a sentir a pele inchar sobre o pulsar das ideias e as palavras
falam tanto para dentro, tanto para dentro, tão vertiginosamente para dentro
que não reajo ao menor (ou maior) estímulo. E isto tudo é por um sentimento de
amor. Por um grande sentimento de amor. Daqueles que nunca se encontram, mas
para onde se caminha.
Anda, vamos pela praia. As pegadas que ficam para trás são mesmo nossas.
Não iremos sós. Nossos passos justificam a companhia das mãos.
Assim sendo e quando algo desce sobre mim como maldição, ou santo
espírito do mal, recolho-me ao conselho de minha infância e arrasto anos a
desvendar o fruto do meu trabalho. Venho depois (venho sempre) mais justo e
bom. O sofrimento sempre me alimentou e justificou os olhos. Estes que vês são,
apenas, para solenes ocasiões. Escondo outros, para dentro, que ofereço e gasto
no fogo e voragem da minha luta. Ou, então, serão todos a mesma coisa (já nem
sei), purificados agora pela boca de teus desejos.
Agora como nunca o tempo parece ter parado. Que estupor de vertigem
esta a de viver antes do tempo! Ainda se tivesse forças para me entregar a
outros devaneios, o tempo seguiria o seu rumo normal. Mas não. Penso,
sobretudo, que ainda vamos ter tanto tempo entre as nossas vontades e o chegar
de um comboio. Ah! Mas então costumo deitar-me, também, na sensação do
imaginar-te e durmo por ela dentro, até ficar acordado para o calor que me sufoca,
para a cabeça que me pesa e para as pernas que acusam o tormento de viver de
cabeça para baixo. Ah! Quando? Como? Justiça? Olhos? Boca? Interrogações sem
nexo? Ou eu apenas desejoso de querer respostas de tua própria boca? Não sei,
francamente, se estes dias todos serão de calma ou de doença. De qualquer modo
terão de ser vingados. Nós o exigimos para nossa igualdade.
Deixa-me, ao menos, brincar nas ruas de tua cidade, já que nada me é
lícito neste frio que tenho. Nesta ausência de palavras que tenho e não queria.
Mas, agora, o querer já me exige outras grandes coisas para além das palavras e
do silêncio dos meus gestos desperdiçados. Então amar é ter consciência dos
gestos que se desperdiçam no silêncio, neste puro silêncio onde os olhos não se
reflectem, onde as mãos não se comparam, onde as bocas não murmuram sentimentos
para as horas. E tudo, tudo parece ir e vir de mim e para mim, sem qualquer
significado, sem outra responsabilidade que não seja a de querer ter
consciência desse todo (ou tudo) que me faz tremer e gritar e depois volver-me
sobre mim mesmo. Ah! Mas todas estas voltas serão um dia redimidas pelas mãos,
pelos olhos, pela boca, por tudo isto perpetuamente redimidas. Assim redenção e
amor igualam-se e purificam-se. Assim os gestos e as intenções desses gestos
serão nova expressão daquilo que não sabemos que somos.
A intenção e o ser ganham no futuro significados absolutos. Condicionar
o futuro será, outrossim, hipotecar a intenção. Será, até, limitar o que se
anseia com aquilo que se teme.
Augusto Mota, texto 13.9 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
O Artifício da Loucura
Sabe-me bem pronunciar este chamamento de ti. Pena que o
suspiro que me invadiu agora não o possas sentir mais perto para meu inteiro
favor. Depois de tudo nem sei quem tem a culpa do vazio que nos separa. E acho
que é muito justo não o aceitarmos. Temos tão pouco tempo. Temos tanta coisa
para não dizer e escutar com o silêncio vertebrado dos olhos. E como te poderei
abraçar muito se estremeço neste silêncio que me interpõe a tua imagem a cada
pulsação?
Sou alheio de mim, ou outro-eu, neste querer que é sempre vontade para
desejo da minha ventura. Nem era precisamente isto que eu queria dizer, mas
precisamente isto. Sim, é esta terrível condição de querer o absoluto simples,
quando os dedos tocam só o relativo, que nos deixa ficar dominados por tudo o
que ainda nos diminui mais e faz de nós criaturas ímpares aos nossos
olhos-alheios.
O artista é, por dom sublime, mais fraco (em sua
fortaleza) do que o homem comum, pois soçobra por não realizar o seu absoluto
poético. E depois o mundo fecha-se-lhe todo, como à criança que não alcança a
laranja em cima da mesa. E a laranja é, ao fim e ao cabo, uma coisa tão banal!
Vende-se às dúzias no mercado. E porque não há-de ser justo não se vender
angústia no mercado?
E cansaço por
via da angústia. Para quê relativismos? Tudo se passa na cabeça. A cabeça, então, é que não devia
pensar certas coisas acerca da relatividade. Assim fica-se com a ideia de que
procuramos umas coisas por relatividade de outras. E é. A relatividade da minha
paz está em tuas mãos, ou cabeça. Está em ti toda que me pensas e me ajudas.
