terça-feira, 2 de julho de 2013
A Geografia do Prazer
SEMEAR A LANÇO
Valeu a pena tanto labor e tanta espera,
sem desesperar. Foi mesmo ao anoitecer, quando as árvores e as recordações se
confundem, que descemos ao jardim, mas já só vimos vultos. Aspirámos, porém, o
aroma quente das flores da Magnolia soulangeana nigra e colhemos ainda
dois botões que em nossas mãos abriram o segredo de suas pétalas negras e uma
fragrância nova envolveu a noite e o cansaço da espera. Para alívio de tanto
mal esfregámos, uma a uma, todas as pétalas no rosto e nos olhos doridos, como
se tão caseira mezinha fosse a cura há muito ansiada. Tão bela recordação, pelo
menos, irá aliviar o sono e, hoje, já poderemos fechar as mãos e dormir
descansados sobre o segredo do perfume que envolveu todos os gestos.
Do perfume da esperança que um dia
semeámos num canteiro do jardim, debaixo da magnólia, esperamos, pelo menos, a
coragem para atravessar a aridez das
paisagens que ainda povoam as
rotas da noite e a madrugada de alguns dias.
Depois de amanhã repetiremos os gestos
largos e seguros de quem semeia de lanço sobre a terra lavrada de fresco e das
sementes, assim lançadas a esmo, hão-de
germinar novas intenções e frutos saborosos que colheremos na estação
própria. Talvez lá para o fim do Estio.
Augusto Mota, texto 55 de «A Geografia do Prazer», 1999
A Geografia do Prazer
AS PRIMÍCIAS DA PRIMAVERA
Sente-se já a Primavera no coaxar das rãs
pelas valas do paul e no canto nocturno dos rouxinóis pelos canaviais fora. Na
hora do calor as borboletas fazem irrequietos voos de núpcias entre as árvores
e as flores gritam, pelos campos fora, as cores que matizam a paisagem, como se
estivessem a juntar tecidos variados para armar uma grandiosa manta de
retalhos. É o artesanato da natureza a festejar a chegada da terra quente e do
germinar das sementes nas terras lavradas de muitos tons de castanho e a
cheirar ao húmus que enriquece as leivas e as leiras.
Sente-se já uma outra Primavera que reflecte saudades pelas muitas viagens sonhadas, ou empreendidas pelos caminhos do olhar, ou pelas ruas estreitas que as mãos foram desenhando através da solidão e do sol nascente. Agora tudo fica mais difícil, mesmo viajar por entre as letras de cada palavra. As mãos estão doridas e os passos já não alcançam as distâncias que os olhos admiram. Tudo pesa mais, mesmo o viajar por entre o significado de cada palavra. Parece que o universo se reduziu ao momento real que nos ocupa e preocupa. Por isso a saudade de tanta viagem que fizemos, felizes, em manhãs de Outono, por entre a música da vazante e o esvoaçar calmo das gaivotas. Era uma verdadeira Primavera o que os olhos sentiam. E as mãos, férteis, colhiam as primeiras flores que o acaso fazia desabrochar à beira dos caminhos e das pontes que a memória ia lançando para o futuro, ou para a Primavera dos dias que iam avançando para nós.
Pressente-se ainda um calor estranho na palma das mãos e os dedos caminham lentos pelas teclas que fazem aparecer as palavras na paisagem das sensações. A custo arrastamos o corpo pelos abismos secretos do passado e aceitamos a redenção que a memória traz até nós para, com ela, viver o presente que vive de ânsia e de espera.
Sente-se e pressente-se a espera nas primaveras que, ao anoitecer, se fecham para dormir sobre o seu próprio perfume, como que para guardar os segredos que a memória da noite poderia deixar escapar. De igual modo fechamos as mãos, ao anoitecer, para dormir sobre as recordações felizes de todas as Primaveras que cultivámos no jardim da esperança.
Sente-se já uma outra Primavera que reflecte saudades pelas muitas viagens sonhadas, ou empreendidas pelos caminhos do olhar, ou pelas ruas estreitas que as mãos foram desenhando através da solidão e do sol nascente. Agora tudo fica mais difícil, mesmo viajar por entre as letras de cada palavra. As mãos estão doridas e os passos já não alcançam as distâncias que os olhos admiram. Tudo pesa mais, mesmo o viajar por entre o significado de cada palavra. Parece que o universo se reduziu ao momento real que nos ocupa e preocupa. Por isso a saudade de tanta viagem que fizemos, felizes, em manhãs de Outono, por entre a música da vazante e o esvoaçar calmo das gaivotas. Era uma verdadeira Primavera o que os olhos sentiam. E as mãos, férteis, colhiam as primeiras flores que o acaso fazia desabrochar à beira dos caminhos e das pontes que a memória ia lançando para o futuro, ou para a Primavera dos dias que iam avançando para nós.
