sexta-feira, 14 de junho de 2013
A Geografia do Prazer
O CICLO DAS SEMENTEIRAS
Junto do fogo moldámos as mãos ao sabor
dos frutos que rescendiam à luz trémula das labaredas. Ateámos ainda mais o
fogo e logo todo o pomar vibrou com o crepitar da lenha de pinho, que lançou
mil chispas em todas as direcções, como se fosse artifício de festa. Era,
antes, a natureza a festejar o seu ciclo das sementeiras de Inverno. E, também,
da floração dos ramos das amendoeiras. Em flor parece estar já tudo o que a fogueira incendeia e se
reflecte nos olhos avermelhados pelo calor das brasas. E, nos gestos que cortam
o silêncio, adivinhamos o abrir rosado das flores da magnólia que, como dedos sequiosos, afagam o orvalho que a noite vai
fazendo cair em nossas mãos.
A frescura da noite avança sobre as horas
que temos de cumprir. A fogueira vai-se extinguindo e as brasas mortiças já não
conseguem enxugar as mãos e o orvalho.
Os botões da
magnólia vão continuar a abrir durante toda a noite e, amanhã, os dedos percorrerão, pétala a pétala, todas as flores
em busca do fogo e dos frutos que moldaram as nossas mãos. E quando, na árvore
nua de folhas, estiverem abertas todas as flores, será como que a natureza a
festejar o seu artifício e a inaugurar o ciclo das sementeiras da
Primavera.
Augusto Mota, texto 45 de «A Geografia do Prazer», 1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
A Geografia do Prazer
A BARCA DAS ILUSÕES
No mar das ilusões balança, à deriva, uma barca carregada de
palavras e pinheiros mansos. O sol quente da tarde brilha sobre as copas verdes
e as pinhas, como se quisesse amadurecê-las à pressa e lançar seus frutos às
vagas do tempo. Ou à infância, entre os trabalhos e a paciência dos dias
passados a apanhá-las, a aquecê-las, a debouçá-las, a britar os pinhões aos
serões de Inverno, a torrar os pinhões no forno, aproveitando o resto do calor
depois de ter cozido a broa, a fazer enfiadas de pinhões para pôr ao pescoço e
ir comendo e andando. E ir andando e comendo. E ir comendo, por vezes, a
própria linha da enfiada. E assim enfiámos pelas vagas do tempo onde, à deriva,
balouça uma barca carregada de sol, pinheiros e palavras que, pacientemente,
britamos neste serão de Inverno. As palavras, por vezes, são pequenas demais e
britamos os dedos à procura do sentido próprio para a nossa enfiada de
sensações que pomos ao pescoço em dia de festa. Mas festa só nossa. Íntima.
As sensações que mais prezamos não se vendem no alarido dos
arraiais, antes se descobrem e se usam no festim que o silêncio traz até nós e
que saboreamos com a delicadeza com que se comem, um a um, todos os pinhões de
uma enfiada. Nesse paladar raro do pinhão bem torrado, mas ainda a lembrar a
seiva que o alimentou, se justifica o sabor do silêncio e a festa que
engrinalda os sentimentos. De tais sentimentos evolam-se os perfumes frescos
que imaginamos terem debruado os cabelos de uma deusa romana e que hoje iremos
servir à sombra dos pinheiros mansos, enquanto a barca, carregada de palavras, equilibra a sua carga no mar encapelado dos sentidos vários que atribuímos às
coisas.
A viagem vai longa e, ao anoitecer, esperamos lançar ferro na
baía da nossa esperança, fazer uma aguada breve e tomar provisões para cumprir
a rota de circum-navegação à volta de nós. Pelo caminho deixaremos pinheiros
mansos, como padrões, a disfarçar o nosso rasto. Nas pinhas escreveremos
mensagens de vida que o mar transportará até às praias do futuro.
Quando lá arribarmos comeremos dos pinhões mais vingados e, asssim, ganharemos outro alento para melhores descobertas.
Augusto Mota, texto 44 de «A Geografia do Prazer», 1999
A Geografia do Prazer
PLENILÚNIO
Procuro o tempo entre os espaços claros que a lua cheia deixa
marcados no relevo suave das encostas.
As árvores povoam de sombras os atalhos que nos levam às recordações de
ontem, quando, no planalto sobranceiro à memória do corpo, cruzámos os gestos e
os olhares ao ritmo dos segundos que pareciam esgotar a eternidade. Sobre estes
campos enluarados estamos a reviver o
percurso fértil pelas artérias da cidade e refazemos, no retiro da memória, o
ardor da caminhada até ao cimo de nós. Majestosa vista essa sobre o cansaço que
parecia querer esmagar a respiração, enquanto os olhos, bem abertos,
pronunciavam silêncios e mais desejos! Como hoje, o luar invadia as janelas e
atravessava as espessas cortinas da noite. A cidade não bulia como de costume.
