quarta-feira, 26 de junho de 2013

A Geografia do Prazer



A  CURVA  DOS  DIAS


Enquanto o sol aquecia o vento que agitava as heras do muro velho revimos os enxertos do ano passado e aliviámos-lhes as cicatrizes das feridas forçadas. A operação de enxertia apanhou a Lua de feição e a cura, agora, está em franco progresso. Em breve teremos frutos robustecidos pelo cruzamento celular de ambos os sexos e, então, à sombra de uma frondosa pérgola de kiwis hermafroditas, haveremos de beber do melhor vinho e comer do melhor presunto com um bom naco de pão alentejano. Depois dormiremos uma sesta reparadora e sonharemos com os sonhos antigos desfeitos pelo presente. E sonharemos com o presente que ainda não foi desfeito pelos pesadelos do passado.

O pão, o vinho e os frutos do estio alimentarão as enxertias da nossa memória de ontem com as desilusões de hoje e, assim, redimiremos as mãos que tanto trabalharam as ideias que nos enchiam a cabeça e as conversas silenciosas à mesa do café, ou pelas vielas solitárias da noite. Os traços e as cores que incendiavam os papéis diziam mais do que as palavras que nunca dissemos. E os jornais que multiplicavam a arquitectura das nossas cidades sitiadas eram o lenitivo para o arrastar húmido e cinzento dos dias. Por isso inventámos metáforas de cidades e de mulheres.  Por isso povoámos as praças de anseios e as torres da barbacã de atentos vigilantes do nosso absurdo. E sobre essas cidades do passado fizemos pairar poetas e pombas, que levavam longe as mensagens secretas da vitória.

Hoje a vitória é outra, mas vive ainda presa às ideias que germinam nas mãos que enxertam as palavras com novos significados. Ou que enxertam nas árvores os frutos da nossa experiência para, um dia, saborearmos tudo   - os novos significados e os novos frutos - à mesa do tempo, debaixo de uma pérgola permanentemente em flor, enquanto o sol aquece o vento e agita as heras do muro velho do pátio da nossa vida.

A vida, como a casa, resume-se, afinal, a um pátio onde aquecemos os pés ao sol das recordações, abrigados do vento e a imaginar, com saudade, a sombra das árvores a ultrapassar o círculo que os nossos gestos foram traçando no chão, até fecharem a curva dos dias que ainda nos pertencem.    


Augusto Mota, texto 50 de «A Geografia do Prazer», 1999  

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Textos transversais



A Geografia do Prazer



 O  ARTIFÍCIO  DO  JARDINEIRO
 
A surpresa dos encontros ocasionais sob a ramagem da magnólia faz abrir mais suavemente o tom púrpura das suas flores, como se as mãos estivessem a acariciar as cores aveludadas de cada pétala à luz fria de um fim de tarde de Inverno. Mas é esta luz rasante que dá um relevo inesperado às copas das árvores, esculpindo um rendilhado de sensações que se escapam por entre os dedos e as flores, enquanto os olhos percorrem todo o jardim e os montes em volta. Sobre o relvado, debruado a escalónia recém-aparada, estende-se um tapete circular  de pétalas rosadas que as flores envelhecidas da magnólia foram deixando cair ao longo da semana. Sobre ele passeamos as emoções que atormentam as vigílias forçadas e recordamos as sestas primaveris debaixo desta árvore jovem, ou a mera contemplação do céu azul por entre um emaranhado de ramos, de folhas e de algumas flores.

Agora a luz já é diferente e  realça o corte que o artifício do jardineiro deu a todas as sebes. Sabe bem pousar as mãos na verdura macia e fazer subir até nós o odor forte dos arbustos acabados de cortar. Saboreamos, por isso, a delicadeza dos volumes que mãos hábeis desenharam neste espaço verde da esperança e aguardamos que a noite seja propícia a festejar as recordações do dia com um licor de ervas aromáticas.

O perfume destas ervas é uma outra maneira de esculpir sensações no terreno agreste dos sonhos sem memória. Por esta razão cultivamos mil aromas nos canteiros do nosso jardim e com eles surpreendemos os acasos felizes a qualquer hora do dia, mesmo que a magnólia já não incendeie o ar e ofereça, apenas, a sombra da sua folhagem para a sesta dos nossos olhos.

Depois de refeitos com tal descanso saberemos caminhar, mais felizes, pelos atalhos perfumados deste nosso jardim interior. 

