segunda-feira, 17 de junho de 2013

A Geografia do Prazer

 
A  ILHA  DAS  PRAIAS  VERDES

Pelo fim da tarde, antes de as nuvens trazerem uma chuva miudinha do lado do mar, avistámos, da costa alcantilada, a ilha onde moravam as nossas intenções. Aí queríamos descansar as mãos e os olhos à sombra de um pessegueiro e comer de seus  frutos amadurecidos pela aragem que agitava as nossas emoções. Evocámos, entretanto, os longos trajectos do dia e as flores douradas das acácias que iam bordando as bermas da estrada e nos guiaram a atenção para um trajecto novo e mais difícil. 
 
O percurso da manhã fora longo, pois cedo iniciáramos uma viagem fértil em melodias e palavras que ecoaram no silêncio da campina alentejana para, mais tarde, voltarem de novo às grandes rectas e às curvas perigosas que a estrada ia desenrolando à nossa frente. Tivemos, por isso, de redobrar a atenção ao desejo de chegar mais longe e mais depressa.
 
Tudo nas palavras ditas parecia ter outro sentido, agora desenhado vertiginosamente na lonjura das grandes extensões da paisagem, ou nos cumes enevoados da serra que nos separava do mar. Fomos sentindo em nossas mãos o esforço de guiar em terreno  tão acidentado e, por isso, saudámos a sombra da árvore e seus frutos, como prenúncio de um regresso feliz. Dissemos ainda promessas de outras viagens ao centro da ilha para, no cimo da sua fortaleza, hastearmos uma bandeira que adejasse perpetuamente aos ventos da vitória e servisse de referência à navegação costeira que iríamos empreender.
 
Largámos ferro já as nuvens vindas de noroeste apressavam o pôr do sol e traziam uma chuva fria e miúda que refrescou tudo à nossa volta e fez crescer por toda a ilha um manto de verdura salpicado de boninas, como se a neve se tivesse enganado na estação do ano. Navegámos à vista da costa e cedo aportámos a nossa esperança  nas praias verdes da ilha. Por lá andámos em busca de fruta nova que refrescasse o sabor da viagem, mas só vimos o mesmo pessegueiro e os mesmos  frutos que sonháramos para dar  sombra às mãos e descanso  aos olhos. Por lá ficámos até a ilusão acordar com a chuva a bater forte nas vidraças da imaginação. Espreitámos por entre as cortinas e a realidade estava mesmo do lado de fora, à espera do nosso regresso através de fortes bátegas e das luzes da noite.
 
A ilha ficou para trás, muito lá para trás. Na realidade e no nosso roteiro interior. Atravessamos agora quilómetros de ponte e o castelo espera-nos envolto em espesso nevoeiro, como se a cidade quisesse prolongar o mistério das  viagens feitas à vista da costa.
 
Augusto Mota, texto 47 de «A Geografia do Prazer», 1999 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


OS  TERNOS  VOOS  DA  MADRUGADA
 
Deitado sobre as palavras pinto, de preto, as letras que dão outro significado ao dia de hoje. Não é de luto, mas de sagração o sentido novo que nos transporta para lá do dizível, para o território íntimo do silêncio, onde os olhos não vêem e onde o tacto é a única sensação que nos guia no caminho de regresso. Como expiação percorremos os trilhos que contornam o rio e as fontes, para ser mais penosa a penitência e justa a absolvição. Andámos pelo ar e pelo mar. Andámos pela terra e pela serra. De um morro alto, dominando a enseada de S.Martinho e o porto, vimos grandes pássaros de cores garridas evoluindo sobre o nosso desejo de subir mais alto e, como eles, rodopiar ao sabor da força das correntes de ar. Das suas asas, bem abertas, pendiam cordas e homens que os forçavam a voos cada vez mais rasantes ao mar das nossas sensações. As cores vivas das diferentes plumagens brilhavam ao sol da tarde. Uns eram amarelos, outros vermelhos, outros de um verde que acentuava o cinzento azulado das arribas salpicadas pela espuma das ondas. A natureza completava o voo circundante das cores com gaivotas planando, também, ao ritmo do vento forte de noroeste, como se estivessem a desafiar os homens-pássaro a subir para além do infinito.
 
No infinito permaneceram as mãos, quentes e suadas do esforço do voo e da viagem. Voámos sobre a concha e um mar esverdeado de fim de tarde. Arrastámos as mãos até ao Sol e, antes que ele se escondesse para lá do horizonte, aconchegámos ao peito o sabor marítimo dos últimos raios. E com   eles   desenhámos,  a  verde,  no   chão  das   palavras,  as   promessas inespoeradas que ouvimos vir de longe. E sentimos, em nossas mãos, os cabelos do vento apontando o sul. Para aí voámos, em círculos apertados, em busca de poiso seguro. Tremeu a terra e o mar agigantou-se. E foi num mar agitado que descemos o olhar e o cansaço de tão urgente peregrinação. Aí repousámos a cabeça dorida do vento e das ondas que vinham até nós. Nas algas refrescámos as mãos, feridas do sol e do sul, e com elas vestimos o corpo da nossa esperança.
 