O movimento dos carros, ao longe, chegava-nos como se fossem ondas
espraiando-se mansamente pelo areal. E a luz que recortava os gestos e beijava
a escuridão reanima-se hoje, aqui, enquanto repetimos, como invocação, as
mesmas palavras que ecoaram pelas ruas
mais secretas da cidade.
Os segredos das cidades reanimam-se, assim, com as palavras que
evoluem por entre os gestos e a escuridão e que, por vezes, até se escondem na
infância dos dias.
Abrimos o peito
ao fulgor desta lua cheia e deixamos que a natureza se entregue ao ritual
cíclico de sentir a claridade vaguear pelo tempo que oculta a memória precisa dos gestos. De
todos os gestos. Mesmo daqueles que, subitamente, vêm ao nosso encontro e nos
repetem todas as palavras que gostamos de ouvir através das noites límpidas e
frias de Inverno. Esses gestos ganham outro sentido quando, no segundo dia do
segundo mês de cada ano, anunciam o novo percurso do corpo por entre as
passagens estreitas do tempo. Desse tempo que vive do sonho e da realidade e
nos faz percorrer sendas perigosas no desfiladeiro das emoções, que este luar
ainda mais excita.
Hoje não há
concerto para elogiar datas e promessas. Os laranjais junto às fontes são já
melodia fresca e festiva. As águas calmas reflectem o sorriso claro da Lua e a
noite começa a minguar. Colhemos ainda romãs nos pomares à beira-rio e
procuramos, no alvor de um novo dia, orquídeas selvagens que bastem para
entrelaçar nos raios do Sol que, de mansinho, vai acordando a madrugada e a
vida.
Augusto Mota, texto 43 de «A Geografia do Prazer», 1999
A Geografia do Prazer
AS ORQUÍDEAS SELVAGENS
São orquídeas as flores selvagens que
brotam entre os dedos da madrugada, quando o horizonte avermelhado anuncia o
acordar de toda a natureza. Vão-se
apagando as luzes dos caminhos que levam à cidade e já chega até nós a azáfama
de um novo dia. É a cidade que desperta. As cores dos pomares e das leiras de
terra multiplicam-se pela paisagem além, até se confundirem com o verde dos
pinhais que desaparecem no horizonte em direcção ao mar.
São selvagens as
flores das orquídeas que emudecem as palavras que a boca tenta articular,
quando o espanto incita os sentidos e o desejo se deixa levar pelos atalhos
corajosamente perfumados de tomilhinha e sempre ladeados
de alecrim, rosmaninho e madressilva-caprina. Com tantos e
tão frescos aromas fizemos um cesto de ervas do monte e a elas juntámos uns
ramos de erva-abelha, sargaço e roselha. É o corpo que rejuvenesce. O odor
forte da terra dá outro ânimo às palavras apenas segredadas, até se confundirem
com os sentimentos que as mãos exprimem em seu lento trajecto de encontro ao
tempo que habita a nossa realidade.
Augusto Mota, texto 42 de «A Geografia do Prazer», 1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
A Geografia do Prazer
CONCERTO FESTIVO
Anos fazem-se todos os dias que acordamos
dentro de uma paisagem de sonho, onde a mais irreal fantasia percorre connosco
os atalhos secretos que levam, por entre doces pomares, às fontes de um rio que
corre para o norte de todas as sensações. Os laranjais reflectem-se nas águas
vagarosas, acabadas de nascer por entre nogueiras e
fetos que escondem os muros de pedra solta. São
estas imagens carregadas de cor e sabor que dão vida à memória da vida e,
permanentemente, adiam a distância entre nós e aquele outro horizonte que
fechará o círculo do tempo à nossa volta.
Festejamos as datas com promessas e música
de Vivaldi. Estes sons de flauta de bisel, cordas e cravo são o contraponto
ideal ao silêncio dos sonhos e dos pomares que justificam o rio e a corrente.