Augusto Mota, texto 49 de «A Geografia do Prazer», 1999

Testos transversais



A Geografia do Prazer



UM  ALFOBRE  DE  ESTRELAS
  
O corpo está exausto  e as mãos não reconhecem as cores do arco-íris, nem o sabor do orvalho da madrugada. Por isso deslizam suavemente pelas recordações amenas da tarde e procuram enganar os olhos com gestos e palavras sem significado. É como se estivéssemos perdidos num deserto sem oásis no horizonte. Ou como se o oásis prometedor já não oferecesse tâmaras para alimentar a boca e água fresca para sagrar a caminhada pelas areias escaldantes das dunas. As caravanas já passam muito ao longe e nem o perfume das flores do deserto atrai os mercadores de sensações.

Agora só chega até nós o silêncio da noite e o brilho das estrelas que recolhemos, felizes, em nossas mãos e que iremos semear, em cama quente, como alfobre para a próxima Primavera. Esperaremos a melhor Lua para que a sementeira seja pródiga e milhentas constelações nasçam e incendeiem as noites futuras. E que no deslumbramento do universo saibamos adivinhar qual a nova Estrela Polar que ditará o nosso rumo. Daremos às mãos as coordenadas certas para que a aventura ultrapasse os territórios inóspitos onde soçobram os olhos e as vontades. E, definindo a latitude correcta, esperamos chegar ao arco-íris e lançar as pontes de uma nova aliança que saiba refrescar os lábios da madrugada com o orvalho da noite anterior.

As recordações da tarde, aliviadas agora do cansaço do corpo por uma voz que chegou de longe, de um lugar perdido algures no perfume do deserto, serão como frutos exóticos  colhidos junto aos olhos-d’água que alimentam as tamareiras e a frescura do oásis.   


Augusto Mota, texto 48 de «A Geografia do Prazer», 1999

- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.         

Textos transversais



segunda-feira, 17 de junho de 2013

A Geografia do Prazer

 
A  ILHA  DAS  PRAIAS  VERDES

Pelo fim da tarde, antes de as nuvens trazerem uma chuva miudinha do lado do mar, avistámos, da costa alcantilada, a ilha onde moravam as nossas intenções. Aí queríamos descansar as mãos e os olhos à sombra de um pessegueiro e comer de seus  frutos amadurecidos pela aragem que agitava as nossas emoções. Evocámos, entretanto, os longos trajectos do dia e as flores douradas das acácias que iam bordando as bermas da estrada e nos guiaram a atenção para um trajecto novo e mais difícil. 
 
O percurso da manhã fora longo, pois cedo iniciáramos uma viagem fértil em melodias e palavras que ecoaram no silêncio da campina alentejana para, mais tarde, voltarem de novo às grandes rectas e às curvas perigosas que a estrada ia desenrolando à nossa frente. Tivemos, por isso, de redobrar a atenção ao desejo de chegar mais longe e mais depressa.
 
Tudo nas palavras ditas parecia ter outro sentido, agora desenhado vertiginosamente na lonjura das grandes extensões da paisagem, ou nos cumes enevoados da serra que nos separava do mar. Fomos sentindo em nossas mãos o esforço de guiar em terreno  tão acidentado e, por isso, saudámos a sombra da árvore e seus frutos, como prenúncio de um regresso feliz. Dissemos ainda promessas de outras viagens ao centro da ilha para, no cimo da sua fortaleza, hastearmos uma bandeira que adejasse perpetuamente aos ventos da vitória e servisse de referência à navegação costeira que iríamos empreender.
 
Largámos ferro já as nuvens vindas de noroeste apressavam o pôr do sol e traziam uma chuva fria e miúda que refrescou tudo à nossa volta e fez crescer por toda a ilha um manto de verdura salpicado de boninas, como se a neve se tivesse enganado na estação do ano. Navegámos à vista da costa e cedo aportámos a nossa esperança  nas praias verdes da ilha. Por lá andámos em busca de fruta nova que refrescasse o sabor da viagem, mas só vimos o mesmo pessegueiro e os mesmos  frutos que sonháramos para dar  sombra às mãos e descanso  aos olhos. Por lá ficámos até a ilusão acordar com a chuva a bater forte nas vidraças da imaginação. Espreitámos por entre as cortinas e a realidade estava mesmo do lado de fora, à espera do nosso regresso através de fortes bátegas e das luzes da noite.
 
A ilha ficou para trás, muito lá para trás. Na realidade e no nosso roteiro interior. Atravessamos agora quilómetros de ponte e o castelo espera-nos envolto em espesso nevoeiro, como se a cidade quisesse prolongar o mistério das  viagens feitas à vista da costa.
 