Viemos, de regresso, pelos súbitos atalhos da memória. Tudo se confunde no mesmo lugar, sobranceiro à baía, com vista para as sensações do corpo  e da cidade. Repete-se o espaço. E o tempo confunde-nos com aquele olhar que descobre os exactos caminhos do nosso progresso. E a ele, ao tempo, entregamos os gestos todos que hão-de anunciar os ternos voos da madrugada.
 
Chegámos antes de partir. Virámos ao contrário o mapa das sensações, mas não errámos o própósito da viagem. Amanhã continuaremos deitados sobre as  palavras a pintar, de preto, as letras que darão um melhor significado ao dia de hoje.
 
 Augusto Mota, texto 46 de «A Geografia do Prazer», 1999      

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


O  CICLO  DAS  SEMENTEIRAS

Junto do fogo moldámos as mãos ao sabor dos frutos que rescendiam à luz trémula das labaredas. Ateámos ainda mais o fogo e logo todo o pomar vibrou com o crepitar da lenha de pinho, que lançou mil chispas em todas as direcções, como se fosse artifício de festa. Era, antes, a natureza a festejar o seu ciclo das sementeiras de Inverno. E, também, da floração dos ramos  das amendoeiras. Em flor parece estar já tudo o que a fogueira incendeia e se reflecte nos olhos avermelhados pelo calor das brasas. E, nos gestos que cortam o silêncio, adivinhamos o abrir rosado das flores da magnólia que, como dedos sequiosos, afagam o orvalho que a noite vai fazendo cair em nossas mãos.
 
A frescura da noite avança sobre as horas que temos de cumprir. A fogueira vai-se extinguindo e as brasas mortiças já não conseguem enxugar as mãos e o orvalho.
 
Os botões da magnólia vão continuar a abrir durante toda a noite e, amanhã, os dedos  percorrerão, pétala a pétala, todas as flores em busca do fogo e dos frutos que moldaram as nossas mãos. E quando, na árvore nua de folhas, estiverem abertas todas as flores, será como que a natureza a festejar o seu artifício e a inaugurar o ciclo das sementeiras da Primavera. 
 
Augusto Mota, texto 45 de «A Geografia do Prazer», 1999
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer

  
 A  BARCA  DAS  ILUSÕES
 
No mar das ilusões balança, à deriva, uma barca carregada de palavras e pinheiros mansos. O sol quente da tarde brilha sobre as copas verdes e as pinhas, como se quisesse amadurecê-las à pressa e lançar seus frutos às vagas do tempo. Ou à infância, entre os trabalhos e a paciência dos dias passados a apanhá-las, a aquecê-las, a debouçá-las, a britar os pinhões aos serões de Inverno, a torrar os pinhões no forno, aproveitando o resto do calor depois de ter cozido a broa, a fazer enfiadas de pinhões para pôr ao pescoço e ir comendo e andando. E ir andando e comendo. E ir comendo, por vezes, a própria linha da enfiada. E assim enfiámos pelas vagas do tempo onde, à deriva, balouça uma barca carregada de sol, pinheiros e palavras que, pacientemente, britamos neste serão de Inverno. As palavras, por vezes, são pequenas demais e britamos os dedos à procura do sentido próprio para a nossa enfiada de sensações que pomos ao pescoço em dia de festa. Mas festa só nossa. Íntima.
 
As sensações que mais prezamos não se vendem no alarido dos arraiais, antes se descobrem e se usam no festim que o silêncio traz até nós e que saboreamos com a delicadeza com que se comem, um a um, todos os pinhões de uma enfiada. Nesse paladar raro do pinhão bem torrado, mas ainda a lembrar a seiva que o alimentou, se justifica o sabor do silêncio e a festa que engrinalda os sentimentos. De tais sentimentos evolam-se os perfumes frescos que imaginamos terem debruado os cabelos de uma deusa romana e que hoje iremos servir à sombra dos pinheiros mansos, enquanto a barca, carregada de palavras, equilibra a sua carga no mar encapelado dos sentidos vários que atribuímos às coisas.
 
A viagem vai longa e, ao anoitecer, esperamos lançar ferro na baía da nossa esperança, fazer uma aguada breve e tomar provisões para cumprir a rota de circum-navegação à volta de nós. Pelo caminho deixaremos pinheiros mansos, como padrões, a disfarçar o nosso rasto. Nas pinhas escreveremos mensagens de vida que o mar transportará até às praias do futuro.
 
Quando lá arribarmos comeremos dos pinhões mais vingados e, asssim, ganharemos outro alento para melhores descobertas.
 
