quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Artifício da Loucura

  
Sabe-me bem pronunciar este chamamento de ti. Pena que o suspiro que me invadiu agora não o possas sentir mais perto para meu inteiro favor. Depois de tudo nem sei quem tem a culpa do vazio que nos separa. E acho que é muito justo não o aceitarmos. Temos tão pouco tempo. Temos tanta coisa para não dizer e escutar com o silêncio vertebrado dos olhos. E como te poderei abraçar muito se estremeço neste silêncio que me interpõe a tua imagem a cada pulsação?
 
Sou alheio de mim, ou outro-eu, neste querer que é sempre vontade para desejo da minha ventura. Nem era precisamente isto que eu queria dizer, mas precisamente isto. Sim, é esta terrível condição de querer o absoluto simples, quando os dedos tocam só o relativo, que nos deixa ficar dominados por tudo o que ainda nos diminui mais e faz de nós criaturas ímpares aos nossos olhos-alheios.
 
O artista é, por dom sublime, mais fraco (em sua fortaleza) do que o homem comum, pois soçobra por não realizar o seu absoluto poético. E depois o mundo fecha-se-lhe todo, como à criança que não alcança a laranja em cima da mesa. E a laranja é, ao fim e ao cabo, uma coisa tão banal! Vende-se às dúzias no mercado. E porque não há-de ser justo não se vender angústia  no  mercado?  E  cansaço  por  via da angústia.  Para quê relativismos? Tudo se passa na cabeça. A cabeça, então, é que não devia pensar certas coisas acerca da relatividade. Assim fica-se com a ideia de que procuramos umas coisas por relatividade de outras. E é. A relatividade da minha paz está em tuas mãos, ou cabeça. Está em ti toda que me pensas e me ajudas. Mas vem logo o circunstanciar do nosso querer e desço em mim súbito, como que precipitado em um abismo. Onde caio? Em teus braços, ou nas ruas de tua cidade. E forçoso é que chore da queda e das dores da queda. Tu, mãe por meu querer, oferece-me descanso em teu colo. Preciso de saber tantas coisas. Preciso de saber tantos gestos, incipientes a princípio, mas cujo conteúdo adivinho útil em minha gramática de paz.
 
Caio em ti por necessidade de abortar tudo o que em mim infecta o nascimento mais verdadeiro. E sou exigente, por mim. Tenho a dor da experiência a dar-me cabo dos movimentos mais subtis e a boca não se move no articular das grandes palavras. Oh! maravilhosa natureza a nossa! Onde paramos neste desabrochar de flores em tempo tão frio?
 
 
 
Este frio entrou-me pelas veias e estalou no fundo das pulsações. Agora cavalga em mim como se impusesse ainda mais a necessidade de nos encontrarmos, depois de tanto errar em angústia, ou veneno. A vida, afinal, é só esta que levamos e o Inverno parece querer desperdiçar este tempo de juventude sem termos as mãos dadas. Urge, portanto, que partamos já de nós até chocarmos na corrida do encontro e ficarmos sem sentidos, pairando a meio do caminho, até que o encontro real de nossas mãos desperte os olhos para o que inunda as nossas faces de ternura, ou amor. Amar é tudo isto, sobretudo este correr pelo ar e pelo mar em busca de outras sensações, este partir dos olhos ou da boca para a lavra do infinito. Às vezes fico-me pequeno no meio deste torvelinho que vejo mesmo com estes meus olhos.
 
Mas já seria grandioso se, como Jeová, olhasse o abismo, estendesse o braço, te agarrasse pelos cabelos e puxasse bem para junto de mim. Depois o ritmar de nossos corpos me haveria de fazer descansar do enorme esforço de ser deus. Ficaríamos lado a lado como dois condenados que o destino atira para a prisão. Ai a nossa doce prisão de sermos livres!
 
 
 
Sou Jeová, agora. Tudo em mim sou eu. Tudo em mim chama por ti. E tu, cidade, pairas no esforço da minha garganta como se fosse lá que eu quisesse ter braços. Quando vou para gritar és tu que sais à frente de todas as palavras. E não grito. O segredo é nosso. Tem que ser nosso. Sim, as portas têm que estar abertas. E que os outros sofram na carne tudo o que nos arrastou pelo rio de sangue que agora nos inunda os membros. Ai doce sangue este em que amar e morrer parecem rimar. É que quando se ama justifica-se a própria morte. Intensifica-se a dor no gesto da dádiva, ou na carícia do pedido.
 
 
 
Ainda estamos vivos? Ou será que nunca estivemos vivos? Não sei. Mas é tudo tão estranho. E uma gare antes da chegada de um comboio (pelo menos quando se separam as mãos) tem sempre um vento triste que ilumina as coisas de outra maneira. Porquê? Estranho sentimento este que comunicamos às coisas! Estranhos os teus olhos, ou as tuas ruas, que não me queriam olhar com medo da partida! E eu onde parava? Afoguei-me demais naquilo que os meus olhos subitamente descobriram. Que descobriram eles? Voltaram a descobrir que és minha irmã, ou irmã de minha cidade-toda!  Maravilhosa e reduzida família a nossa que vive e morre numa chegada e numa partida!
 