Mas vem logo o circunstanciar do nosso querer e desço em mim súbito, como que
precipitado em um abismo. Onde caio? Em teus braços, ou nas ruas de tua cidade.
E forçoso é que chore da queda e das dores da queda. Tu, mãe por meu querer,
oferece-me descanso em teu colo. Preciso de saber tantas coisas. Preciso de
saber tantos gestos, incipientes a princípio, mas cujo conteúdo adivinho útil
em minha gramática de paz.
Caio em ti por necessidade de abortar tudo o que em mim infecta o
nascimento mais verdadeiro. E sou exigente, por mim. Tenho a dor da experiência
a dar-me cabo dos movimentos mais subtis e a boca não se move no articular das
grandes palavras. Oh! maravilhosa natureza a nossa! Onde paramos neste
desabrochar de flores em tempo tão frio?
Este frio entrou-me pelas veias e estalou no fundo das pulsações. Agora
cavalga em mim como se impusesse ainda mais a necessidade de nos encontrarmos,
depois de tanto errar em angústia, ou veneno. A vida, afinal, é só esta que
levamos e o Inverno parece querer desperdiçar este tempo de juventude sem
termos as mãos dadas. Urge, portanto, que partamos já de nós até chocarmos na
corrida do encontro e ficarmos sem sentidos, pairando a meio do caminho, até
que o encontro real de nossas mãos desperte os olhos para o que inunda as
nossas faces de ternura, ou amor. Amar é tudo isto, sobretudo este correr pelo
ar e pelo mar em busca de outras sensações, este partir dos olhos ou da boca
para a lavra do infinito. Às vezes fico-me pequeno no meio deste torvelinho que
vejo mesmo com estes meus olhos.
Mas já seria grandioso se, como Jeová, olhasse o abismo, estendesse o
braço, te agarrasse pelos cabelos e puxasse bem para junto de mim. Depois o
ritmar de nossos corpos me haveria de fazer descansar do enorme esforço de ser
deus. Ficaríamos lado a lado como dois condenados que o destino atira para a
prisão. Ai a nossa doce prisão de sermos livres!
Sou Jeová, agora. Tudo em mim sou eu. Tudo em mim chama por ti. E tu,
cidade, pairas no esforço da minha garganta como se fosse lá que eu quisesse
ter braços. Quando vou para gritar és tu que sais à frente de todas as
palavras. E não grito. O segredo é nosso. Tem que ser nosso. Sim, as portas têm
que estar abertas. E que os outros sofram na carne tudo o que nos arrastou pelo
rio de sangue que agora nos inunda os membros. Ai doce sangue este em que amar
e morrer parecem rimar. É que quando se ama justifica-se a própria morte.
Intensifica-se a dor no gesto da dádiva, ou na carícia do pedido.
Ainda estamos vivos? Ou será que nunca estivemos vivos? Não sei. Mas é
tudo tão estranho. E uma gare antes da chegada de um comboio (pelo menos quando
se separam as mãos) tem sempre um vento triste que ilumina as coisas de outra
maneira. Porquê? Estranho sentimento este que comunicamos às coisas! Estranhos
os teus olhos, ou as tuas ruas, que não me queriam olhar com medo da partida! E
eu onde parava? Afoguei-me demais naquilo que os meus olhos subitamente
descobriram. Que descobriram eles? Voltaram a descobrir que és minha irmã, ou
irmã de minha cidade-toda! Maravilhosa e
reduzida família a nossa que vive e morre numa chegada e numa partida!
Sim, estamos vivos. Mas o que custa é ter consciência da loucura e
saber dominar a loucura até ao limite do possível. Quando não é possível (às
vezes escapa-se-nos pelas mãos!) morre-se mesmo em glória. E tudo isto é
difícil e estranho, dando-nos uma sensação de infelicidade que receia, ou
despreza, outra dimensão do conceito de viagem.
Augusto Mota, texto 13.8 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
O Artifício da Loucura
Está muito sol, muito sol nesta manhã de verdura e crianças. E estou na
aula. Silêncio e trabalho. Janela aberta e prado ao longe, com vacas e rio. Às
vezes tudo parece natural. Talvez seja esta calma de um automóvel buzinando ao
longe e das casas sobre o horizonte que me satisfaça hoje, neste sol e neste
dia.
É Outono, sobretudo. A janela está aberta. A minha janela panorâmica
sobre tudo. Esta e a outra. As duas. Todas.
Ao longe, mais à esquerda, avista-se o pinhal e inicio em mim uma
digressão pelo mar. Começo aqui mesmo. Estradas e veredas de mim conduzem-me
todas ao mar. Regresso insatisfeito e volto aqui e à só-janela da aula.