Augusto Mota, texto 44 de «A Geografia do Prazer», 1999 
 

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


PLENILÚNIO
 
Procuro o tempo entre os espaços claros que a lua cheia deixa marcados no relevo suave das encostas.   As árvores povoam de sombras os atalhos que nos levam às recordações de ontem, quando, no planalto sobranceiro à memória do corpo, cruzámos os gestos e os olhares ao ritmo dos segundos que pareciam esgotar a eternidade. Sobre estes campos enluarados  estamos a reviver o percurso fértil pelas artérias da cidade e refazemos, no retiro da memória, o ardor da caminhada até ao cimo de nós. Majestosa vista essa sobre o cansaço que parecia querer esmagar a respiração, enquanto os olhos, bem abertos, pronunciavam silêncios e mais desejos! Como hoje, o luar invadia as janelas e atravessava as espessas cortinas da noite. A cidade não bulia como de costume. O movimento dos carros, ao longe, chegava-nos como se fossem ondas espraiando-se mansamente pelo areal. E a luz que recortava os gestos e beijava a escuridão reanima-se hoje, aqui, enquanto repetimos, como invocação, as mesmas palavras que ecoaram  pelas ruas mais secretas da cidade.
 
Os segredos das cidades reanimam-se, assim, com as palavras que evoluem por entre os gestos e a escuridão e que, por vezes, até se escondem na infância dos dias.
 
Abrimos o peito ao fulgor desta lua cheia e deixamos que a natureza se entregue ao ritual cíclico de sentir a claridade vaguear pelo tempo que   oculta a memória precisa dos gestos. De todos os gestos. Mesmo daqueles que, subitamente, vêm ao nosso encontro e nos repetem todas as palavras que gostamos de ouvir através das noites límpidas e frias de Inverno. Esses gestos ganham outro sentido quando, no segundo dia do segundo mês de cada ano, anunciam o novo percurso do corpo por entre as passagens estreitas do tempo. Desse tempo que vive do sonho e da realidade e nos faz percorrer sendas perigosas no desfiladeiro das emoções, que este luar ainda mais excita.               
 
Hoje não há concerto para elogiar datas e promessas. Os laranjais junto às fontes são já melodia fresca e festiva. As águas calmas reflectem o sorriso claro da Lua e a noite começa a minguar. Colhemos ainda romãs nos pomares à beira-rio e procuramos, no alvor de um novo dia, orquídeas selvagens que bastem para entrelaçar nos raios do Sol que, de mansinho, vai acordando a madrugada e a vida. 
 
Augusto Mota, texto 43 de «A Geografia do Prazer», 1999                                          
                                                          

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


AS  ORQUÍDEAS  SELVAGENS

 São orquídeas selvagens as flores que desabrocham entre as mãos do entardecer, quando a névoa sobre os montes deixa adivinhar os caminhos secretos que, solitariamente, temos de percorrer através de nós. Ao longe já se acendem as luzes da cidade. Toda a paisagem em volta fica salpicada de amarelo. É a noite que cai. Os sons que chegam do vale, lá em baixo e muito ao longe, vão esmorecendo no meio da escuridão que, cada vez mais, aviva os sentidos todos e nos faz iniciar o percurso em direcção aos segredos da botânica.
 
São orquídeas as flores selvagens que brotam entre os dedos da madrugada, quando o horizonte avermelhado anuncia o acordar de toda a natureza.  Vão-se apagando as luzes dos caminhos que levam à cidade e já chega até nós a azáfama de um novo dia. É a cidade que desperta. As cores dos pomares e das leiras de terra multiplicam-se pela paisagem além, até se confundirem com o verde dos pinhais que desaparecem no horizonte em direcção ao mar.
 
São selvagens as flores das orquídeas que emudecem as palavras que a boca tenta articular, quando o espanto incita os sentidos e o desejo se deixa levar pelos atalhos corajosamente perfumados de tomilhinha e sempre ladeados de alecrim, rosmaninho e madressilva-caprina. Com tantos e tão frescos aromas fizemos um cesto de ervas do monte e a elas juntámos uns ramos de erva-abelha, sargaço e roselha. É o corpo que rejuvenesce. O odor forte da terra dá outro ânimo às palavras apenas segredadas, até se confundirem com os sentimentos que as mãos exprimem em seu lento trajecto de encontro ao tempo que habita a nossa realidade.      
 
 
Augusto Mota, texto 42 de «A Geografia do Prazer», 1999
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


CONCERTO FESTIVO

Anos fazem-se todos os dias que acordamos dentro de uma paisagem de sonho, onde a mais irreal fantasia percorre connosco os atalhos secretos que levam, por entre doces pomares, às fontes de um rio que corre para o norte de todas as sensações. Os laranjais reflectem-se nas águas vagarosas, acabadas de nascer por entre nogueiras  e fetos que escondem os muros de pedra solta. São estas imagens carregadas de cor e sabor que dão vida à memória da vida e, permanentemente, adiam a distância entre nós e aquele outro horizonte que fechará o círculo do tempo à nossa volta.               
 