Sim, estamos vivos. Mas o que custa é ter consciência da loucura e saber dominar a loucura até ao limite do possível. Quando não é possível (às vezes escapa-se-nos pelas mãos!) morre-se mesmo em glória. E tudo isto é difícil e estranho, dando-nos uma sensação de infelicidade que receia, ou despreza, outra dimensão do conceito de viagem.   
 
Augusto Mota, texto 13.8 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964

Legendas íntimas

 


O Artifício da Loucura

 
Está muito sol, muito sol nesta manhã de verdura e crianças. E estou na aula. Silêncio e trabalho. Janela aberta e prado ao longe, com vacas e rio. Às vezes tudo parece natural. Talvez seja esta calma de um automóvel buzinando ao longe e das casas sobre o horizonte que me satisfaça hoje, neste sol e neste dia.
 
É Outono, sobretudo. A janela está aberta. A minha janela panorâmica sobre tudo. Esta e a outra. As duas. Todas.

Ao longe, mais à esquerda, avista-se o pinhal e inicio em mim uma digressão pelo mar. Começo aqui mesmo. Estradas e veredas de mim conduzem-me todas ao mar. Regresso insatisfeito e volto aqui e à só-janela da aula. Trancada com um búzio assegura-te entrada e saudação marítima. Vem, anda, e corta o horizonte e arrasa as cidade da minha tristeza de ontem. Abraça-me aqui mesmo e justifica o momento calmo de agora. Mas acho estranho este dia e a leve calma de hoje. Foi, por certo, da viagem e da sesta de mãos dadas sobre a proa do navio. Será que aportei a lugar seguro? Nem sei de mim! Nem sei das minhas mãos! Molhadas ficaram com a violência das vagas  e o esforço do suor. É certo que as beijaste quando mais desanimaram. É certo que te ofereceste toda quando mais desanimei. As mãos, essas (e por isso), as devolvo para ânimo e recompensa da luta. Bebe nelas a água da tua sede.

Por humana simpatia ofereço sempre primeiro ao companheiro de viagem. Depois bebo eu e recebo em mim a vida que ficou animada em minhas mãos. Sou pouco higiénico, é certo, mas humano. A higiene é, em sua extrema partitura, uma super-racionalização do humano. Desvirtua sentimentos e afasta-nos de nós. É que nos lembra, por oposição extrema, uma degradação que o não é. Impõe-nos vergonha de nós. Desvirtua-nos.


Regresso por desvirtuamento de higiene (mas mental) à janela de mim. A outra deixa-me entrar risos que sobem do pátio. São meninas que tiveram algum feriado. Sobe-me agora, também, a cor dos meus adolescentes guerreiros. É verdade, hoje está um sol de guerra amorosa. Hoje podem libertar-se pombas e oferecer-se flores. Só o vento que agita os cabelos naquela “Ala dos Namorados” não tem correspondência cá fora. Só, talvez, nos gritos das crianças. Melhor, nos gritos surdos de tudo o que agora penso e sou.

Podia, por exemplo, crucificar-me no sol e deixar-me desfalecer sem que viesses com pombas e flores. Mas vem, traz flores nos cabelos e pombas nos seios. Só em asas e pétalas sinto remissão para o dia de hoje.

 

Pombas, ou sangue, são uma e a mesma manifestação deste viajar. Os olhos são tristeza, ou grito. As mãos um debruar de gestos sobre o infinito, ou o círculo ingente de nós todos. Ah! mas a boca, essa, é negação, ou vitupério, quando se ressente da manhã que as pombas saúdam. Por isso quero a liberdade e o sangue que me percorre como a seiva nas flores. Por isso grito, grito sobre os ombros fechados e quedo-me e amparo o meu próprio gesto. Sublime expiação a de tal mecânica!

 

Hoje fico-me à beira da vida e quero-me sacerdote. O rio é o templo. Quero só uma pomba em meu regaço!  Hei-de deixá-la dormir, ou gritar-lhe pelas mãos dentro, ou definir-me numa entrega antecipada de gestos. O gesto, sabemo-lo, é a linguagem surda do inconsciente. Linguagem de traição para uma sinceridade de intenções. Que há, portanto, a esperar e a desesperar?   
  
 
Augusto Mota, texto 13.7 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
 
 - Discorrências sobre o nosso próprio limite.  

Legendas íntimas

 



segunda-feira, 20 de maio de 2013

O Artifício da Loucura

 

O teu nome é uma cidade e feroz a minha submissão ao teu desejo todo de mim. Estranha coisa esta a de uma pessoa viver a outra em si! Estranha ainda esta viagem contínua num comboio que viaja dentro de mim e eu dentro do comboio, ou à porta do comboio, ou ainda na saudade húmida de teus olhos dizendo adeus a mim que parto e sou comboio.
 