Trancada com um búzio assegura-te entrada e saudação marítima. Vem, anda, e
corta o horizonte e arrasa as cidade da minha tristeza de ontem. Abraça-me aqui
mesmo e justifica o momento calmo de agora. Mas acho estranho este dia e a leve
calma de hoje. Foi, por certo, da viagem e da sesta de mãos dadas sobre a proa
do navio. Será que aportei a lugar seguro? Nem sei de mim! Nem sei das minhas
mãos! Molhadas ficaram com a violência das vagas e o esforço do suor. É certo que as beijaste
quando mais desanimaram. É certo que te ofereceste toda quando mais desanimei.
As mãos, essas (e por isso), as devolvo para ânimo e recompensa da luta. Bebe
nelas a água da tua sede.
Por humana simpatia ofereço sempre primeiro ao companheiro de viagem.
Depois bebo eu e recebo em mim a vida que ficou animada em minhas mãos. Sou
pouco higiénico, é certo, mas humano. A higiene é, em sua extrema partitura,
uma super-racionalização do humano. Desvirtua sentimentos e afasta-nos de nós.
É que nos lembra, por oposição extrema, uma degradação que o não é. Impõe-nos
vergonha de nós. Desvirtua-nos.
Regresso por desvirtuamento de higiene (mas mental) à janela de mim. A
outra deixa-me entrar risos que sobem do pátio. São meninas que tiveram algum
feriado. Sobe-me agora, também, a cor dos meus adolescentes guerreiros. É
verdade, hoje está um sol de guerra amorosa. Hoje podem libertar-se pombas e
oferecer-se flores. Só o vento que agita os cabelos naquela “Ala dos Namorados” não tem correspondência cá fora. Só, talvez,
nos gritos das crianças. Melhor, nos gritos surdos de tudo o que agora penso e
sou.
Podia, por exemplo, crucificar-me no sol e deixar-me desfalecer sem que
viesses com pombas e flores. Mas vem, traz flores nos cabelos e pombas nos
seios. Só em asas e pétalas sinto remissão para o dia de hoje.
Pombas, ou sangue, são uma e a mesma manifestação deste viajar. Os
olhos são tristeza, ou grito. As mãos um debruar de gestos sobre o infinito, ou
o círculo ingente de nós todos. Ah! mas a boca, essa, é negação, ou vitupério,
quando se ressente da manhã que as pombas saúdam. Por isso quero a liberdade e
o sangue que me percorre como a seiva nas flores. Por isso grito, grito sobre
os ombros fechados e quedo-me e amparo o meu próprio gesto. Sublime expiação a
de tal mecânica!
Hoje fico-me à beira da vida e quero-me sacerdote. O rio é o templo.
Quero só uma pomba em meu regaço! Hei-de
deixá-la dormir, ou gritar-lhe pelas mãos dentro, ou definir-me numa entrega
antecipada de gestos. O gesto, sabemo-lo, é a linguagem surda do inconsciente.
Linguagem de traição para uma sinceridade de intenções. Que há, portanto, a
esperar e a desesperar?
Augusto Mota, texto 13.7 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
O Artifício da Loucura
O teu nome é uma cidade e feroz a minha submissão ao teu
desejo todo de mim. Estranha coisa esta a de uma pessoa viver a outra em si!
Estranha ainda esta viagem contínua num comboio que viaja dentro de mim e eu
dentro do comboio, ou à porta do comboio, ou ainda na saudade húmida de teus
olhos dizendo adeus a mim que parto e sou comboio.
Sou fora e dentro, por vontade de tuas mãos e de teus olhos que não
me deixaram parar mais e arrebatam a
velocidade do monstro de ferro para a estação secreta de ti, lá onde moram os
meus desejos e onde nos costumamos encontrar por entrega mútua, ou, apenas, por
permissão do chefe da estação. Somos, assim, mestres neste viajar cósmico dentro do nosso próprio
corpo, fazendo das veias pulsações imediatas, ou cavalos a arfar depois de
corrida desenfreada. Aí habitamos por necessidade de nosso próprio
conhecimento, sem palavras, sem actos fortuitos para lá do simples movimento
antecipador dos olhos e da boca. É, necessariamente, um admirar da paisagem
esta nossa estupefacção perante o nosso mundo e tudo o mais.
Mas só não me contento, cidade minha, quando ainda vou em corrida
desenfreada à porta da minha carruagem e te arrasto, pelos olhos, para fora
daquelas súbitas colunas que servem, apenas, para me quebrar a ilusão e não
deixar que o cais corra, perpétuo, ao lado de mim-comboio. Se assim não fosse tinha-te sereno em minha posse de viajador. Saberia
levar-te até onde os guias turísticos não sabem ir e, ambos, podíamos descobrir
as regiões inóspitas de nossas sensações-últimas. Toda a geografia é uma
sensação, antes de mais. Só depois é que se converte em ciência. Depois, quando
a alma da poesia deixa ver como tudo, afinal, é assim mesmo, geograficamente
poético, sem necessidade, portanto, de intervenção dos livros dos poetas, que
nos ensinam essas coisas bonitas a que os homens de ciência chamam
inutilidades. Nem são inutilidades, nem nos quebram o contacto com o real.