Pressente-se ainda um calor estranho na palma das mãos e os dedos caminham lentos pelas teclas que fazem aparecer as palavras na paisagem das sensações. A custo arrastamos o corpo pelos abismos secretos do passado e aceitamos a redenção que a memória traz até nós para, com ela, viver o presente que vive de ânsia e de espera.
Sente-se e pressente-se a espera nas primaveras que, ao anoitecer, se fecham para dormir sobre o seu próprio perfume, como que para guardar os segredos que a memória da noite poderia deixar escapar. De igual modo fechamos as mãos, ao anoitecer, para dormir sobre as recordações felizes de todas as Primaveras que cultivámos no jardim da esperança.
Augusto Mota, texto 54 de «A Geografia do Prazer», 1999
segunda-feira, 1 de julho de 2013
A Geografia do Prazer
ACASO
No tear do tempo as palavras são cores
que tecem os pontos do acaso
na tapeçaria da memória.
Augusto Mota, texto 53 de «A Geografia do Prazer», 1999
sexta-feira, 28 de junho de 2013
A Geografia do Prazer
A HARPA CELTA
Despir os sentimentos é aquecer o corpo junto ao fogo que se vê arder no lar das emoções. É, ainda, repousar os olhos nas estrelas que iluminam os caminhos do universo e desenham a trajectória dos gestos. É, também, ver como as palavras ficam a meio caminho dos desejos e o silêncio incendeia a música que as mãos dedilham nas cordas de uma harpa celta, de onde os sons brotam como água fresca de uma nascente entre seixos lisos e arredondados. É, sobretudo, acariciar o corpo e os sentidos à luz ténue das achas que ardem na fogueira da noite.
Despir os sentimentos é aquecer o corpo junto ao fogo que se vê arder no lar das emoções. É, ainda, repousar os olhos nas estrelas que iluminam os caminhos do universo e desenham a trajectória dos gestos. É, também, ver como as palavras ficam a meio caminho dos desejos e o silêncio incendeia a música que as mãos dedilham nas cordas de uma harpa celta, de onde os sons brotam como água fresca de uma nascente entre seixos lisos e arredondados. É, sobretudo, acariciar o corpo e os sentidos à luz ténue das achas que ardem na fogueira da noite.
As mãos! Sempre as mãos viveram à frente das palavras
e hoje regressaram ao futuro, ao encontro das lendas mágicas que animam os
tesouros escondidos da infância e dos dias passados entre o corpo e a memória.
Ou entre o corpo da memória. Ou entre a memória do corpo. Dessa memória que
vemos alimentar o desejo das mãos, ou o rosto dos dias, e que se atravessa
entre nós e a noite, assim adiando o sono e os percursos do corpo.
Percorremos o corpo desenhando, com os apuros da
técnica, os traços de uma tapeçaria que há-de expor-se no museu dos
sentimentos, que hoje despimos à luz da fogueira. Por isso derramámos cores
várias e quentes pelos espaços brancos e livres, compondo uma sinfonia de
formas e tons que a melodia da harpa harmonizava ainda mais. E os gestos saíam
precisos e preciosos. E a obra ia ganhando a dimensão do nosso desejo, até sair
dos limites apertados do tear electrónico onde os fios da teia e da urdidura se
foram transformando nas distantes constelações que habitam lá para os lados da
Estrela Polar. Ainda programámos a máquina com novas latitudes e longitudes,
mas já não conseguimos reaver as linhas mestras da obra que fomos compondo ao
longo da noite. Apenas vivem em nós as cores e os sons que animarão o museu de
todos os sentimentos.
Todas as noites de céu estrelado havemos
de olhar o infinito em busca das
constelações que hoje desenhámos no universo das emoções.