Sou fora e dentro, por vontade de tuas mãos e de teus olhos que não me  deixaram parar mais e arrebatam a velocidade do monstro de ferro para a estação secreta de ti, lá onde moram os meus desejos e onde nos costumamos encontrar por entrega mútua, ou, apenas, por permissão do chefe da estação. Somos, assim, mestres  neste viajar cósmico dentro do nosso próprio corpo, fazendo das veias pulsações imediatas, ou cavalos a arfar depois de corrida desenfreada. Aí habitamos por necessidade de nosso próprio conhecimento, sem palavras, sem actos fortuitos para lá do simples movimento antecipador dos olhos e da boca. É, necessariamente, um admirar da paisagem esta nossa estupefacção perante o nosso mundo e tudo o mais.
 
 
 
Mas só não me contento, cidade minha, quando ainda vou em corrida desenfreada à porta da minha carruagem e te arrasto, pelos olhos, para fora daquelas súbitas colunas que servem, apenas, para me quebrar a ilusão e não deixar que o cais corra, perpétuo, ao lado de mim-comboio. Se assim não fosse tinha-te sereno em minha posse de viajador. Saberia levar-te até onde os guias turísticos não sabem ir e, ambos, podíamos descobrir as regiões inóspitas de nossas sensações-últimas. Toda a geografia é uma sensação, antes de mais. Só depois é que se converte em ciência. Depois, quando a alma da poesia deixa ver como tudo, afinal, é assim mesmo, geograficamente poético, sem necessidade, portanto, de intervenção dos livros dos poetas, que nos ensinam essas coisas bonitas a que os homens de ciência chamam inutilidades. Nem são inutilidades, nem nos quebram o contacto com o real. Antes pelo contrário.   
 
Bestas de tacto, como somos por natural formação, queremos tudo visto com os olhos. Exigimos a permanência num estado de contracção animalesca, como se todos gostássemos de viajar num vagão de mercadorias.
 
Quantos compreendem que o mundo, aqui o cais do meu desejo, é visível ainda agora da janela da minha carruagem? Sabe-lo tu que vês os acenos repetidos até à saciedade das colunas. Depois a geografia e o tempo não me deixam fazer paragem especial para te apertar e dizer baixinho: a viagem vai continuar!
 
 
 
Sei que a viagem vai continuar. Disparei em força para dentro de mim mesmo. Mas descansa, vais comigo. Foi por tua causa que comecei a viagem. Novo ciclo se inaugurou desta vez. Repara como tudo tem sucedido: ciclos consecutivos de nós, em volta de nós, até nós. Partimos deles para chegar a eles. Irradiação, por choque, para auto-conhecimento. Neste ciclo parti de ti com a certeza  infinitamente grande que já és meu sangue. Agora tudo tem de ser pensado a partir dos pés. Por camadas. Devagarinho. Quando chegar à região da cabeça gritarei a vitória que me é devida. Nem tenhas medo de mim, nem da viagem. Sei que prometes amparo para o renascimento total. Mas tudo é demasiado complexo e as palavras e as atitudes ficam, muitas vezes, aquém da luta surda que corrói as mais belas intenções. É a paga de certas virtudes que se possuem. Paciência! Mas digo-te que a viagem é perigosa. Já envolve a significação total. É viagem-viagem mesmo, contigo pela vida, e viagem-outra-viagem, comigo para comigo. Tudo é necessário conciliar em segredo e secreta esperança.
 
 
 
Quando falho estou, apenas, a estabelecer o equilíbrio. Nem é orgulho, nem total sabor a derrota. Por vezes há forças ocultas que nos dominam inesperadamente. Só a experiência nos povoa de certezas.
 
 
 
Depois disto tudo o que me resta? Rodear de pássaros e flores as nossas próprias crianças que nos esperam na praia muralhada? Mas tudo me faz tremer ainda de grandeza e pureza, dessa recta pureza de intenções e gestos que se define por ela mesma como encontro, como satisfação, como povoamento de tudo, ou vingança, ou, ainda, ajustamento de olhos e mãos.
 
Nós devemos ser como esses amantes da noite espanhola e portamo-nos como meninos terríveis que não aceitam a muralha em volta da praia de seu sentimental existir. Por isso nadamos, em perpétuo movimento, ao encontro dos adolescentes que, nus e cobertos de flores, nos esperam do outro lado do rio para se unirem a nós, ou nos saudarem com pássaros e liberdade. Eu sou como eles. Talvez por isso me tenha ficado esse jeito estranho de criança amuada. Que admiração! Há tantos anos a tentar atravessar o rio, mesmo sem saber nadar! Tenho a impressão de que há gestos e intenções que nos ficaram do ventre materno, ou então viemos ao mundo com os olhos demasiado abertos para tudo. Por isso, se fraquejamos, arranjamos logo uma auto-defesa que se chama imaginação, ou poesia, ou arte, que identifica os nossos desejos e os sublima e no-los deixa gozar, mas de outra maneira. Essa é ainda uma outra via de acesso ao rio, ou à fonte de nossa infância. Mas é, também, puro gozo.
 