Festejamos as datas com promessas e música de Vivaldi. Estes sons de flauta de bisel, cordas e cravo são o contraponto ideal ao silêncio dos sonhos e dos pomares que justificam o rio e a corrente. As cores são mais apetecidas e os sabores mais apetecíveis. As águas parecem acelerar o seu curso ao ritmo da partitura, como se o executante, o maestro e o espectador fossem uma e a mesma pessoa. O concerto aproxima-se do fim e da nossa tristeza. Lembramos os tempos em que ouvimos esta mesma melodia, em viagem, a caminho do mar e do sol poente, enquanto recordávamos muitas coisas e não dizíamos nada de nós. Nem sabíamos nada de nós. Ou sabíamos, sem saber que sabíamos. Ou sabíamos e não dizíamos. No entanto fomos a caminho do mar e ouvimos mesmo as ondas a desfazerem-se na noite da praia, como se quisessem  prolongar a melodia que já nos excitara a viagem e as recordações.
 
O sortilégio do mar, à noite, é o ser capaz de prolongar as viagens que já fizemos e todas as que gostaríamos de fazer a caminho de nós. As ondas, que só ouvíamos, excitavam à aventura e o fresco da noite acentuava o cheiro da areia e do sal e fazia apetecer um passeio à beira-mar, apanhando vieiras.
 
Vai longo o dia e temos de fazer o rio regressar às fontes e ao seu curso calmo, entre pomares e laranjais. Repetimos a melodia e despedimo-nos do sonho e da paisagem. Sequiosos de tanto vaguear, por terra e por mar, bebemos água fresca da nascente e colhemos dos melhores frutos para favorecer a viagem de volta à realidade dos dias e das noites.   
 
 
Augusto Mota, texto 41 de «A Geografia do Prazer», 1999
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
              

Legendas íntimas

 


Índice remissivo de «O Artifício da Loucura»

 


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Legendas íntimas

 


O Artifício da Loucura

 

Ah! Abraça-me, mulher! Para ti vou começar a minha loucura atlântica! Para ti renuncio às algas e às metamorfoses. As crisálidas são uma outra posse da noite. Voaremos depois, abstractos, pelo casulo dentro. Voaremos depois pelos próprios fios e pelos átomos da própria seda. As sensações serão novo tecido em nova indústria. Seremos industriais, portanto. Seremos tudo. Seremos noite e dia. Seremos.
 
Em tuas mãos escreverei muita coisa nova. Cidades erguerei e em seus muros botarei castelos e alcáçovas. E vinhas plantarei para ti. Sangue novo e ébrio será o nosso alimento.
 
Mas que crucificação esta que me tortura o sexo! Vinhas e figueiras. Judas Escariote. Folguedos da Primavera. Divertimentos ou crimes. Não. Só amor crescerá nessas colinas e em tuas mãos. Mas acredita nelas. São pequeninas, eu sei, mas tudo tem outra grandeza quando desprezamos o tamanho real das coisas, ou a sua deformação, e conquistamos aqueles outros valores sobre-reais que nos dizem tanta coisa de nossa infância. Ah! cidade amiga, dá-me essas mãos. Quero-as aqui, já! Prefiro este crime do que saber-te desprezar o mais rico alimento de nossa cabeça. Como queres outros olhos para as mãos se, assim tão verde, acreditas no desprezo dos outros?  Encosta   teu  desprezo  à  minha vontade  e tentaremos  uma  nova gramática. Mas não mistures, por favor, a semântica do nosso português com a de línguas estrangeiras. É belo estender a mão e saber que dimensão traduz, verdadeiramente, este gesto na nossa linguagem.
 
 
 
Quantos barcos nos dizem adeus, ou quantos soluços amarramos na própria garganta? Quantos braços voam até nós, ou quantas vontades sacrificamos num olhar? Por vezes tudo é simples e sentimos como que água fresca nos pulsos e banhamos o rosto nas mãos, nas nossas próprias mãos. As outras, aquelas que são ilusão do olhar, ou sortilégio da cabeça, guardamo-las para outras ocasiões, quando o desespero ou nos fere, ou joga connosco às escondidas. Nesse jogo fortuito vamos animando os barcos da nossa regata, ou ancorando-os na esperança, que também é água.  
 
Todos marítimos, somos piratas de um absurdo. As ondas vão e vêm como  os dias e as horas dos dias.
 
Tudo parece igual, demasiadamente igual, se a aventura não der às mãos uma outra realidade. Tudo o que se toca é, então, velame secreto num adeus aos objectos. Os mastros serão nossos dedos em êxito perpétuo. “Desferir” é a palavra de ordem a cada passo e junto de cada objecto-aventura.
 