Augusto Mota, texto 52 de «A Geografia do Prazer», 1999
A Geografia do Prazer
MARINHEIROS DO SILÊNCIO
Sozinho, no porão dos livros, revejo a
eternidade içada como bandeira, por longos segundos, no mastro mais alto da
embarcação em que navego os mares e os dias à procura da ilha onde, uma vez,
também já aportei em tempo de lua nova. Este luar frio e seco de Inverno
ilumina tudo por onde passa e aquece, até, os caminhos do corpo que
serpenteiam, como as sensações, em torno dos cumes do prazer que a noite e o
silêncio secretamente sublimam. Marinheiros do silêncio somos todos quantos
buscamos a realidade nas paisagens do sonho, vivendo os dias que nos
ultrapassam a disfarçar as rotas da aventura.
Sozinho, evoco o sabor da viagem e de como
do cesto da gávea avistei, por entre a bruma do anoitecer, uma ilha perdida no
horizonte. Mudámos, por isso, de rota e, aproveitando o vento de feição, para
lá navegámos a todo o pano. Gritámos alto o achamento inesperado, pois a viagem
adivinhava-se mais longa e mais cheia de privações. A ilha, como um corpo adormecido, estendia-se
ao luar que, suavemente, ia desenhando os contornos da noite por entre montes e
vales. Mais perto avistámos os caminhos imprevistos que rodeavam os segredos da
noite. Tudo ficou bem nítido quando sentimos o prazer da terra firme e fizemos
escorrer por entre os dedos a areia fina da praia, como se as mãos fossem um
relógio que medisse os longos segundos da eternidade.
Sozinho, percorro, de memória, as pegadas
deixadas à beira-mar, longe da rebentação dos dias, e escondo debaixo da árvore
mais perfumada da noite o tesouro e o mapa da aventura. Assim ficará a salvo
dos piratas das recordações íntimas e dos temporais que varrem estes mares
interiores.
Um dia, sozinhos, acharemos a árvore que
alimenta e perfuma a arca onde guardámos
os longos segundos da eternidade e, com o mapa da aventura em nossas mãos,
vigiaremos o despertar subtil da madrugada.
Augusto Mota, texto 51 de «A Geografia do Prazer», 1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
quarta-feira, 26 de junho de 2013
A Geografia do Prazer
A CURVA DOS DIAS
Enquanto o sol aquecia o vento que agitava
as heras do muro velho revimos os enxertos do ano passado e aliviámos-lhes as
cicatrizes das feridas forçadas. A operação de enxertia apanhou a Lua de feição
e a cura, agora, está em franco progresso. Em breve teremos frutos robustecidos
pelo cruzamento celular de ambos os sexos e, então, à sombra de uma frondosa
pérgola de kiwis hermafroditas, haveremos de beber do melhor vinho e comer do
melhor presunto com um bom naco de pão alentejano. Depois dormiremos uma sesta
reparadora e sonharemos com os sonhos antigos desfeitos pelo presente. E
sonharemos com o presente que ainda não foi desfeito pelos pesadelos do
passado.
O pão, o vinho e os frutos do estio
alimentarão as enxertias da nossa memória de ontem com as desilusões de hoje e,
assim, redimiremos as mãos que tanto trabalharam as ideias que nos enchiam a
cabeça e as conversas silenciosas à mesa do café, ou pelas vielas solitárias da
noite. Os traços e as cores que incendiavam os papéis diziam mais do que as
palavras que nunca dissemos. E os jornais que multiplicavam a arquitectura das
nossas cidades sitiadas eram o lenitivo para o arrastar húmido e cinzento dos
dias. Por isso inventámos metáforas de cidades e de mulheres. Por isso povoámos as praças de anseios e as
torres da barbacã de atentos vigilantes do nosso absurdo. E sobre essas cidades
do passado fizemos pairar poetas e pombas, que levavam longe as mensagens
secretas da vitória.
Hoje a vitória é outra, mas vive ainda
presa às ideias que germinam nas mãos que enxertam as palavras com novos
significados. Ou que enxertam nas árvores os frutos da nossa experiência para,
um dia, saborearmos tudo - os novos
significados e os novos frutos - à mesa do tempo, debaixo de uma pérgola
permanentemente em flor, enquanto o sol aquece o vento e agita as heras do muro
velho do pátio da nossa vida.
A vida, como a casa, resume-se, afinal, a
um pátio onde aquecemos os pés ao sol das recordações, abrigados do vento e a
imaginar, com saudade, a sombra das árvores a ultrapassar o círculo que os
nossos gestos foram traçando no chão, até fecharem a curva dos dias que ainda
nos pertencem.
Augusto Mota, texto 50 de «A Geografia do Prazer», 1999
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