As cores são mais apetecidas e os sabores mais apetecíveis. As águas parecem
acelerar o seu curso ao ritmo da partitura, como se o executante, o maestro e o
espectador fossem uma e a mesma pessoa. O concerto aproxima-se do fim e da
nossa tristeza. Lembramos os tempos em que ouvimos esta mesma melodia, em
viagem, a caminho do mar e do sol poente, enquanto recordávamos muitas coisas e
não dizíamos nada de nós. Nem sabíamos nada de nós. Ou sabíamos, sem saber que
sabíamos. Ou sabíamos e não dizíamos. No entanto fomos a caminho do mar e
ouvimos mesmo as ondas a desfazerem-se na noite da praia, como se
quisessem prolongar a melodia que já nos
excitara a viagem e as recordações.
O sortilégio do mar, à noite, é o ser
capaz de prolongar as viagens que já fizemos e todas as que gostaríamos de
fazer a caminho de nós. As ondas, que só ouvíamos, excitavam à aventura e o
fresco da noite acentuava o cheiro da areia e do sal e fazia apetecer um
passeio à beira-mar, apanhando vieiras.
Vai longo o dia e temos de fazer o rio
regressar às fontes e ao seu curso calmo, entre pomares e laranjais. Repetimos
a melodia e despedimo-nos do sonho e da paisagem. Sequiosos de tanto vaguear,
por terra e por mar, bebemos água fresca da nascente e colhemos dos melhores
frutos para favorecer a viagem de volta à realidade dos dias e das noites.
Augusto Mota, texto 41 de «A Geografia do Prazer», 1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
O Artifício da Loucura
Ah! Abraça-me, mulher! Para ti vou começar a minha loucura
atlântica! Para ti renuncio às algas e às metamorfoses. As crisálidas são uma
outra posse da noite. Voaremos depois, abstractos, pelo casulo dentro. Voaremos
depois pelos próprios fios e pelos átomos da própria seda. As sensações serão
novo tecido em nova indústria. Seremos industriais, portanto. Seremos tudo.
Seremos noite e dia. Seremos.
Em tuas mãos escreverei muita coisa nova. Cidades erguerei e em seus
muros botarei castelos e alcáçovas. E vinhas plantarei para ti. Sangue novo e
ébrio será o nosso alimento.
Mas que crucificação esta que me tortura o sexo! Vinhas e figueiras.
Judas Escariote. Folguedos da Primavera. Divertimentos ou crimes. Não. Só amor
crescerá nessas colinas e em tuas mãos. Mas acredita nelas. São pequeninas, eu
sei, mas tudo tem outra grandeza quando desprezamos o tamanho real das coisas,
ou a sua deformação, e conquistamos aqueles outros valores sobre-reais que nos
dizem tanta coisa de nossa infância. Ah! cidade amiga, dá-me essas mãos.
Quero-as aqui, já! Prefiro este crime do que saber-te desprezar o mais rico
alimento de nossa cabeça. Como queres outros olhos para as mãos se, assim tão verde, acreditas no desprezo
dos outros? Encosta teu desprezo à
minha vontade e tentaremos uma
nova gramática. Mas não mistures, por favor, a semântica do nosso português
com a de línguas estrangeiras. É belo estender a mão e saber que dimensão
traduz, verdadeiramente, este gesto na nossa linguagem.
Quantos barcos nos dizem adeus, ou quantos soluços amarramos na própria
garganta? Quantos braços voam até nós, ou quantas vontades sacrificamos num
olhar? Por vezes tudo é simples e sentimos como que água fresca nos pulsos e
banhamos o rosto nas mãos, nas nossas próprias mãos. As outras, aquelas que são
ilusão do olhar, ou sortilégio da cabeça, guardamo-las para outras ocasiões,
quando o desespero ou nos fere, ou joga connosco às escondidas. Nesse jogo
fortuito vamos animando os barcos da nossa regata, ou ancorando-os na
esperança, que também é água.
Todos marítimos, somos piratas de um absurdo. As ondas vão e vêm
como os dias e as horas dos dias.
Tudo parece igual, demasiadamente igual, se a aventura não der às mãos
uma outra realidade. Tudo o que se toca é, então, velame secreto num adeus aos
objectos. Os mastros serão nossos dedos em êxito perpétuo. “Desferir” é a
palavra de ordem a cada passo e junto de cada objecto-aventura.
Em nada poderemos apoiar os pés.
A aventura começa nesse exacto momento em que a voz se embarga e algo
não consegue gritar dentro de nós. São os soluços amarrados à própria garganta.
São milhares de barcos que partem à aventura dentro de nós. Tudo é, de repente,
outra coisa e, ou se naufraga nas plagas longínquas de continentes ainda
absurdos, ou começamos a sentir o vómito da posse, o êxito gritante da carne em
espasmos. O remate da aventura será o refrescar do rosto na espuma da ressaca.
Tudo é, então, violento, mesmo o prémio da aventura na realidade dos próprios
gestos.