Talvez o contacto demasiado directo com a natureza me tenha excitado o sexo e a sensibilidade. A tudo cheguei, com poucos anos, por uma via que fez da imaginação um outro sentido para me unir à verdadeira realidade e fez da sensibilidade uma apurada timidez, ou beleza, ou medo da realidade criada e não transcendida.
 
 
 
Quando se nasce pode-se morrer, subitamente, se não habitarmos os dias com flores nos dedos e sangue nos olhos do esforço da germinação. A poesia e a botânica dizem que assim é. As mãos completam, por contemplação, semelhante ciclo deste perpétuo retorno. Por isso um dia havemos de contar coisas grandes um ao outro, no momento exacto em que encontrarmos os justos meninos que já nos começaram a acenar do outro lado do rio. E a travessia tem que ser total, sem medo de afogamento, nem fugas precipitadas. Nada pode ser estragado por dever para com as nossas próprias mãos, que já vão aprendendo o gesto da remada. Só então faremos de nossos desejos nossos desejos e não um desfrutar de complexos sucessivos que embotam a lucidez e criam verrugas na palma das mãos.
 
Não façamos do que deve ser eterna floração mera reprodução.
 
 
Augusto Mota, texto 13.6 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
 

Legendas íntimas

 



O Artifício da Loucura


 
Entrega-te à subtileza das palavras, pois sou eu hoje que me quero lá por tua e única via. Porque hoje estou contigo e estar contigo é sofrer contigo. Assim, é o tempo da poesia e o frio da rua que me fazem entrar em ti e derramar as mãos em tua dor. Tenho-as frias, mas é bom que sintas em teu ventre a criação dos meus dedos. Em cada partícula de mim há uma chama que sabe iluminar por dentro. O calor virá depois. Este frio inicial é génese e força.
 
Isso, deixa tremer teu corpo por dentro. É justo. Em cada dor sentirás um aproximar de mim. Nem fujas, por cobardia ou pudor. Muito menos por vaidade. O frio das minhas mãos vai já na raiz do teu peito, afagou o coração  (afinal não passa de órgão puramente fisiológico!) e sinto-me a penetrar-te a cabeça. Feliz esta sensação em novo espaço cósmico. Está fria e baralhada por dentro. Sacudiram-te violentamente. Se é cólera momentânea,  chora para dentro, morde os lábios e derrama o calor das lágrimas em minhas mãos. Com elas assim húmidas saberei plantar flores nas regiões mais agrestes da tua alma. Vês, estás a ser vítima de nunca as ter sabido lá pôr, mas sozinha. É natural que sofras tardiamente. Nem por isso te abandones. Há flores para Verão e flores para Inverno. Estas deixa-mas livres em minhas mãos venenosas. Venenosas porque são tudo e o infinito de mim.
 
 
Vagueio já todo na região de teus olhos, mas por dentro. Todo por dentro. E  continuas a estremecer  como uma cidade assediada.  Estás a reagir bem ao meu contacto. Isso, abandona-te, lúcida, a mim. Nem me digas que não és digna. A dignidade é, no fim de contas, a outra consciência de nós.
 
 
Estou e continuo dentro de ti. Em teus olhos, em tua boca, na adoração primaveril do sexo. Deixa-me usar todas as palavras! Sinto-me feliz nesta lúcida consciência de mim. Para que recuas, então? Sim, para que recuas em ti? Queres regressar toda aos pés e viver árvore na cidade? Lembra-te que estou e habito por minha e douta vontade em teu cérebro. Possuo a consciência de ti, a tal outra consciência de ti que não deixarei escapar de minhas mãos, embora frias e retardadas nos movimentos. Descerei contigo, se preciso for, à região dos pés, sairei todo de ti, caminharei a teu lado, desconhecido, como cidadão irreverente, mas só para te mostrar a consciência de ti, a tal que deixas arrastar por fraqueza, ou vaidade, ou falta de flores em tuas inóspitas regiões do cérebro. Queria mais. Que sofresses com essa consciência que é verdadeiramente humana, a humaníssima e justa consciência poética. Só a esse nível existe drama. Pode ser, na verdade, paralelo ao outro, ao que habita no exterior de nós e das coisas. Pode, até, provocá-lo. Mas a raiz existencial do drama é uma fonte de vida, é um escorrer de sangue até aos pés, enquanto o espírito, alimentado pelo sexo e pelas flores, sobe em nós, lúcido, e triste pela humilhação das madrugadas.
 
 
 
Ai, esta voragem dos dias! Este perpétuo veneno em minhas mãos, dúcteis, insidiosas, mas alegres pelo orvalho de tudo o que fortaleceste em mim! O ritmo agora é outro na verticalidade dos dedos. As unhas andam mais polidas pelas ânsias da noite e debato-me e arranho-me por os olhos não alinharem as perspectivas todas com os teus. Mas isto só por ausência física. No resto sou fraterno em minha dádiva surda, em meu calor que compartilho na mesma com o espaço que devias habitar. Nem há desperdício porque te sei. Por isso, tudo é natural e a emoção disfarçada da partida e da chegada é sempre uma viagem só para os olhos.
 