Antes pelo contrário.
Bestas de tacto, como somos por natural formação, queremos
tudo visto com os olhos. Exigimos a permanência num estado de contracção
animalesca, como se todos gostássemos de viajar num vagão de mercadorias.
Quantos compreendem que o mundo, aqui o cais do meu desejo, é visível
ainda agora da janela da minha carruagem? Sabe-lo tu que vês os acenos
repetidos até à saciedade das colunas. Depois a geografia e o tempo não me
deixam fazer paragem especial para te apertar e dizer baixinho: a viagem vai
continuar!
Sei que a viagem vai continuar. Disparei em força para dentro de mim
mesmo. Mas descansa, vais comigo. Foi por tua causa que comecei a viagem. Novo
ciclo se inaugurou desta vez. Repara como tudo tem sucedido: ciclos
consecutivos de nós, em volta de nós, até nós. Partimos deles para chegar a
eles. Irradiação, por choque, para auto-conhecimento. Neste ciclo parti de ti
com a certeza infinitamente grande que
já és meu sangue. Agora tudo tem de ser pensado a partir dos pés. Por camadas.
Devagarinho. Quando chegar à região da cabeça gritarei a vitória que me é
devida. Nem tenhas medo de mim, nem da viagem. Sei que prometes amparo para o
renascimento total. Mas tudo é demasiado complexo e as palavras e as atitudes
ficam, muitas vezes, aquém da luta surda que corrói as mais belas intenções. É
a paga de certas virtudes que se possuem. Paciência! Mas digo-te que a viagem é
perigosa. Já envolve a significação total. É viagem-viagem mesmo, contigo pela vida, e viagem-outra-viagem,
comigo para comigo. Tudo é necessário conciliar em segredo e secreta esperança.
Quando falho estou, apenas, a estabelecer o equilíbrio. Nem é orgulho,
nem total sabor a derrota. Por vezes há forças ocultas que nos dominam
inesperadamente. Só a experiência nos povoa de certezas.
Depois disto tudo o que me resta? Rodear de pássaros e flores as nossas
próprias crianças que nos esperam na praia muralhada? Mas tudo me faz tremer
ainda de grandeza e pureza, dessa recta pureza de intenções e gestos que se
define por ela mesma como encontro, como satisfação, como povoamento de tudo,
ou vingança, ou, ainda, ajustamento de olhos e mãos.
Nós devemos ser como esses amantes da noite espanhola e portamo-nos
como meninos terríveis que não aceitam a muralha em volta da praia de seu
sentimental existir. Por isso nadamos, em perpétuo movimento, ao encontro dos
adolescentes que, nus e cobertos de flores, nos esperam do outro lado do rio
para se unirem a nós, ou nos saudarem com pássaros e liberdade. Eu sou como
eles. Talvez por isso me tenha ficado esse jeito estranho de criança amuada.
Que admiração! Há tantos anos a tentar atravessar o rio, mesmo sem saber nadar!
Tenho a impressão de que há gestos e intenções que nos ficaram do ventre
materno, ou então viemos ao mundo com os olhos demasiado abertos para tudo. Por
isso, se fraquejamos, arranjamos logo uma auto-defesa que se chama imaginação,
ou poesia, ou arte, que identifica os nossos desejos e os sublima e no-los
deixa gozar, mas de outra maneira. Essa é ainda uma outra via de acesso ao rio,
ou à fonte de nossa infância. Mas é, também, puro gozo.
Talvez o contacto demasiado directo com a natureza me tenha excitado o
sexo e a sensibilidade. A tudo cheguei, com poucos anos, por uma via que fez da
imaginação um outro sentido para me unir à verdadeira realidade e fez da
sensibilidade uma apurada timidez, ou beleza, ou medo da realidade criada e não
transcendida.
Quando se nasce pode-se morrer, subitamente, se não habitarmos os dias
com flores nos dedos e sangue nos olhos do esforço da germinação. A poesia e a
botânica dizem que assim é. As mãos completam, por contemplação, semelhante
ciclo deste perpétuo retorno. Por isso um dia havemos de contar coisas grandes
um ao outro, no momento exacto em que encontrarmos os justos meninos que já nos
começaram a acenar do outro lado do rio. E a travessia tem que ser total, sem medo
de afogamento, nem fugas precipitadas. Nada pode ser estragado por dever para
com as nossas próprias mãos, que já vão aprendendo o gesto da remada. Só então
faremos de nossos desejos nossos desejos e não um desfrutar de complexos
sucessivos que embotam a lucidez e criam verrugas na palma das mãos.