Assim temerosos, o que nos resta? Ou o barco a que nós diremos adeus,
ou a travessia a vau de todo o oceano que anima as nossas vontades. A escolha é
difícil. O perigo igual. O êxito comum.
Se não fosse todo este tempo com que envolvemos as mãos para, depois,
as depositar no colo de nossa própria saudade, diria que perdemos, subitamente,
a maior segurança de nós próprios.
Ah! Este súbito acordar pela manhã! E a noite quando entra pela
garganta parece que, ela própria, produz outros ritmos de arte, ou lágrimas.
Ah! Mas verdadeiramente é no longe, na distância que já não nos separa, no
horizonte que não avistamos, que existe a delícia destas horas todas que
parecem adormecer os membros e os olhos. Não é fartura. Não é enjoo. Não é
sermos vítimas da paz ou da guerra que sempre alimentamos em nós. Nem tão pouco
a concórdia se resolveu em nefasto juízo, ou se negociou como acção rendosa.
Réditos são os prolongados silêncios do entardecer, quando os olhos gostariam
de amar tudo para além do que não vêem, mas devoram com os segredos do
pensamento e a guarda da imaginação.
Mas esta hora é outra e sinto-o neste arfar que não é respiração, mas
loucura povoada de gestos nobres de quem vence. Vou, então, sabiamente, entrar
em novo reino de vitória, em outra música, em abstracta orquestração destas
horas que julgamos de tédio.
As mãos continuam a chamar pela manhã, aquelas acordadas manhãs de
outrora. Os jardins ainda estão floridos e cada pétala, ou lágrima, é cuidado
novo nesta horta que regamos de ânsias e de justificações. Vamos novamente
acordar a loucura, ou o simples manejar daquelas sugestões que tantas vezes
fizemos? Mas tem de ser um acordar secreto que nem os olhos o vejam, nem a boca o sinta. A
distância física, e só ela, aproxima as raízes, ou a febre, desta viagem em
torno de nós.
Parece que, no fundo, nada consegue falar mais do que este silêncio de
alma que só vê as palavras, ou receia pronunciá-las para além de cada gesto da
mão que escreve. Também poderá existir um pensamento (outro pensamento) na ponta
de cada dedo, como se a mão-toda fosse bem outra personalidade que pensa e
executa a distância. Esta distância provoca-nos a memória de tudo e ri ou chora
connosco, sempre como um novo alento para a habitação que nos vai envolvendo os
passos. Os anos são janelas de um edifício único. As cidades serão vidas sobrepostas, ou o
fruto da intimidade de gerações.
A história faz-se de sangue e de cidades que se erguem ou se destroem.
Portanto nem foi a segurança de nós próprios que perdemos subitamente. Estamos,
apenas, a continuar a história da intimidade das nações!
A tarde extingue-se no louvor do
tempo que me atravessa e, pensando na noite, deixo a vista naufragar na janela
do horizonte. Tomo em mim o barco de toda a pirataria e sulco as ânsias e as
tristezas de meus dedos. Fico-me. Cravo em silêncio as unhas na carne das
próprias mãos e grito. Grito todo, outra vez, por mim dentro e vejo e revejo a
brusca exactidão do que quero e sou. Admiro, acima de tudo, o que se passa em mim e à minha volta. Então, perene, sou esperança nesta certeza de existir, nesta
tarde de ser homem, nesta confiança de me afirmar.
Uns olhos, contudo, admiro neste requisito. Uma cidade construo neste
dealbar de estação. Uma mulher adormece em meus braços nesta noite de esperança.
Sou livre nos gestos e pago a infância e a tristeza da espera.
Não sei quem sou ou se sou uma invenção de mim. Caminho ou localizo-me
sempre de encontro à noite e as pessoas atravessam-se-me nas mãos como se
fossem estrelas. Mediana condição esta a de abrir as mãos na própria rua e não
encontrar o justo princípio de mim!
É secreta a noite, como se a tarde não bastasse para desejos e
silêncio. É no silêncio que nossas vozes se ufanam e todas as cores se
transformam. A vitória, se pertence ao gesto, declina o passado e
ultrapassa-nos. Por isso sinto as horas todas chamarem por mim, ou por uma
oculta e sábia natureza a que parecemos pertencer.
Mas hoje entrego-me a este sabor das palavras que nada dizem de mim,
como se fosse medo, ou procura apenas, o que me domina. Já me doem os olhos e o
sono vem das próprias luzes, das silhuetas dos pinheiros, do comboio que
atravessa a noite
e parte para
o infinito de nós. Por isso dizemos adeus às pessoas e às bagagens. E também porque nos entregamos
a uma força diferente que é um arrastar de corpos pelo espaço da noite e da
sala de aula. E é à partida que tudo nos dói. As unhas e os dedos.