Em nada poderemos apoiar os pés.  A aventura começa nesse exacto momento em que a voz se embarga e algo não consegue gritar dentro de nós. São os soluços amarrados à própria garganta. São milhares de barcos que partem à aventura dentro de nós. Tudo é, de repente, outra coisa e, ou se naufraga nas plagas longínquas de continentes ainda absurdos, ou começamos a sentir o vómito da posse, o êxito gritante da carne em espasmos. O remate da aventura será o refrescar do rosto na espuma da ressaca. Tudo é, então, violento, mesmo o prémio da aventura na realidade dos próprios gestos.
 
Assim temerosos, o que nos resta? Ou o barco a que nós diremos adeus, ou a travessia a vau de todo o oceano que anima as nossas vontades. A escolha é difícil. O perigo igual. O êxito comum.
 
Se não fosse todo este tempo com que envolvemos as mãos para, depois, as depositar no colo de nossa própria saudade, diria que perdemos, subitamente, a maior segurança de nós próprios.
 
 
 
Ah! Este súbito acordar pela manhã! E a noite quando entra pela garganta parece que, ela própria, produz outros ritmos de arte, ou lágrimas. Ah! Mas verdadeiramente é no longe, na distância que já não nos separa, no horizonte que não avistamos, que existe a delícia destas horas todas que parecem adormecer os membros e os olhos. Não é fartura. Não é enjoo. Não é sermos vítimas da paz ou da guerra que sempre alimentamos em nós. Nem tão pouco a concórdia se resolveu em nefasto juízo, ou se negociou como acção rendosa. Réditos são os prolongados silêncios do entardecer, quando os olhos gostariam de amar tudo para além do que não vêem, mas devoram com os segredos do pensamento e a guarda da imaginação.
 
Mas esta hora é outra e sinto-o neste arfar que não é respiração, mas loucura povoada de gestos nobres de quem vence. Vou, então, sabiamente, entrar em novo reino de vitória, em outra música, em abstracta orquestração destas horas que julgamos de tédio.
 
 
 
As mãos continuam a chamar pela manhã, aquelas acordadas manhãs de outrora. Os jardins ainda estão floridos e cada pétala, ou lágrima, é cuidado novo nesta horta que regamos de ânsias e de justificações. Vamos novamente acordar a loucura, ou o simples manejar daquelas sugestões que tantas vezes fizemos? Mas tem de ser um acordar secreto que nem os  olhos o vejam, nem a boca o sinta. A distância física, e só ela, aproxima as raízes, ou a febre, desta viagem em torno de nós.
 
Parece que, no fundo, nada consegue falar mais do que este silêncio de alma que só vê as palavras, ou receia pronunciá-las para além de cada gesto da mão que escreve. Também poderá existir um pensamento (outro pensamento) na ponta de cada dedo, como se a mão-toda fosse bem outra personalidade que pensa e executa a distância. Esta distância provoca-nos a memória de tudo e ri ou chora connosco, sempre como um novo alento para a habitação que nos vai envolvendo os passos. Os anos são janelas de um edifício único.  As cidades serão vidas sobrepostas, ou o fruto da intimidade de gerações.
 
A história faz-se de sangue e de cidades que se erguem ou se destroem. Portanto nem foi a segurança de nós próprios que perdemos subitamente. Estamos, apenas, a continuar a história da intimidade das nações!
 
 A tarde extingue-se no louvor do tempo que me atravessa e, pensando na noite, deixo a vista naufragar na janela do horizonte. Tomo em mim o barco de toda a pirataria e sulco as ânsias e as tristezas de meus dedos. Fico-me. Cravo em silêncio as unhas na carne das próprias mãos e grito. Grito todo, outra vez, por mim dentro e vejo e revejo a brusca exactidão do que quero e sou. Admiro, acima de tudo,  o que se passa em  mim e à minha volta. Então, perene, sou esperança nesta certeza de existir, nesta tarde de ser homem, nesta confiança de me afirmar.
 
Uns olhos, contudo, admiro neste requisito. Uma cidade construo neste dealbar de estação. Uma mulher adormece em meus braços nesta noite de esperança. Sou livre nos gestos e pago a infância e a tristeza da espera.
 
 
 
Não sei quem sou ou se sou uma invenção de mim. Caminho ou localizo-me sempre de encontro à noite e as pessoas atravessam-se-me nas mãos como se fossem estrelas. Mediana condição esta a de abrir as mãos na própria rua e não encontrar o justo princípio de mim!
 
 
 
É secreta a noite, como se a tarde não bastasse para desejos e silêncio. É no silêncio que nossas vozes se ufanam e todas as cores se transformam. A vitória, se pertence ao gesto, declina o passado e ultrapassa-nos. Por isso sinto as horas todas chamarem por mim, ou por uma oculta e sábia natureza a que parecemos pertencer.
 