O minuto da separação é pálpebra que se fecha para sonhar a realidade. O apito da locomotiva, por vezes, é que tira sabor às coisas. Mas o beijo leve e quente no cais da estação é ainda o mais nítido regressar à realidade. É um outro acordar para melhor dormir sobre as recordações.
 
 
 
Tanta coisa te disse em teu secreto interior. Se ainda te dói a cabeça é outra a dor. Agora  fui eu quem teve a culpa. Habitei muito tempo no plantio das flores e ardem-me as mãos com os soluços de teu sangue. Vou retirar-me. Mas vou sair, disparado pelo teu olhar humedecido, em direcção ao mar e ao horizonte. Isso, abre bem a janela dos teus olhos e a outra, a do quarto. Enquanto vês os pássaros hesitando contra o vento e o voo, transformar-me-ei na distância deste perto que nos incendeia os pensamentos.
 
(Ah! Já me esquecia de lavar as mãos e o sangue. Ficarão rosas vermelhas em tua memória, como secreto testemunho desta inesperada visita dentro de ti).
 
Agora já sou pássaro acenando asas ao vento e aos teus braços escorridos de rosas e lágrimas. 
 
 
Augusto Mota, texto 13.5 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964  
 

Legendas íntimas

 



domingo, 19 de maio de 2013

O Artifício da Loucura



Pareceu-me traição ter ficado encostado a uma coluna enquanto, bem dentro de mim, não aceitava a despedida. É sempre mais justo que seja eu a partir. Pelo menos disfarça-se mais a fraqueza. Assim fiquei triste e alheio e, de repente, comecei a achar tudo estúpido. Tudo, isto é, a vida a estação, o porteiro, eu a entregar um bilhete que foi separação  (era curioso que nas estações se pudessem comprar bilhetes de separação… Era curioso e estúpido!), a cidade lá fora com um Domingo que também foi nosso e eu outra vez só com a minha tristeza  e as mãos saudosas da mossa liturgia solar. Fiquei triste como um menino que enfrenta sozinho as ruas e as casas de uma cidade pela primeira vez. Por breves momentos caiu-me toda a vida em cima e não to consegui dizer quando o adivinhaste e me tentavas animar. É que eras ali toda a minha razão de ser, não só futura, mas de todo o passado.
 
De repente como que se justifica a utilidade de toda a inutilidade, como que se vitaliza  numa separação o dom subtil de um acto:
 
                                           “Dá-me um bilhete-de-gare-de-separação!”  
 
                              (O comboio rápido parte com atraso de dez minutos).
 
Toda a vida se resume  a um atraso. Cada minuto de recuperação é uma viagem ao encontro da ligação para o infinito de nós.
 
 
 
Depois, vertigem de mim. Não sei quem fui. Perdi-me passeando até ao cansaço físico. Conversei alheado de tudo, porque eu era ainda todo-outro. Não estava, nem ia. Era. Era nas mãos a saudade. Era nas mãos o sol. Era nas mãos a calma da vegetação que nos acolheu em silêncio. Sobretudo era, sinto-o, o respeito cada vez mais nítido das nossas duas e amplas fontes de vida. Isto é, cada vez mais consciência de um respeito e de uma naturalidade.
 
É bom que este processo de individualização seja comum e paralelo, porque é beleza. E beleza é necessidade que não morre, já que ser perene é parte integrante e principal de sua própria definição. E aqui não será erro definir com o definidor. Beleza é beleza. Um copo é um copo. No entanto só percebemos bem o copo quando o amamos em nosso amor e necessidade, por via da água. Percebemos, então, que o copo tem em si uma função, para além do existir em vidro. Realiza-se quando tem água e serve uma transição.
 
 
 
Hoje existir é ter audaciosa liberdade, mas cá dentro. Ama-se, mas cá dentro. O que se vê é sempre fruto de outras coisas que nada têm a ver com amor. Este é de dentro. Mas também é das mãos. Este é de dentro. Mas também é dos olhos. Olhos e mãos são a conjugação gramatical para quem não sabe dizer outros, ou nenhuns pronomes pessoais. São o eu absoluto feito tu. São o processo maravilhoso de outra forma de poesia, porque maior. São em sua insaciável e plástica substância a identificação total dos sub-planos e dos super-planos de nossa física e metafísica existência.
 
Na confiança que conhece se funda a confiança na vida. Neste voluntarioso acto de aceitação se baseia, pois, a amizade e a energia que dominamos. A amizade de sangue quebrou barreiras, não de escrúpulos, mas de sociedade, deixando que se fortaleça cada vez mais o respeito de e a algo que não se pode definir, mas que parece radicar em nossa própria carne e em nosso próprio espírito.
 
 
 
Agradeço-te, mulher ou cidade, a saudade que me fazes ter de ti. Mas saudade-sempre. Hoje e quando habitas em meus olhos pelo favor da distância, mas da física. Por isso me torço e me envolvo e me canso para me dar todo à memória da tua presença. Fixo, porém, a vista numa escada e tenho saudade de ti. Fixo a vista outra vez na escada e tenho saudade de ti. Por isso quando estou longe, ou abstracto, pode ser por saudade de ti. Às vezes é de mim. Por pena de mim. Por morte de mim. Para vida de mim.
 