Augusto Mota, texto 47 de «A Geografia do Prazer», 1999 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


OS  TERNOS  VOOS  DA  MADRUGADA
 
Deitado sobre as palavras pinto, de preto, as letras que dão outro significado ao dia de hoje. Não é de luto, mas de sagração o sentido novo que nos transporta para lá do dizível, para o território íntimo do silêncio, onde os olhos não vêem e onde o tacto é a única sensação que nos guia no caminho de regresso. Como expiação percorremos os trilhos que contornam o rio e as fontes, para ser mais penosa a penitência e justa a absolvição. Andámos pelo ar e pelo mar. Andámos pela terra e pela serra. De um morro alto, dominando a enseada de S.Martinho e o porto, vimos grandes pássaros de cores garridas evoluindo sobre o nosso desejo de subir mais alto e, como eles, rodopiar ao sabor da força das correntes de ar. Das suas asas, bem abertas, pendiam cordas e homens que os forçavam a voos cada vez mais rasantes ao mar das nossas sensações. As cores vivas das diferentes plumagens brilhavam ao sol da tarde. Uns eram amarelos, outros vermelhos, outros de um verde que acentuava o cinzento azulado das arribas salpicadas pela espuma das ondas. A natureza completava o voo circundante das cores com gaivotas planando, também, ao ritmo do vento forte de noroeste, como se estivessem a desafiar os homens-pássaro a subir para além do infinito.
 
No infinito permaneceram as mãos, quentes e suadas do esforço do voo e da viagem. Voámos sobre a concha e um mar esverdeado de fim de tarde. Arrastámos as mãos até ao Sol e, antes que ele se escondesse para lá do horizonte, aconchegámos ao peito o sabor marítimo dos últimos raios. E com   eles   desenhámos,  a  verde,  no   chão  das   palavras,  as   promessas inespoeradas que ouvimos vir de longe. E sentimos, em nossas mãos, os cabelos do vento apontando o sul. Para aí voámos, em círculos apertados, em busca de poiso seguro. Tremeu a terra e o mar agigantou-se. E foi num mar agitado que descemos o olhar e o cansaço de tão urgente peregrinação. Aí repousámos a cabeça dorida do vento e das ondas que vinham até nós. Nas algas refrescámos as mãos, feridas do sol e do sul, e com elas vestimos o corpo da nossa esperança.
 
Viemos, de regresso, pelos súbitos atalhos da memória. Tudo se confunde no mesmo lugar, sobranceiro à baía, com vista para as sensações do corpo  e da cidade. Repete-se o espaço. E o tempo confunde-nos com aquele olhar que descobre os exactos caminhos do nosso progresso. E a ele, ao tempo, entregamos os gestos todos que hão-de anunciar os ternos voos da madrugada.
 
Chegámos antes de partir. Virámos ao contrário o mapa das sensações, mas não errámos o própósito da viagem. Amanhã continuaremos deitados sobre as  palavras a pintar, de preto, as letras que darão um melhor significado ao dia de hoje.
 
 Augusto Mota, texto 46 de «A Geografia do Prazer», 1999      

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


O  CICLO  DAS  SEMENTEIRAS

Junto do fogo moldámos as mãos ao sabor dos frutos que rescendiam à luz trémula das labaredas. Ateámos ainda mais o fogo e logo todo o pomar vibrou com o crepitar da lenha de pinho, que lançou mil chispas em todas as direcções, como se fosse artifício de festa. Era, antes, a natureza a festejar o seu ciclo das sementeiras de Inverno. E, também, da floração dos ramos  das amendoeiras. Em flor parece estar já tudo o que a fogueira incendeia e se reflecte nos olhos avermelhados pelo calor das brasas. E, nos gestos que cortam o silêncio, adivinhamos o abrir rosado das flores da magnólia que, como dedos sequiosos, afagam o orvalho que a noite vai fazendo cair em nossas mãos.
 
A frescura da noite avança sobre as horas que temos de cumprir. A fogueira vai-se extinguindo e as brasas mortiças já não conseguem enxugar as mãos e o orvalho.
 
Os botões da magnólia vão continuar a abrir durante toda a noite e, amanhã, os dedos  percorrerão, pétala a pétala, todas as flores em busca do fogo e dos frutos que moldaram as nossas mãos. E quando, na árvore nua de folhas, estiverem abertas todas as flores, será como que a natureza a festejar o seu artifício e a inaugurar o ciclo das sementeiras da Primavera. 
 