Mas hoje entrego-me a este sabor das palavras que nada dizem de mim, como se fosse medo, ou procura apenas, o que me domina. Já me doem os olhos e o sono vem das próprias luzes, das silhuetas dos pinheiros, do comboio  que  atravessa  a  noite  e  parte  para  o  infinito de nós.  Por isso dizemos adeus às pessoas e às bagagens. E também porque nos entregamos a uma força diferente que é um arrastar de corpos pelo espaço da noite e da sala de aula. E é à partida que tudo nos dói. As unhas e os dedos.
 
Ah! Mas hoje já posso gritar:
 
                                                                   ESPERA-ME !
 
O grito ouve-se por mim dentro e volto a gritar. A noite e as horas batem no meu peito e ao longe a catedral ilumina-se como se fosse um castelo. Há névoa e som sobre a cidade e sinto-me partir como se os segredos da noite me empurrassem para a alegria do silêncio.
 
São nove da noite numa sala de aula onde há traços e palavras a riscarem o silêncio dos vidros embaciados. Haja paz em nossos gestos! Amanhã seremos livres. A liberdade, então, inicia-se na noite profunda, quando os traços,  ou  as  palavras, nos dizem inúmeras coisas de nossa infância. Esta liberdade é sempre uma mulher, ou nós mesmos efeminados no isolamento da dor e do sentir.
 
Que circunstância envolve, por isso, o olhar e o riso? Um beijo ou uma flor? Cada seio que apertamos na mão é sempre um mundo onde entramos pelo ritmo do medo, ou pelo desejo de não nos angustiarmos mais. E a chuva sabe tanto desta verdade! Propicia sempre o entardecer com alguém entre os braços, ou pássaros entre os dedos que fogem, fogem e correm atrás de tanta pétala, ou lágrima de nosso passado.
 
Mas a chuva, ai a chuva! E o frio? O frio é lume para o corpo que se aquece no desejo. O sexo encolhe-se com esta temperatura que vem de fora, como se as flores, ou os jardins todos, não tivessem que sofrer a invernia.
 
 
 
A calma e o bote atingem-me a garganta e afogo-me neste dia que se esgota no amor. Uma linha atravessa-se-me nos olhos. Não. Foi uma palavra de ordem: um navio apitou ao longe sobre os trilhos e os passageiros apeiam-se na estação. O chefe grita:
 
                                                                      LEIRIA-GARE !
 
Tudo volta ao princípio como se não houvesse ligação com a cidade. Então, ou se regressa ou se continua a pé. Ah! Mas quando aportam navios à minha cidade? Navios com crianças e laranjas queria eu aqui nesta noite e nesta sala de aula. Tudo como se a vida fosse um fruto ao sabor das ondas, ou do desejo.
 
Afogo-me ou nado contra o horizonte. Mas outra linha se levanta das carteiras e se atravessa nas janelas. É o horizonte da noite. Meço-o com uma régua e grito à turma:
 
                                                                        ARRUMAR !
 
Assim acabam os dias na arrumação das ideias e da memória dos factos. Pobres de nós que esgotamos tanta energia na inteligência das mãos que levamos à  boca,  desesperados  dos  dias  que  vão  acabando  sem a nossa presença. A morte, ao fim e ao cabo, é que nos irá definir. Quando não desejarmos mais nada. Uma pessoa que não deseja está definida, ou morta.
 
 
O! Inglória germinação! Tanta árvore a despontar e o Inverno a correr pelo  sumo  dos  frutos  que  hão-de  amadurecer.  Esta   sede,  ou  nocturna circunstância, é que fere o estômago e nos faz estender os braços para cada papel que cai no chão, como se a vida jamais pudesse existir sem aborrecimento, ou um não encontrar a forma perfeita para os gestos de dar e de receber.
 
 
 


Acaba a semana no exílio da carne. A quem louvar? Às árvores ou à água que nos alimenta e transforma a vigília em febre e leito? As estrelas são, por isso, o reflexo dos olhos e brilham, ou choram, como crianças nuas. É sempre a mesma coisa. Anos após estendo ainda os braços e caio sobre a minha própria fraqueza.
 
Adormeço e a semana extingue-se a meu lado.
 
Vou viajar em navios da noite. Com meninos e laranjas. Parto neste exacto momento em que o papel esgota a possibilidade de rectificar as palavras.
 
 
 
Augusto Mota, texto 13.10 e último de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964
 
 
- Discorrências sobre o nosso próprio limite.
 

Legendas íntimas

 


O Artifício da Loucura

 
Será que ainda caminhas pela areia de nossos passos, ou reduzimos o tempo ao sabor da memória? Será que ainda caminho pele areia de nossos passos, ou reduzimos o tempo ao sabor da memória? Ai esta imaginação que se alimenta tanto do que perdem as mãos!
 
Tenho-me preocupado com a imagem de nós a caminho das dunas, nós delicadamente amigos e um tanto diplomatas! Esta imagem impõe-me qualquer coisa de estranho que ainda não desvendei. Reparaste que o longe que avistámos estava já lá, mas o perto que íamos vivendo conquistava-se àquele imediato futuro cujo sabor, ou posse, às vezes desperdiçamos? Portanto o futuro pode conquistar-se com a vista, mas não se viver com as mãos.
 