Não façamos do que deve ser eterna floração mera reprodução.
Augusto Mota, texto 13.6 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
O Artifício da Loucura
Entrega-te à subtileza das palavras, pois sou eu hoje que
me quero lá por tua e única via. Porque hoje estou contigo e estar contigo é
sofrer contigo. Assim, é o tempo da poesia e o frio da rua que me fazem entrar
em ti e derramar as mãos em tua dor. Tenho-as frias, mas é bom que sintas em
teu ventre a criação dos meus dedos. Em cada partícula de mim há uma chama que
sabe iluminar por dentro. O calor virá depois. Este frio inicial é génese e
força.
Isso, deixa tremer teu corpo por dentro. É justo. Em cada dor sentirás
um aproximar de mim. Nem fujas, por cobardia ou pudor. Muito menos por vaidade.
O frio das minhas mãos vai já na raiz do teu peito, afagou o coração (afinal não passa de órgão puramente
fisiológico!) e sinto-me a penetrar-te a cabeça. Feliz esta sensação em novo
espaço cósmico. Está fria e baralhada por dentro. Sacudiram-te violentamente.
Se é cólera momentânea, chora para
dentro, morde os lábios e derrama o calor das lágrimas em minhas mãos. Com elas
assim húmidas saberei plantar flores nas regiões mais agrestes da tua alma.
Vês, estás a ser vítima de nunca as ter sabido lá pôr, mas sozinha. É natural
que sofras tardiamente. Nem por isso te abandones. Há flores para Verão e
flores para Inverno. Estas deixa-mas livres em minhas mãos venenosas. Venenosas
porque são tudo e o infinito de mim.
Vagueio já todo na região de teus olhos, mas por dentro. Todo por
dentro. E continuas a estremecer como uma cidade assediada. Estás a reagir bem ao meu contacto. Isso,
abandona-te, lúcida, a mim. Nem me digas que não és digna. A dignidade é, no
fim de contas, a outra consciência de nós.
Estou e continuo dentro de ti. Em teus olhos, em tua boca, na adoração
primaveril do sexo. Deixa-me usar todas as palavras! Sinto-me feliz nesta
lúcida consciência de mim. Para que recuas, então? Sim, para que recuas em ti?
Queres regressar toda aos pés e viver árvore na cidade? Lembra-te que estou e
habito por minha e douta vontade em teu cérebro. Possuo a consciência de ti, a
tal outra consciência de ti que não deixarei escapar de minhas mãos, embora
frias e retardadas nos movimentos. Descerei contigo, se preciso for, à região
dos pés, sairei todo de ti, caminharei a teu lado, desconhecido, como cidadão
irreverente, mas só para te mostrar a consciência de ti, a tal que deixas
arrastar por fraqueza, ou vaidade, ou falta de flores em tuas inóspitas regiões
do cérebro. Queria mais. Que sofresses com essa consciência que é
verdadeiramente humana, a humaníssima e justa consciência poética. Só a esse nível
existe drama. Pode ser, na verdade, paralelo ao outro, ao que habita no
exterior de nós e das coisas. Pode, até, provocá-lo. Mas a raiz existencial do
drama é uma fonte de vida, é um escorrer de sangue até aos pés, enquanto o
espírito, alimentado pelo sexo e pelas flores, sobe em nós, lúcido, e triste
pela humilhação das madrugadas.
Ai, esta voragem dos dias! Este perpétuo veneno em minhas mãos,
dúcteis, insidiosas, mas alegres pelo orvalho de tudo o que fortaleceste em
mim! O ritmo agora é outro na verticalidade dos dedos. As unhas andam mais
polidas pelas ânsias da noite e debato-me e arranho-me por os olhos não
alinharem as perspectivas todas com os teus. Mas isto só por ausência física.
No resto sou fraterno em minha dádiva surda, em meu calor que compartilho na
mesma com o espaço que devias habitar. Nem há desperdício porque te sei. Por
isso, tudo é natural e a emoção disfarçada da partida e da chegada é sempre uma
viagem só para os olhos.
O minuto da separação é pálpebra que se fecha para sonhar a realidade.
O apito da locomotiva, por vezes, é que tira sabor às coisas. Mas o beijo leve
e quente no cais da estação é ainda o mais nítido regressar à realidade. É um
outro acordar para melhor dormir sobre as recordações.
Tanta coisa te disse em teu secreto interior. Se ainda te dói a cabeça
é outra a dor. Agora fui eu quem teve a
culpa. Habitei muito tempo no plantio das flores e ardem-me as mãos com os
soluços de teu sangue. Vou retirar-me. Mas vou sair, disparado pelo teu olhar
humedecido, em direcção ao mar e ao horizonte. Isso, abre bem a janela dos teus
olhos e a outra, a do quarto. Enquanto vês os pássaros hesitando contra o vento
e o voo, transformar-me-ei na distância deste perto que nos incendeia os
pensamentos.