Augusto Mota, texto 45 de «A Geografia do Prazer», 1999
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer

  
 A  BARCA  DAS  ILUSÕES
 
No mar das ilusões balança, à deriva, uma barca carregada de palavras e pinheiros mansos. O sol quente da tarde brilha sobre as copas verdes e as pinhas, como se quisesse amadurecê-las à pressa e lançar seus frutos às vagas do tempo. Ou à infância, entre os trabalhos e a paciência dos dias passados a apanhá-las, a aquecê-las, a debouçá-las, a britar os pinhões aos serões de Inverno, a torrar os pinhões no forno, aproveitando o resto do calor depois de ter cozido a broa, a fazer enfiadas de pinhões para pôr ao pescoço e ir comendo e andando. E ir andando e comendo. E ir comendo, por vezes, a própria linha da enfiada. E assim enfiámos pelas vagas do tempo onde, à deriva, balouça uma barca carregada de sol, pinheiros e palavras que, pacientemente, britamos neste serão de Inverno. As palavras, por vezes, são pequenas demais e britamos os dedos à procura do sentido próprio para a nossa enfiada de sensações que pomos ao pescoço em dia de festa. Mas festa só nossa. Íntima.
 
As sensações que mais prezamos não se vendem no alarido dos arraiais, antes se descobrem e se usam no festim que o silêncio traz até nós e que saboreamos com a delicadeza com que se comem, um a um, todos os pinhões de uma enfiada. Nesse paladar raro do pinhão bem torrado, mas ainda a lembrar a seiva que o alimentou, se justifica o sabor do silêncio e a festa que engrinalda os sentimentos. De tais sentimentos evolam-se os perfumes frescos que imaginamos terem debruado os cabelos de uma deusa romana e que hoje iremos servir à sombra dos pinheiros mansos, enquanto a barca, carregada de palavras, equilibra a sua carga no mar encapelado dos sentidos vários que atribuímos às coisas.
 
A viagem vai longa e, ao anoitecer, esperamos lançar ferro na baía da nossa esperança, fazer uma aguada breve e tomar provisões para cumprir a rota de circum-navegação à volta de nós. Pelo caminho deixaremos pinheiros mansos, como padrões, a disfarçar o nosso rasto. Nas pinhas escreveremos mensagens de vida que o mar transportará até às praias do futuro.
 
Quando lá arribarmos comeremos dos pinhões mais vingados e, asssim, ganharemos outro alento para melhores descobertas.
 
Augusto Mota, texto 44 de «A Geografia do Prazer», 1999 
 

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


PLENILÚNIO
 
Procuro o tempo entre os espaços claros que a lua cheia deixa marcados no relevo suave das encostas.   As árvores povoam de sombras os atalhos que nos levam às recordações de ontem, quando, no planalto sobranceiro à memória do corpo, cruzámos os gestos e os olhares ao ritmo dos segundos que pareciam esgotar a eternidade. Sobre estes campos enluarados  estamos a reviver o percurso fértil pelas artérias da cidade e refazemos, no retiro da memória, o ardor da caminhada até ao cimo de nós. Majestosa vista essa sobre o cansaço que parecia querer esmagar a respiração, enquanto os olhos, bem abertos, pronunciavam silêncios e mais desejos! Como hoje, o luar invadia as janelas e atravessava as espessas cortinas da noite. A cidade não bulia como de costume. O movimento dos carros, ao longe, chegava-nos como se fossem ondas espraiando-se mansamente pelo areal. E a luz que recortava os gestos e beijava a escuridão reanima-se hoje, aqui, enquanto repetimos, como invocação, as mesmas palavras que ecoaram  pelas ruas mais secretas da cidade.
 
Os segredos das cidades reanimam-se, assim, com as palavras que evoluem por entre os gestos e a escuridão e que, por vezes, até se escondem na infância dos dias.
 
Abrimos o peito ao fulgor desta lua cheia e deixamos que a natureza se entregue ao ritual cíclico de sentir a claridade vaguear pelo tempo que   oculta a memória precisa dos gestos. De todos os gestos. Mesmo daqueles que, subitamente, vêm ao nosso encontro e nos repetem todas as palavras que gostamos de ouvir através das noites límpidas e frias de Inverno. Esses gestos ganham outro sentido quando, no segundo dia do segundo mês de cada ano, anunciam o novo percurso do corpo por entre as passagens estreitas do tempo. Desse tempo que vive do sonho e da realidade e nos faz percorrer sendas perigosas no desfiladeiro das emoções, que este luar ainda mais excita.               
 
Hoje não há concerto para elogiar datas e promessas. Os laranjais junto às fontes são já melodia fresca e festiva. As águas calmas reflectem o sorriso claro da Lua e a noite começa a minguar. Colhemos ainda romãs nos pomares à beira-rio e procuramos, no alvor de um novo dia, orquídeas selvagens que bastem para entrelaçar nos raios do Sol que, de mansinho, vai acordando a madrugada e a vida. 
 