 
 
Tudo é tão estranho e subtil, hoje! Hoje o quê? Hoje, sobretudo. Hoje que existo por dom da palavra e da distância verbal de meus desejos e sentimentos. Por isso estou calmo. Talvez por não saber nenhum pronome pessoal para a conjugação do nosso verbo. Calmo por saber que esta ignorância é douta em sua maravilhosa e natural sublimação. Não há castigos, nem promessas do mestre. Há um existir em mãos no sol, em mãos na água, em mãos no fogo, em mãos na terra. Em nossas mãos existe o favor dos pontos cardeais. Por nós o norte, por nós o sul, por nós o leste, por nós o oeste.
 
Assim virados para o mundo em tal favor, corramos dentro de nós mesmos e abracemo-nos lá onde as mãos parecem calar-se, por grandeza ou complexo, mas onde os olhos já são suficientemente grandes para se aceitarem de imediato.
 
 
Augusto Mota, texto 13.4 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
 
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.
                            

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Legendas íntimas

  



O Artifício da Loucura



Parece que hoje te desejo praia, hoje nesta manhã enevoada e retirada ao meu horário habitual por imposição própria, como se eu e a metereologia quisessemos coincidir na celebração do que foi sagrado há oito dias. Dentro do vocabulário litúrgico talvez seja melhor chamar-lhe requiem, um requiem de carne e estação, uma selvagem atitude de compromisso necessário e lícito como a frieza da neblina que nos acompanhou e fez, depois, derramar  orvalho sobre as margens e a vegetação da margens e as margens de nós próprios.   
 
Assim marginados em nós e pela circunstância ambiente, especialmente o céu e a terra, atingimos um litoral distante, como náufragos à deriva durante meses. Mas o nosso naufrágio era outro, talvez inverso. A salvação parece volver-se em afogamento. O porto seguro é bem o centro de tudo, de nós e do universo. Foi, sobretudo para o meu panteísmo feroz, o clímax das atitudes ofertórias. Por isso te sagro na minha obscura religião. É com lágrimas que o sinto e com grandeza de alma que o agradeço. Sabes, é como se fosse um deus que, repentinamente, entrasse no redondel ao toque de uma marcha tauromáquica e aclamado por milhares de aficionados. Seria o delírio perante a besta ofensiva. Seria, antes de tudo, a apoteose do que é sagrado  (porque justo e bom)  e do que é feroz em sua grandeza animal  (o que implica a própria definição de tauromaquia).
 
Assim compreendida perante um deus panteísta e animal esta missa  saudosista do sétimo dia, assim mesmo e apesar de todo o rito literário, continua a atravessar-se neste santuário, como raio desferido por outro deus invejoso, algo que me contraria e me faz volver sobre mim mesmo e reagir mal, como o caracol que se espirala dentro da concha, quando, certamente como eu, prefere a horizontalidade da acção, ou a verticalidade    de estado.
 
 
 
 
Contrariar é, por vezes, vencer. O vencer é, por vezes, teimosia da parte do vencedor. Assim, vencer e vencedor identificam-se numa mesma proposição que, se envolve acto e des-acto, é sobretudo fraqueza e, talvez mais, desejo de aniquilação para mais vencer. Será confuso tal raciocínio, mas, acima de tudo, quis dar-lhe aquele tom existencial que agora me fecunda num desejo de me realizar.
 
Repetir todas as noites o gesto do acordar será destruição. Isolarmo-nos em atitudes não pode substancialmente nada. Assim o que propor? Fuga? Tomada de hábito? Reclusão? E quando os cavalos relincham de encontro aos muros da cidade? Atacam simultâneos. Acobardam-se os gestos. Prostituem-se ali mesmo na praça pública e, depois, aborrecem-se com uma moral em decadência. Desencanto, sim, é a voz da cantora. Ponto final digo eu, como falha em pauta de música. A vida, assim, perde a graça em melancolia, como folhas mortas trazidas pelo vento leste.
 
 
 
“Ouves como é suave o mar? Ou será Beethoven ajudando a união?” Agora o barquito rema contra o maestro e o primeiro violino executa a batuta. Será o absurdo impondo um desejo atraiçoado, ou um requinte de sábio saboreado depois da sobremesa?
 
               (Algo escorre por mim acima e desfaz-se em lágrimas para dentro).
 
 
 
Será que hoje me aproximei de um vocativo? Ou tentei disfarçar um compromisso? Não. Chamar como todos fazem é falta de entrega total. As palavras gastas de tantas afirmações metem nojo. Prefiro inventar novos mitos e novas expressões de amor. Assim dominaremos o original com um sabor de entrega não disfarçada. É que, neste caso, estamos a abusar de uma criação para determinado fim que só nos pode trazer uma satisfação muito especial, mesmo que nela vejamos a sublimação de um outro desejo que se sente, mais do que se exprime. Assim rebolamo-nos nas palavras. Assim adaptamos, sem compromisso, a exclamação ao tempo psicológico e ao tempo físico. Será isto o denominador comum da entrega em palavras.
 