Ah! Mas hoje já posso gritar:
ESPERA-ME !
O grito ouve-se por mim dentro e volto a gritar. A noite e as horas
batem no meu peito e ao longe a catedral ilumina-se como se fosse um castelo.
Há névoa e som sobre a cidade e sinto-me partir como se os segredos da
noite me empurrassem para a alegria do silêncio.
São nove da noite numa sala de aula onde há traços e palavras a
riscarem o silêncio dos vidros embaciados. Haja paz em nossos gestos! Amanhã
seremos livres. A liberdade, então, inicia-se na noite profunda, quando os
traços, ou as
palavras, nos dizem inúmeras coisas de nossa infância. Esta liberdade é sempre uma mulher, ou nós mesmos efeminados no isolamento
da dor e do sentir.
Que circunstância envolve, por isso, o olhar e o riso? Um beijo ou uma
flor? Cada seio que apertamos na mão é sempre um mundo onde entramos pelo ritmo
do medo, ou pelo desejo de não nos angustiarmos mais. E a chuva sabe tanto
desta verdade! Propicia sempre o entardecer com alguém entre os braços, ou
pássaros entre os dedos que fogem, fogem e correm atrás de tanta pétala, ou
lágrima de nosso passado.
Mas a chuva, ai a chuva! E o frio? O frio é lume para o corpo que se
aquece no desejo. O sexo encolhe-se com esta temperatura que vem de fora, como
se as flores, ou os jardins todos, não tivessem que sofrer a invernia.
A calma e o bote atingem-me a garganta e afogo-me neste dia que se
esgota no amor. Uma linha atravessa-se-me nos olhos. Não. Foi uma palavra de
ordem: um navio apitou ao longe sobre os trilhos e os passageiros apeiam-se na
estação. O chefe grita:
LEIRIA-GARE !
Tudo volta ao princípio como se não houvesse ligação com a cidade.
Então, ou se regressa ou se continua a pé. Ah! Mas quando aportam navios à
minha cidade? Navios com crianças e laranjas queria eu aqui nesta noite e nesta sala de aula. Tudo como se a vida fosse um fruto ao sabor das
ondas, ou do desejo.
Afogo-me ou nado contra o horizonte. Mas outra linha se levanta das
carteiras e se atravessa nas janelas. É o horizonte da noite. Meço-o com uma
régua e grito à turma:
ARRUMAR !
Assim acabam os dias na arrumação das ideias e da memória dos factos.
Pobres de nós que esgotamos tanta energia na inteligência das mãos que levamos
à boca,
desesperados dos dias
que vão acabando
sem a nossa presença. A morte, ao fim e ao cabo, é que nos irá definir. Quando não
desejarmos mais nada. Uma pessoa que não deseja está definida, ou morta.
O! Inglória germinação! Tanta árvore a despontar e o Inverno a correr
pelo sumo dos
frutos que hão-de
amadurecer. Esta sede,
ou nocturna circunstância, é que fere o estômago e nos faz estender os braços para
cada papel que cai no chão, como se a vida jamais pudesse existir sem
aborrecimento, ou um não encontrar a forma perfeita para os gestos de dar e de
receber.
Acaba a semana no exílio da carne. A quem louvar? Às árvores ou à água
que nos alimenta e transforma a vigília em febre e leito? As estrelas são, por
isso, o reflexo dos olhos e brilham, ou choram, como crianças nuas. É sempre a
mesma coisa. Anos após estendo ainda os braços e caio sobre a minha própria
fraqueza.
Adormeço e a semana extingue-se a meu lado.
Vou viajar em navios da noite. Com meninos e laranjas. Parto neste
exacto momento em que o papel esgota a possibilidade de rectificar as palavras.
Augusto Mota, texto 13.10 e último de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.
O Artifício da Loucura
Será que ainda caminhas pela areia de nossos passos, ou
reduzimos o tempo ao sabor da memória? Será que ainda caminho pele areia de
nossos passos, ou reduzimos o tempo ao sabor da memória? Ai esta imaginação que
se alimenta tanto do que perdem as mãos!
Tenho-me preocupado com a imagem de nós a caminho das dunas, nós
delicadamente amigos e um tanto diplomatas! Esta imagem impõe-me qualquer coisa
de estranho que ainda não desvendei. Reparaste que o longe que avistámos estava
já lá, mas o perto que íamos vivendo conquistava-se àquele imediato futuro cujo
sabor, ou posse, às vezes desperdiçamos? Portanto o futuro pode conquistar-se
com a vista, mas não se viver com as mãos.