Augusto Mota, texto 43 de «A Geografia do Prazer», 1999                                          
                                                          

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


AS  ORQUÍDEAS  SELVAGENS

 São orquídeas selvagens as flores que desabrocham entre as mãos do entardecer, quando a névoa sobre os montes deixa adivinhar os caminhos secretos que, solitariamente, temos de percorrer através de nós. Ao longe já se acendem as luzes da cidade. Toda a paisagem em volta fica salpicada de amarelo. É a noite que cai. Os sons que chegam do vale, lá em baixo e muito ao longe, vão esmorecendo no meio da escuridão que, cada vez mais, aviva os sentidos todos e nos faz iniciar o percurso em direcção aos segredos da botânica.
 
São orquídeas as flores selvagens que brotam entre os dedos da madrugada, quando o horizonte avermelhado anuncia o acordar de toda a natureza.  Vão-se apagando as luzes dos caminhos que levam à cidade e já chega até nós a azáfama de um novo dia. É a cidade que desperta. As cores dos pomares e das leiras de terra multiplicam-se pela paisagem além, até se confundirem com o verde dos pinhais que desaparecem no horizonte em direcção ao mar.
 
São selvagens as flores das orquídeas que emudecem as palavras que a boca tenta articular, quando o espanto incita os sentidos e o desejo se deixa levar pelos atalhos corajosamente perfumados de tomilhinha e sempre ladeados de alecrim, rosmaninho e madressilva-caprina. Com tantos e tão frescos aromas fizemos um cesto de ervas do monte e a elas juntámos uns ramos de erva-abelha, sargaço e roselha. É o corpo que rejuvenesce. O odor forte da terra dá outro ânimo às palavras apenas segredadas, até se confundirem com os sentimentos que as mãos exprimem em seu lento trajecto de encontro ao tempo que habita a nossa realidade.      
 
 
Augusto Mota, texto 42 de «A Geografia do Prazer», 1999
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Textos transversais

 


A Geografia do Prazer


CONCERTO FESTIVO

Anos fazem-se todos os dias que acordamos dentro de uma paisagem de sonho, onde a mais irreal fantasia percorre connosco os atalhos secretos que levam, por entre doces pomares, às fontes de um rio que corre para o norte de todas as sensações. Os laranjais reflectem-se nas águas vagarosas, acabadas de nascer por entre nogueiras  e fetos que escondem os muros de pedra solta. São estas imagens carregadas de cor e sabor que dão vida à memória da vida e, permanentemente, adiam a distância entre nós e aquele outro horizonte que fechará o círculo do tempo à nossa volta.               
 
Festejamos as datas com promessas e música de Vivaldi. Estes sons de flauta de bisel, cordas e cravo são o contraponto ideal ao silêncio dos sonhos e dos pomares que justificam o rio e a corrente. As cores são mais apetecidas e os sabores mais apetecíveis. As águas parecem acelerar o seu curso ao ritmo da partitura, como se o executante, o maestro e o espectador fossem uma e a mesma pessoa. O concerto aproxima-se do fim e da nossa tristeza. Lembramos os tempos em que ouvimos esta mesma melodia, em viagem, a caminho do mar e do sol poente, enquanto recordávamos muitas coisas e não dizíamos nada de nós. Nem sabíamos nada de nós. Ou sabíamos, sem saber que sabíamos. Ou sabíamos e não dizíamos. No entanto fomos a caminho do mar e ouvimos mesmo as ondas a desfazerem-se na noite da praia, como se quisessem  prolongar a melodia que já nos excitara a viagem e as recordações.
 
O sortilégio do mar, à noite, é o ser capaz de prolongar as viagens que já fizemos e todas as que gostaríamos de fazer a caminho de nós. As ondas, que só ouvíamos, excitavam à aventura e o fresco da noite acentuava o cheiro da areia e do sal e fazia apetecer um passeio à beira-mar, apanhando vieiras.
 
Vai longo o dia e temos de fazer o rio regressar às fontes e ao seu curso calmo, entre pomares e laranjais. Repetimos a melodia e despedimo-nos do sonho e da paisagem. Sequiosos de tanto vaguear, por terra e por mar, bebemos água fresca da nascente e colhemos dos melhores frutos para favorecer a viagem de volta à realidade dos dias e das noites.   
 
 
Augusto Mota, texto 41 de «A Geografia do Prazer», 1999
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
              

Legendas íntimas

 


Índice remissivo de «O Artifício da Loucura»