 
 
O que fui, o que sou, o que serei a ti cabe em desgraça. Se é o coração que beijas é, antes, a minha vida que sorves, como se novos processos da medicina pudessem resolver-se num acto físico recíproco. Ah! Eterna esta carne que nos cobre os ossos e nos transmite também as doenças! Ah! Diabo de vida onde vivemos e morremos com a sensação de contínuo perdão! Mas perdão para quê? Quero querer  para além de todas as forças e descobrir, descobrir porque se me abafa a cabeça em certos momentos e me sinto assassino, ou desgraçado de sentimentos. Às vezes parece-me    ultrapassar o cume lícito de minhas vibrações e desfaleço tanto que me sinto como a criatura mais repudiada do universo. Começo a sentir a pele inchar sobre o pulsar das ideias e as palavras falam tanto para dentro, tanto para dentro, tão vertiginosamente para dentro que não reajo ao menor (ou maior) estímulo. E isto tudo é por um sentimento de amor. Por um grande sentimento de amor. Daqueles que nunca se encontram, mas para onde se caminha.
 
 
Anda, vamos pela praia. As pegadas que ficam para trás são mesmo nossas. Não iremos sós. Nossos passos justificam a companhia das mãos.
 
 
Assim sendo e quando algo desce sobre mim como maldição, ou santo espírito do mal, recolho-me ao conselho de minha infância e arrasto anos a desvendar o fruto do meu trabalho. Venho depois (venho sempre) mais justo e bom. O sofrimento sempre me alimentou e justificou os olhos. Estes que vês são, apenas, para solenes ocasiões. Escondo outros, para dentro, que ofereço e gasto no fogo e voragem da minha luta. Ou, então, serão todos a mesma coisa (já nem sei), purificados agora pela boca de teus desejos.
 
 
 
Agora como nunca o tempo parece ter parado. Que estupor de vertigem esta a de viver antes do tempo! Ainda se tivesse forças para me entregar a outros devaneios, o tempo seguiria o seu rumo normal. Mas não. Penso, sobretudo, que ainda vamos ter tanto tempo entre as nossas vontades e o chegar de um comboio. Ah! Mas então costumo deitar-me, também, na sensação do imaginar-te e durmo por ela dentro, até ficar acordado para o calor que me sufoca, para a cabeça que me pesa e para as pernas que acusam o tormento de viver de cabeça para baixo. Ah! Quando? Como? Justiça? Olhos? Boca? Interrogações sem nexo? Ou eu apenas desejoso de querer respostas de tua própria boca? Não sei, francamente, se estes dias todos serão de calma ou de doença. De qualquer modo terão de ser vingados. Nós o exigimos para nossa igualdade.
 
 
 
Deixa-me, ao menos, brincar nas ruas de tua cidade, já que nada me é lícito neste frio que tenho. Nesta ausência de palavras que tenho e não queria. Mas, agora, o querer já me exige outras grandes coisas para além das palavras e do silêncio dos meus gestos desperdiçados. Então amar é ter consciência dos gestos que se desperdiçam no silêncio, neste puro silêncio onde os olhos não se reflectem, onde as mãos não se comparam, onde as bocas não murmuram sentimentos para as horas. E tudo, tudo parece ir e vir de mim e para mim, sem qualquer significado, sem outra responsabilidade que não seja a de querer ter consciência desse todo (ou tudo) que me faz tremer e gritar e depois volver-me sobre mim mesmo. Ah! Mas todas estas voltas serão um dia redimidas pelas mãos, pelos olhos, pela boca, por tudo isto perpetuamente redimidas. Assim redenção e amor igualam-se e purificam-se. Assim os gestos e as intenções desses gestos serão nova expressão daquilo que não sabemos que somos.
 
A intenção e o ser ganham no futuro significados absolutos. Condicionar o futuro será, outrossim, hipotecar a intenção. Será, até, limitar o que se anseia com aquilo que se teme. 
 
 
Augusto Mota, texto 13.9 de «O Artifício da Loucura», 1962  a 1964
   

Legendas íntimas

 


O Artifício da Loucura

  
Sabe-me bem pronunciar este chamamento de ti. Pena que o suspiro que me invadiu agora não o possas sentir mais perto para meu inteiro favor. Depois de tudo nem sei quem tem a culpa do vazio que nos separa. E acho que é muito justo não o aceitarmos. Temos tão pouco tempo. Temos tanta coisa para não dizer e escutar com o silêncio vertebrado dos olhos. E como te poderei abraçar muito se estremeço neste silêncio que me interpõe a tua imagem a cada pulsação?
 
Sou alheio de mim, ou outro-eu, neste querer que é sempre vontade para desejo da minha ventura. Nem era precisamente isto que eu queria dizer, mas precisamente isto. Sim, é esta terrível condição de querer o absoluto simples, quando os dedos tocam só o relativo, que nos deixa ficar dominados por tudo o que ainda nos diminui mais e faz de nós criaturas ímpares aos nossos olhos-alheios.
 