(Ah! Já me esquecia de lavar as mãos e o sangue. Ficarão rosas
vermelhas em tua memória, como secreto testemunho desta inesperada visita
dentro de ti).
Agora já sou pássaro acenando asas ao vento e aos teus braços
escorridos de rosas e lágrimas.
Augusto Mota, texto 13.5 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
domingo, 19 de maio de 2013
O Artifício da Loucura
Pareceu-me traição ter ficado encostado a uma coluna enquanto, bem
dentro de mim, não aceitava a despedida. É sempre mais justo que seja eu a
partir. Pelo menos disfarça-se mais a fraqueza. Assim fiquei triste e alheio e,
de repente, comecei a achar tudo estúpido. Tudo, isto é, a vida a estação, o
porteiro, eu a entregar um bilhete
que foi separação (era curioso que nas
estações se pudessem comprar bilhetes de separação… Era curioso e estúpido!), a
cidade lá fora com um Domingo que também foi nosso e eu outra vez só com a
minha tristeza e as mãos saudosas da
mossa liturgia solar. Fiquei triste como um menino que enfrenta sozinho as ruas
e as casas de uma cidade pela primeira vez. Por breves momentos caiu-me toda a
vida em cima e não to consegui dizer quando o adivinhaste e me tentavas animar.
É que eras ali toda a minha razão de ser, não só futura, mas de todo o passado.
De repente como que se justifica a utilidade de toda a inutilidade,
como que se vitaliza numa separação o
dom subtil de um acto:
“Dá-me um bilhete-de-gare-de-separação!”
(O comboio
rápido parte com atraso de dez minutos).
Toda a vida se resume a um atraso. Cada minuto de recuperação é uma
viagem ao encontro da ligação para o infinito de nós.
Depois, vertigem de mim. Não sei quem fui. Perdi-me passeando até ao
cansaço físico. Conversei alheado de tudo, porque eu era ainda todo-outro. Não
estava, nem ia. Era. Era nas mãos a saudade. Era nas mãos o sol. Era nas mãos a calma da vegetação que nos acolheu em silêncio. Sobretudo
era, sinto-o, o respeito cada vez mais nítido das nossas duas e amplas fontes
de vida. Isto é, cada vez mais consciência de um respeito e de uma
naturalidade.
É bom que este processo de individualização seja comum e paralelo, porque é
beleza. E beleza é necessidade que não morre, já que ser perene é parte
integrante e principal de sua própria definição. E aqui não será erro definir
com o definidor. Beleza é beleza. Um copo é um copo. No entanto só percebemos
bem o copo quando o amamos em nosso amor e necessidade, por via da água.
Percebemos, então, que o copo tem em si uma função, para além do existir em
vidro. Realiza-se quando tem água e serve uma transição.
Hoje existir é ter audaciosa liberdade, mas cá dentro. Ama-se, mas cá
dentro. O que se vê é sempre fruto de outras coisas que nada têm a ver com
amor. Este é de dentro. Mas também é das mãos. Este é de dentro. Mas também é
dos olhos. Olhos e mãos são a conjugação gramatical para quem não sabe dizer
outros, ou nenhuns pronomes pessoais. São o eu absoluto feito tu. São o
processo maravilhoso de outra forma de poesia, porque maior. São em sua
insaciável e plástica substância a identificação total dos sub-planos e dos
super-planos de nossa física e metafísica existência.
Na confiança que conhece se funda a confiança na vida. Neste
voluntarioso acto de aceitação se baseia, pois, a amizade e a energia que
dominamos. A amizade de sangue quebrou barreiras, não de escrúpulos, mas de
sociedade, deixando que se fortaleça cada vez mais o respeito de e a
algo que não se pode definir, mas que parece radicar em nossa própria carne e
em nosso próprio espírito.
Agradeço-te, mulher ou cidade, a saudade que me fazes ter de ti. Mas
saudade-sempre. Hoje e quando habitas em meus olhos pelo favor da distância,
mas da física. Por isso me torço e me envolvo e me canso para me dar todo à
memória da tua presença. Fixo, porém, a vista numa escada e tenho saudade de
ti. Fixo a vista outra vez na escada e tenho saudade de ti. Por isso quando
estou longe, ou abstracto, pode ser por saudade de ti. Às vezes é de mim. Por
pena de mim. Por morte de mim. Para vida de mim.
Tudo é tão estranho e subtil, hoje! Hoje o quê? Hoje, sobretudo. Hoje
que existo por dom da palavra e da distância verbal de meus desejos e
sentimentos. Por isso estou calmo. Talvez por não saber nenhum pronome pessoal
para a conjugação do nosso verbo. Calmo por saber que esta ignorância é douta
em sua maravilhosa e natural sublimação. Não há castigos, nem promessas do
mestre. Há um existir em mãos no sol, em mãos na água, em mãos no fogo, em mãos
na terra. Em nossas mãos existe o favor dos pontos cardeais. Por nós o norte,
por nós o sul, por nós o leste, por nós o oeste.