O que fui, o que sou, o que serei a ti cabe em desgraça. Se é o coração
que beijas é, antes, a minha vida que sorves, como se novos processos da
medicina pudessem resolver-se num acto físico recíproco. Ah! Eterna esta carne
que nos cobre os ossos e nos transmite também as doenças! Ah! Diabo de vida
onde vivemos e morremos com a sensação de contínuo perdão! Mas perdão para
quê? Quero querer para
além de todas as forças e descobrir, descobrir porque se me abafa a cabeça em certos momentos e
me sinto assassino, ou desgraçado de sentimentos. Às vezes parece-me ultrapassar o cume lícito de minhas
vibrações e desfaleço tanto que me sinto como a criatura mais repudiada do
universo. Começo a sentir a pele inchar sobre o pulsar das ideias e as palavras
falam tanto para dentro, tanto para dentro, tão vertiginosamente para dentro
que não reajo ao menor (ou maior) estímulo. E isto tudo é por um sentimento de
amor. Por um grande sentimento de amor. Daqueles que nunca se encontram, mas
para onde se caminha.
Anda, vamos pela praia. As pegadas que ficam para trás são mesmo nossas.
Não iremos sós. Nossos passos justificam a companhia das mãos.
Assim sendo e quando algo desce sobre mim como maldição, ou santo
espírito do mal, recolho-me ao conselho de minha infância e arrasto anos a
desvendar o fruto do meu trabalho. Venho depois (venho sempre) mais justo e
bom. O sofrimento sempre me alimentou e justificou os olhos. Estes que vês são,
apenas, para solenes ocasiões. Escondo outros, para dentro, que ofereço e gasto
no fogo e voragem da minha luta. Ou, então, serão todos a mesma coisa (já nem
sei), purificados agora pela boca de teus desejos.
Agora como nunca o tempo parece ter parado. Que estupor de vertigem
esta a de viver antes do tempo! Ainda se tivesse forças para me entregar a
outros devaneios, o tempo seguiria o seu rumo normal. Mas não. Penso,
sobretudo, que ainda vamos ter tanto tempo entre as nossas vontades e o chegar
de um comboio. Ah! Mas então costumo deitar-me, também, na sensação do
imaginar-te e durmo por ela dentro, até ficar acordado para o calor que me sufoca,
para a cabeça que me pesa e para as pernas que acusam o tormento de viver de
cabeça para baixo. Ah! Quando? Como? Justiça? Olhos? Boca? Interrogações sem
nexo? Ou eu apenas desejoso de querer respostas de tua própria boca? Não sei,
francamente, se estes dias todos serão de calma ou de doença. De qualquer modo
terão de ser vingados. Nós o exigimos para nossa igualdade.
Deixa-me, ao menos, brincar nas ruas de tua cidade, já que nada me é
lícito neste frio que tenho. Nesta ausência de palavras que tenho e não queria.
Mas, agora, o querer já me exige outras grandes coisas para além das palavras e
do silêncio dos meus gestos desperdiçados. Então amar é ter consciência dos
gestos que se desperdiçam no silêncio, neste puro silêncio onde os olhos não se
reflectem, onde as mãos não se comparam, onde as bocas não murmuram sentimentos
para as horas. E tudo, tudo parece ir e vir de mim e para mim, sem qualquer
significado, sem outra responsabilidade que não seja a de querer ter
consciência desse todo (ou tudo) que me faz tremer e gritar e depois volver-me
sobre mim mesmo. Ah! Mas todas estas voltas serão um dia redimidas pelas mãos,
pelos olhos, pela boca, por tudo isto perpetuamente redimidas. Assim redenção e
amor igualam-se e purificam-se. Assim os gestos e as intenções desses gestos
serão nova expressão daquilo que não sabemos que somos.
A intenção e o ser ganham no futuro significados absolutos. Condicionar
o futuro será, outrossim, hipotecar a intenção. Será, até, limitar o que se
anseia com aquilo que se teme.
Augusto Mota, texto 13.9 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
O Artifício da Loucura
Sabe-me bem pronunciar este chamamento de ti. Pena que o
suspiro que me invadiu agora não o possas sentir mais perto para meu inteiro
favor. Depois de tudo nem sei quem tem a culpa do vazio que nos separa. E acho
que é muito justo não o aceitarmos. Temos tão pouco tempo. Temos tanta coisa
para não dizer e escutar com o silêncio vertebrado dos olhos. E como te poderei
abraçar muito se estremeço neste silêncio que me interpõe a tua imagem a cada
pulsação?