O artista é, por dom sublime, mais fraco (em sua fortaleza) do que o homem comum, pois soçobra por não realizar o seu absoluto poético. E depois o mundo fecha-se-lhe todo, como à criança que não alcança a laranja em cima da mesa. E a laranja é, ao fim e ao cabo, uma coisa tão banal! Vende-se às dúzias no mercado. E porque não há-de ser justo não se vender angústia  no  mercado?  E  cansaço  por  via da angústia.  Para quê relativismos? Tudo se passa na cabeça. A cabeça, então, é que não devia pensar certas coisas acerca da relatividade. Assim fica-se com a ideia de que procuramos umas coisas por relatividade de outras. E é. A relatividade da minha paz está em tuas mãos, ou cabeça. Está em ti toda que me pensas e me ajudas. Mas vem logo o circunstanciar do nosso querer e desço em mim súbito, como que precipitado em um abismo. Onde caio? Em teus braços, ou nas ruas de tua cidade. E forçoso é que chore da queda e das dores da queda. Tu, mãe por meu querer, oferece-me descanso em teu colo. Preciso de saber tantas coisas. Preciso de saber tantos gestos, incipientes a princípio, mas cujo conteúdo adivinho útil em minha gramática de paz.
 
Caio em ti por necessidade de abortar tudo o que em mim infecta o nascimento mais verdadeiro. E sou exigente, por mim. Tenho a dor da experiência a dar-me cabo dos movimentos mais subtis e a boca não se move no articular das grandes palavras. Oh! maravilhosa natureza a nossa! Onde paramos neste desabrochar de flores em tempo tão frio?
 
 
 
Este frio entrou-me pelas veias e estalou no fundo das pulsações. Agora cavalga em mim como se impusesse ainda mais a necessidade de nos encontrarmos, depois de tanto errar em angústia, ou veneno. A vida, afinal, é só esta que levamos e o Inverno parece querer desperdiçar este tempo de juventude sem termos as mãos dadas. Urge, portanto, que partamos já de nós até chocarmos na corrida do encontro e ficarmos sem sentidos, pairando a meio do caminho, até que o encontro real de nossas mãos desperte os olhos para o que inunda as nossas faces de ternura, ou amor. Amar é tudo isto, sobretudo este correr pelo ar e pelo mar em busca de outras sensações, este partir dos olhos ou da boca para a lavra do infinito. Às vezes fico-me pequeno no meio deste torvelinho que vejo mesmo com estes meus olhos.
 
Mas já seria grandioso se, como Jeová, olhasse o abismo, estendesse o braço, te agarrasse pelos cabelos e puxasse bem para junto de mim. Depois o ritmar de nossos corpos me haveria de fazer descansar do enorme esforço de ser deus. Ficaríamos lado a lado como dois condenados que o destino atira para a prisão. Ai a nossa doce prisão de sermos livres!
 
 
 
Sou Jeová, agora. Tudo em mim sou eu. Tudo em mim chama por ti. E tu, cidade, pairas no esforço da minha garganta como se fosse lá que eu quisesse ter braços. Quando vou para gritar és tu que sais à frente de todas as palavras. E não grito. O segredo é nosso. Tem que ser nosso. Sim, as portas têm que estar abertas. E que os outros sofram na carne tudo o que nos arrastou pelo rio de sangue que agora nos inunda os membros. Ai doce sangue este em que amar e morrer parecem rimar. É que quando se ama justifica-se a própria morte. Intensifica-se a dor no gesto da dádiva, ou na carícia do pedido.
 
 
 
Ainda estamos vivos? Ou será que nunca estivemos vivos? Não sei. Mas é tudo tão estranho. E uma gare antes da chegada de um comboio (pelo menos quando se separam as mãos) tem sempre um vento triste que ilumina as coisas de outra maneira. Porquê? Estranho sentimento este que comunicamos às coisas! Estranhos os teus olhos, ou as tuas ruas, que não me queriam olhar com medo da partida! E eu onde parava? Afoguei-me demais naquilo que os meus olhos subitamente descobriram. Que descobriram eles? Voltaram a descobrir que és minha irmã, ou irmã de minha cidade-toda!  Maravilhosa e reduzida família a nossa que vive e morre numa chegada e numa partida!
 
Sim, estamos vivos. Mas o que custa é ter consciência da loucura e saber dominar a loucura até ao limite do possível. Quando não é possível (às vezes escapa-se-nos pelas mãos!) morre-se mesmo em glória. E tudo isto é difícil e estranho, dando-nos uma sensação de infelicidade que receia, ou despreza, outra dimensão do conceito de viagem.   
 
Augusto Mota, texto 13.8 de «O Artifício da Loucura», 1962 a 1964

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