Assim virados para o mundo em tal favor, corramos dentro de nós mesmos
e abracemo-nos lá onde as mãos parecem calar-se, por grandeza ou complexo, mas
onde os olhos já são suficientemente grandes para se aceitarem de imediato.
Augusto Mota, texto 13.4 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
O Artifício da Loucura
Parece que hoje te desejo praia, hoje
nesta manhã enevoada e retirada ao meu horário habitual por imposição própria,
como se eu e a metereologia quisessemos coincidir na celebração do que foi
sagrado há oito dias. Dentro do vocabulário litúrgico talvez seja melhor
chamar-lhe requiem, um requiem de carne e estação, uma selvagem
atitude de compromisso necessário e lícito como a frieza da neblina que nos
acompanhou e fez, depois, derramar
orvalho sobre as margens e a vegetação da margens e as margens de nós
próprios.
Assim marginados em nós e pela circunstância ambiente,
especialmente o céu e a terra, atingimos um litoral distante, como náufragos à
deriva durante meses. Mas o nosso naufrágio era outro, talvez inverso. A
salvação parece volver-se em afogamento. O porto seguro é bem o centro de tudo,
de nós e do universo. Foi, sobretudo para o meu panteísmo feroz, o clímax das
atitudes ofertórias. Por isso te sagro na minha obscura religião. É com
lágrimas que o sinto e com grandeza de alma que o agradeço. Sabes, é como se
fosse um deus que, repentinamente, entrasse no redondel ao toque de uma marcha
tauromáquica e aclamado por milhares de aficionados. Seria o delírio perante a
besta ofensiva. Seria, antes de tudo, a apoteose do que é sagrado (porque justo e bom) e do que é feroz em sua grandeza animal (o que implica a própria definição de
tauromaquia).
Assim compreendida perante um deus
panteísta e animal esta missa saudosista
do sétimo dia, assim mesmo e apesar de todo o rito literário, continua a
atravessar-se neste santuário, como raio desferido por outro deus invejoso,
algo que me contraria e me faz volver sobre mim mesmo e reagir mal, como o
caracol que se espirala dentro da concha, quando, certamente como eu, prefere a
horizontalidade da acção, ou a verticalidade
de estado.
Contrariar é, por vezes, vencer. O
vencer é, por vezes, teimosia da parte do vencedor. Assim, vencer e vencedor
identificam-se numa mesma proposição que, se envolve acto e des-acto, é
sobretudo fraqueza e, talvez mais, desejo de aniquilação para mais vencer. Será
confuso tal raciocínio, mas, acima de tudo, quis dar-lhe aquele tom existencial
que agora me fecunda num desejo de me realizar.
Repetir todas as noites o gesto do
acordar será destruição. Isolarmo-nos em atitudes não pode substancialmente
nada. Assim o que propor? Fuga? Tomada de hábito? Reclusão? E quando os cavalos
relincham de encontro aos muros da cidade? Atacam simultâneos. Acobardam-se os
gestos. Prostituem-se ali mesmo na praça pública e, depois, aborrecem-se com
uma moral em decadência. Desencanto, sim, é a voz da cantora. Ponto final digo
eu, como falha em pauta de música. A vida, assim, perde a graça em melancolia,
como folhas mortas trazidas pelo vento leste.
“Ouves como é suave o mar? Ou será
Beethoven ajudando a união?” Agora o barquito rema contra o maestro e o
primeiro violino executa a batuta. Será o absurdo impondo um desejo atraiçoado,
ou um requinte de sábio saboreado depois da sobremesa?
(Algo escorre por mim acima e desfaz-se
em lágrimas para dentro).
Será que hoje me aproximei de um
vocativo? Ou tentei disfarçar um compromisso? Não. Chamar como todos fazem é
falta de entrega total. As palavras gastas de tantas afirmações metem nojo.
Prefiro inventar novos mitos e novas expressões de amor. Assim dominaremos o
original com um sabor de entrega não disfarçada. É que, neste caso, estamos a
abusar de uma criação para determinado fim que só nos pode trazer uma
satisfação muito especial, mesmo que nela vejamos a sublimação de um outro
desejo que se sente, mais do que se exprime. Assim rebolamo-nos nas palavras.
Assim adaptamos, sem compromisso, a exclamação ao tempo psicológico e ao tempo
físico. Será isto o denominador comum da entrega em palavras.
Tudo o que é natural é estranho, pois
acreditamos sempre mais no irreal
(quando ideal) do que no
real (quando nunca imaginado). Andamos,
deste modo, permanentemente presos numa luta de compromissos. Por isso imagino
primeiro o real, para viver depois o ideal. Isto é perigoso, mas bom e justo.