Sou alheio de mim, ou outro-eu, neste querer que é sempre vontade para
desejo da minha ventura. Nem era precisamente isto que eu queria dizer, mas
precisamente isto. Sim, é esta terrível condição de querer o absoluto simples,
quando os dedos tocam só o relativo, que nos deixa ficar dominados por tudo o
que ainda nos diminui mais e faz de nós criaturas ímpares aos nossos
olhos-alheios.
O artista é, por dom sublime, mais fraco (em sua
fortaleza) do que o homem comum, pois soçobra por não realizar o seu absoluto
poético. E depois o mundo fecha-se-lhe todo, como à criança que não alcança a
laranja em cima da mesa. E a laranja é, ao fim e ao cabo, uma coisa tão banal!
Vende-se às dúzias no mercado. E porque não há-de ser justo não se vender
angústia no mercado?
E cansaço por
via da angústia. Para quê relativismos? Tudo se passa na cabeça. A cabeça, então, é que não devia
pensar certas coisas acerca da relatividade. Assim fica-se com a ideia de que
procuramos umas coisas por relatividade de outras. E é. A relatividade da minha
paz está em tuas mãos, ou cabeça. Está em ti toda que me pensas e me ajudas.
Mas vem logo o circunstanciar do nosso querer e desço em mim súbito, como que
precipitado em um abismo. Onde caio? Em teus braços, ou nas ruas de tua cidade.
E forçoso é que chore da queda e das dores da queda. Tu, mãe por meu querer,
oferece-me descanso em teu colo. Preciso de saber tantas coisas. Preciso de
saber tantos gestos, incipientes a princípio, mas cujo conteúdo adivinho útil
em minha gramática de paz.
Caio em ti por necessidade de abortar tudo o que em mim infecta o
nascimento mais verdadeiro. E sou exigente, por mim. Tenho a dor da experiência
a dar-me cabo dos movimentos mais subtis e a boca não se move no articular das
grandes palavras. Oh! maravilhosa natureza a nossa! Onde paramos neste
desabrochar de flores em tempo tão frio?
Este frio entrou-me pelas veias e estalou no fundo das pulsações. Agora
cavalga em mim como se impusesse ainda mais a necessidade de nos encontrarmos,
depois de tanto errar em angústia, ou veneno. A vida, afinal, é só esta que
levamos e o Inverno parece querer desperdiçar este tempo de juventude sem
termos as mãos dadas. Urge, portanto, que partamos já de nós até chocarmos na
corrida do encontro e ficarmos sem sentidos, pairando a meio do caminho, até
que o encontro real de nossas mãos desperte os olhos para o que inunda as
nossas faces de ternura, ou amor. Amar é tudo isto, sobretudo este correr pelo
ar e pelo mar em busca de outras sensações, este partir dos olhos ou da boca
para a lavra do infinito. Às vezes fico-me pequeno no meio deste torvelinho que
vejo mesmo com estes meus olhos.
Mas já seria grandioso se, como Jeová, olhasse o abismo, estendesse o
braço, te agarrasse pelos cabelos e puxasse bem para junto de mim. Depois o
ritmar de nossos corpos me haveria de fazer descansar do enorme esforço de ser
deus. Ficaríamos lado a lado como dois condenados que o destino atira para a
prisão. Ai a nossa doce prisão de sermos livres!
Sou Jeová, agora. Tudo em mim sou eu. Tudo em mim chama por ti. E tu,
cidade, pairas no esforço da minha garganta como se fosse lá que eu quisesse
ter braços. Quando vou para gritar és tu que sais à frente de todas as
palavras. E não grito. O segredo é nosso. Tem que ser nosso. Sim, as portas têm
que estar abertas. E que os outros sofram na carne tudo o que nos arrastou pelo
rio de sangue que agora nos inunda os membros. Ai doce sangue este em que amar
e morrer parecem rimar. É que quando se ama justifica-se a própria morte.
Intensifica-se a dor no gesto da dádiva, ou na carícia do pedido.
Ainda estamos vivos? Ou será que nunca estivemos vivos? Não sei. Mas é
tudo tão estranho. E uma gare antes da chegada de um comboio (pelo menos quando
se separam as mãos) tem sempre um vento triste que ilumina as coisas de outra
maneira. Porquê? Estranho sentimento este que comunicamos às coisas! Estranhos
os teus olhos, ou as tuas ruas, que não me queriam olhar com medo da partida! E
eu onde parava? Afoguei-me demais naquilo que os meus olhos subitamente
descobriram. Que descobriram eles? Voltaram a descobrir que és minha irmã, ou
irmã de minha cidade-toda! Maravilhosa e
reduzida família a nossa que vive e morre numa chegada e numa partida!