 
Tudo o que é natural é estranho, pois acreditamos sempre mais no irreal  (quando ideal)  do que no real  (quando nunca imaginado). Andamos, deste modo, permanentemente presos numa luta de compromissos. Por isso imagino primeiro o real, para viver depois o ideal. Isto é perigoso, mas bom e justo. Assim me canso. Assim me arrasto. Assim não acredito que estejamos certos.
 
Mas o silêncio será vingança, ou espera? Quando vingança, terá de ser vingança de nós. Quando espera terá de ser a mesma e idêntica atitude de ansiedade de cada um de nós. Assim, e por minha parte, desculpo um pouco a vertigem que se me atravessou nos olhos, arrastando-te impessoal e deixando-me alheio de mim e de ti. Tenho vogado inconsciente e ando a dormir a todo o momento, por necessidade da alma e descanso do corpo.
 
De modo algum ainda regressei. Vivo debaixo de pontes. Constantemente. No fim, mesmo no fim, vejo-me enclausurado nesta cidade rodoviária como se a vida fosse um transbordo entre o não-ser e o deixar de existir.
 
 
Augusto Mota, texto 13.3 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
 
- Discorrências sobre o nosso próprio limite. 

sábado, 11 de maio de 2013

Legendas íntimas

 

 
 

O Artifício da Loucura


 
Com tudo isto já tenho lágrimas na garganta e rostos no coração. Sou nem sei quem nesta escolha de um figurante para mim mesmo. Suicido-me nas minhas próprias lágrimas como se tecesse uma corda de água para me enforcar. Mas, então, hesito e espero. Tudo se dissolve na ausência da memória e na exigência do querer.
 
Quando entornaremos o passado pela vertente abaixo de nossa vida já vivida? Assim tecemos roupa nova para as mãos e outros olhares para os gestos. Depois há coisas que se perdem pelo espaço fora e eu já tenho ciúme das aves. Animais poéticos somos nós! Para quê efeminar um sentimento? Oh, pobres aves! Não lhes dêem liberdade e verão como hão-de morrer em nossas próprias mãos assassinas!
 
Mas eu queria uma flor! Grito angustiado por uma flor e confundem-me com um louco. Vem, só para mim, um hospital e tanta enfermeira! Ah! deuses e demónios, dai rodas a minhas mãos que voarei pela cura dentro, perpetuamente pela cura dentro! Ah! mas vivo louco por mim abaixo, louco por mim acima!  Ninguém  sabe,  parece-me,  que me arrasto com tanta dor desde que, pela primeira vez, descobri que algo me estava a ser negado. Criei, então, qualquer coisa com estas minhas verdadeiras mãos e, assim, um mundo se me abriu: conversando com as flores descobri em mim algo de diferente.
 
                              ( Eu de flores só lhes percebo os olhos ougados! )
 
Assim o sexo dos animais foi para mim a primeira afirmação de que qualquer coisa nos estava a ser ensinada de outra maneira. Assim eu me fecundei em flores e pássaros.
 

Alguém me diz agora: “Vem aí um hospital!”. Ah! flores, fazei-me habitar em vosso cálice ou sentirei todas as ambulâncias do universo gritarem por mim,
 
                                                GRITAREM  POR  MIM !             
 
Loucura, sábia loucura esta que me arrebata todo, mas todo, para os minutos em que me sinto respirar sem mim. Invejo os átomos que se escondem nas sensações, nas agora estúpidas sensações que não atravesso com o olhar.
 
“Ai, assassino, atómico assassino, procuram-te por teres roubado o maior ciclotrão da Europa!” - isto parecem dizer-me as palavras que ainda não chegaram à minha razão.
 
É isso, sou um homem permanentemente desacreditado. A história e a glória de minhas mãos pertence sempre ao fracasso. Vivo nem sei como. Tenho os olhos a ocidente e o sexo a oriente. Assim não sei como governar os segundos e os anos. Vou desistir de viver. É que não arranjo maneira de fazer de tudo isto um diálogo permanente com a sensatez da minha própria razão.
 

Dói-me tudo hoje. Tudo. O norte onde não habito, porque estou no sul. O sul que não habito, porque estou no norte. O sexo e os olhos é que parecem estar parados. Fui vítima daquilo que não me deram: a unidade de mim quando jovem criança. Deviam ter-me prendido a imaginação e os dias às pernas das mesas. Fiquei demasiado senhor e desconfiado daquilo que tocava. Depois dei nova grandeza (outra grandeza) àquilo que queria distante, ou sabia distante e queria perto das mãos. O  mundo revelou-se-me demasiado desfeito, demasiado inoportuno para o que eu já sabia. Entrei cedo demais na música das flores e no círculo dos segredos mais íntimos do universo.
 
Tudo se reduz, afinal, ao relativo de nossas sensações, ao tempo exacto de nossas sensações. E como gostaríamos de as prender, ou matar, quando elas se impõem à memória com uma permanência exacta, viva, real, quotidianamente  exasperada. Assim concluímos tanta coisa errada!
 