Assim me canso. Assim me arrasto. Assim não acredito que estejamos certos.
Mas o silêncio será vingança, ou espera?
Quando vingança, terá de ser vingança de nós. Quando espera terá de
ser a mesma e idêntica atitude de ansiedade de cada um de nós. Assim, e por
minha parte, desculpo um pouco a vertigem que se me atravessou nos olhos,
arrastando-te impessoal e deixando-me alheio de mim e de ti. Tenho vogado
inconsciente e ando a dormir a todo o momento, por necessidade da alma e
descanso do corpo.
De modo algum ainda regressei. Vivo
debaixo de pontes. Constantemente. No fim, mesmo no fim, vejo-me enclausurado
nesta cidade rodoviária como se a vida fosse um transbordo entre o não-ser e o
deixar de existir.
Augusto Mota, texto 13.3 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.
sábado, 11 de maio de 2013
O Artifício da Loucura
Com tudo isto já tenho lágrimas na garganta e rostos no coração. Sou
nem sei quem nesta escolha de um figurante para mim mesmo. Suicido-me nas
minhas próprias lágrimas como se tecesse uma corda de água para me enforcar.
Mas, então, hesito e espero. Tudo se dissolve na ausência da memória e na
exigência do querer.
Quando entornaremos o passado pela vertente abaixo de nossa vida já
vivida? Assim tecemos roupa nova para as mãos e outros olhares para os gestos.
Depois há coisas que se perdem pelo espaço fora e eu já tenho ciúme das aves.
Animais poéticos somos nós! Para quê efeminar um sentimento? Oh, pobres aves!
Não lhes dêem liberdade e verão como hão-de morrer em nossas próprias mãos
assassinas!
Mas eu queria uma flor! Grito angustiado por uma flor e confundem-me
com um louco. Vem, só para mim, um hospital e tanta enfermeira! Ah! deuses e
demónios, dai rodas a minhas mãos que voarei pela cura dentro, perpetuamente
pela cura dentro! Ah! mas vivo louco por mim abaixo, louco por mim acima! Ninguém
sabe, parece-me, que me arrasto com tanta dor desde que, pela primeira vez, descobri que algo me estava a ser negado.
Criei, então, qualquer coisa com estas minhas verdadeiras mãos e, assim, um
mundo se me abriu: conversando com as flores descobri em mim algo de diferente.
( Eu de flores só lhes percebo os olhos ougados! )
Assim o sexo dos animais foi para mim a primeira afirmação de que
qualquer coisa nos estava a ser ensinada de outra maneira. Assim eu me fecundei
em flores e pássaros.
Alguém me diz agora: “Vem aí um hospital!”. Ah! flores, fazei-me
habitar em vosso cálice ou sentirei todas as ambulâncias do universo gritarem
por mim,
Loucura, sábia loucura esta que me arrebata todo, mas todo, para os
minutos em que me sinto respirar sem mim. Invejo os átomos que se escondem nas
sensações, nas agora estúpidas sensações que não atravesso com o olhar.
“Ai, assassino, atómico assassino, procuram-te por teres roubado o
maior ciclotrão da Europa!” - isto parecem dizer-me as palavras que ainda não
chegaram à minha razão.
É isso, sou um homem permanentemente desacreditado. A história e a
glória de minhas mãos pertence sempre ao fracasso. Vivo nem sei como. Tenho os
olhos a ocidente e o sexo a oriente. Assim não sei como governar os segundos e
os anos. Vou desistir de viver. É que não arranjo maneira de fazer de tudo isto
um diálogo permanente com a sensatez da minha própria razão.
Dói-me tudo hoje. Tudo. O norte onde não habito, porque estou no sul. O
sul que não habito, porque estou no norte. O sexo e os olhos é que parecem
estar parados. Fui vítima daquilo que não me deram: a unidade de mim quando
jovem criança. Deviam ter-me prendido a imaginação e os dias às pernas das
mesas. Fiquei demasiado senhor e desconfiado daquilo que tocava. Depois dei
nova grandeza (outra grandeza) àquilo que queria distante, ou sabia distante e
queria perto das mãos. O mundo
revelou-se-me demasiado desfeito, demasiado inoportuno para o que eu já sabia.
Entrei cedo demais na música das flores e no círculo dos segredos mais íntimos
do universo.
Tudo se reduz, afinal, ao relativo de nossas sensações, ao tempo exacto
de nossas sensações. E como gostaríamos de as prender, ou matar, quando elas se
impõem à memória com uma permanência exacta, viva, real, quotidianamente exasperada. Assim concluímos tanta coisa
errada!
Augusto Mota, texto 13.2 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
Subscrever:
Mensagens (Atom)