Sim, estamos vivos. Mas o que custa é ter consciência da loucura e
saber dominar a loucura até ao limite do possível. Quando não é possível (às
vezes escapa-se-nos pelas mãos!) morre-se mesmo em glória. E tudo isto é
difícil e estranho, dando-nos uma sensação de infelicidade que receia, ou
despreza, outra dimensão do conceito de viagem.
Augusto Mota, texto 13.8 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
O Artifício da Loucura
Está muito sol, muito sol nesta manhã de verdura e crianças. E estou na
aula. Silêncio e trabalho. Janela aberta e prado ao longe, com vacas e rio. Às
vezes tudo parece natural. Talvez seja esta calma de um automóvel buzinando ao
longe e das casas sobre o horizonte que me satisfaça hoje, neste sol e neste
dia.
É Outono, sobretudo. A janela está aberta. A minha janela panorâmica
sobre tudo. Esta e a outra. As duas. Todas.
Ao longe, mais à esquerda, avista-se o pinhal e inicio em mim uma
digressão pelo mar. Começo aqui mesmo. Estradas e veredas de mim conduzem-me
todas ao mar. Regresso insatisfeito e volto aqui e à só-janela da aula.
Trancada com um búzio assegura-te entrada e saudação marítima. Vem, anda, e
corta o horizonte e arrasa as cidade da minha tristeza de ontem. Abraça-me aqui
mesmo e justifica o momento calmo de agora. Mas acho estranho este dia e a leve
calma de hoje. Foi, por certo, da viagem e da sesta de mãos dadas sobre a proa
do navio. Será que aportei a lugar seguro? Nem sei de mim! Nem sei das minhas
mãos! Molhadas ficaram com a violência das vagas e o esforço do suor. É certo que as beijaste
quando mais desanimaram. É certo que te ofereceste toda quando mais desanimei.
As mãos, essas (e por isso), as devolvo para ânimo e recompensa da luta. Bebe
nelas a água da tua sede.
Por humana simpatia ofereço sempre primeiro ao companheiro de viagem.
Depois bebo eu e recebo em mim a vida que ficou animada em minhas mãos. Sou
pouco higiénico, é certo, mas humano. A higiene é, em sua extrema partitura,
uma super-racionalização do humano. Desvirtua sentimentos e afasta-nos de nós.
É que nos lembra, por oposição extrema, uma degradação que o não é. Impõe-nos
vergonha de nós. Desvirtua-nos.
Regresso por desvirtuamento de higiene (mas mental) à janela de mim. A
outra deixa-me entrar risos que sobem do pátio. São meninas que tiveram algum
feriado. Sobe-me agora, também, a cor dos meus adolescentes guerreiros. É
verdade, hoje está um sol de guerra amorosa. Hoje podem libertar-se pombas e
oferecer-se flores. Só o vento que agita os cabelos naquela “Ala dos Namorados” não tem correspondência cá fora. Só, talvez,
nos gritos das crianças. Melhor, nos gritos surdos de tudo o que agora penso e
sou.
Podia, por exemplo, crucificar-me no sol e deixar-me desfalecer sem que
viesses com pombas e flores. Mas vem, traz flores nos cabelos e pombas nos
seios. Só em asas e pétalas sinto remissão para o dia de hoje.
Pombas, ou sangue, são uma e a mesma manifestação deste viajar. Os
olhos são tristeza, ou grito. As mãos um debruar de gestos sobre o infinito, ou
o círculo ingente de nós todos. Ah! mas a boca, essa, é negação, ou vitupério,
quando se ressente da manhã que as pombas saúdam. Por isso quero a liberdade e
o sangue que me percorre como a seiva nas flores. Por isso grito, grito sobre
os ombros fechados e quedo-me e amparo o meu próprio gesto. Sublime expiação a
de tal mecânica!
Hoje fico-me à beira da vida e quero-me sacerdote. O rio é o templo.
Quero só uma pomba em meu regaço! Hei-de
deixá-la dormir, ou gritar-lhe pelas mãos dentro, ou definir-me numa entrega
antecipada de gestos. O gesto, sabemo-lo, é a linguagem surda do inconsciente.
Linguagem de traição para uma sinceridade de intenções. Que há, portanto, a
esperar e a desesperar?
Augusto Mota, texto 13.7 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.
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