Augusto Mota, texto 13.2 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964

Legendas íntimas

 
 
 
 

O Artifício da Loucura


O  ARTIFÍCIO  DA  LOUCURA

Loucura, sábia loucura de sexo e mar esta que passou a invadir-nos e que espalhamos por nós mesmos como se fora uma benção para o corpo. É que assim obrigamo-nos só a acreditar naquilo que conseguimos dominar e fazer e desejar. E então quando se tem uma mulher, nem que seja só pelas mãos, ou pelos olhos, ou ainda no mais secreto do nosso centro, o infinito estala-nos nas unhas como se fosse fogo  (ou artifício)  a relaxar-nos os nervos. Depois o receio passa a ter outra dimensão, já que o desejo se alimenta da própria loucura. Esta, porém, nunca é um fim de libertação, mas um meio de justificação, ou caminho paralelo para a purificação.
 
Tudo isto, tudo isto, contudo, deve saber a estultícia, a outra maneira de disfarçar a solidão e o tempo que separa as mãos que amam dos olhos que desejam. Este género de apetências acarreta sempre outros factores que definem e condenam. Mas salvam, sobretudo. E é bom que assim seja. A salvação quando está no desejo justo é uma via justa para as pernas, ou para a imaginação que nunca se cansa de caminhar, de muito caminhar pelas flores dentro, pelos prados fora, pela ausência de outro corpo, ou pela presença de nosso próprio sexo.
 
Ai as mãos e os poetas! As flores quando germinam já estão condenadas. Faz parte da apetência. É a salvação. É outro ritmo para o sangue e para a carne. É um novo plano para a construção do mundo, ou da cidade, ou da nossa célula familiar.  A poesia é que, quase sempre, receia a edificação das ruas, ou servir as montras de nossos estabelecimentos corporais. Nessa altura já não se processa nada e ingentes serão os braços perante tal recusa.
 
O que vale é disparar contra o espaço todas as nossas virtualidades e agarrarmo-nos bem ao tempo, não das recordações, mas ao tempo que iremos viver realmente. Arranjaremos, por certo, calma para os olhos e calma para as mãos. A boca  terá  outra  tarefa.  Ficar  calada,  ou  sorver  os  nossos  próprios olhos  para  alimentar o futuro espaço na exiguidade das horas que vão sobrar. É que quando se alimentam tais horizontes em nosso próprio peito sujeitamo-nos  à tortura das palavras. A desfilada é outra espécie de corrida para as sensações e para os dedos:
 
Encostei-me a uma sensação e despenhei-me pelo abismo do meu sangue. Ah! Como domino estas flores e estes  pulsos que ergo para ameaçar a derrocada! Grito! Grito por mim abaixo e sinto nos pés a força deste caminhar. Vou para oriente. Aí repousa a memória dos dias e revejo-me criança. Esta queda em minha infância parece insidiosa. É justa, contudo. Sinto-lhe o valor e albergo nela todos os gestos que hoje me amparam as sensações. Por isso este desfalecer encostado à memória me traz uma satisfação de juventude e uma força de método.
 
O sangue agora é outro e a mulher que me atravessa a garganta verticalizou-se apoiada ao mais belo de mim. Respiro com outra dificuldade e  tenho  que dizer  às  mãos  que a  poesia  já não é um grito de pássaro, ou um grito de flor. A poesia, agora, é tudo o que vibra entre os meus dedos. As sinfonias passaram a ser outra coisa, mas a mesma coisa vista de outro modo. O maestro sou eu. Domino a orquestra com um simples gesto, ou repudio a liberdade das escalas musicais.
 
Outra maneira de me encostar às sensações é este costume de domínio para perceber o que tento criar. A criação parece ser, portanto, uma sensação de domínio que nos é oferecida para nosso governo:
            
                        FOGO  NA    CONSTRUÇÃO   DO   MEU  ANIMAL !
 
Agora habita-me as pernas um horizonte estranho. Estou virado a norte e a ocidente queda-se o mar e o céu. Os pinhais escoam-se até aos joelhos e não me deixam andar. Os passos são outro sentimento para aquilo que empresto às mãos. Estas, por força da noite, entregam-se a outro caminhar que não sabe o que é distância, nem o que é cansaço. São vertigens isto que tenho! Vertigens num mirante sobre a planície e a aula. Os alunos são camponeses e operários. Moços de lavoura todos nós o somos. A algazarra e os bois é que nos dão uma estabilidade de pessoas opulentas.
 
Sensações, sensações, sensações. Os óculos são um automóvel. Os olhos um corredor e eu um quarto encerado. Os passos espelham-se no lustro como se fora um palácio que me dessem para habitar. O mármore está nas veias. A escadaria são as pulsações. Quando entro em mim parece que há trombetas para saudar um visitante desconhecido. Régia corte esta! Alabardas sim, mas quero outro ritmo em toda esta diplomacia.
 
Augusto Mota, texto 13.1 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
 
- Discorrências sobre o nosso próprio limite. 
     

sexta-feira, 10 de maio de 2013

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