sábado, 10 de agosto de 2013
A Geografia do Prazer
AS ESTRELAS-DO-MAR
Que mares e que marés inundam as praias do
nosso viver? São os braços que, cansados, se esforçam por nadar por entre as
vagas de uma melodia celta a caminho da harpa das ilusões. São os dedos que,
cansados, iludem o timbre das cordas num desenho novo dos sons. São os olhos
que, cansados, já não lêem a partitura escrita nas pautas do vento. São os pés
que, cansados, já não percorrem os trajectos do corpo.
Ouvimos, agora, os sons do vento leste
como se uma harpa imitasse os longos e prolongados murmúrios das marés em noite
de lua nova. E esperamos que o auge da maré cheia lance à praia as
estrelas-do-mar que enfeitarão o firmamento de
nossas mãos e as pautas de todas as melodias.
Com elas desafiaremos os esforços dos mares e das marés. Com elas em nossas mãos saberemos ler as partituras do vento e iluminaremos os trajectos do corpo, nadando entre vagas e ilusões.
Com elas desafiaremos os esforços dos mares e das marés. Com elas em nossas mãos saberemos ler as partituras do vento e iluminaremos os trajectos do corpo, nadando entre vagas e ilusões.
Depois de cumprido o ritual de tal viver,
as estrelas-do-mar serão, de novo, cadentes, para riscar a noite em direcção ao
mar alto, onde se apagarão para repetir o ciclo das marés e do corpo.
Augusto Mota, texto 63 de «A Geografia do Prazer», 1999
Aviso à navegação
Aviso à navegação
Em maré de calor, refresque o ânimo no mar, ora calmo, ora alteroso, das palavras e das imagens nestes endereços:
A Geografia do Prazer
A NAU DOS CORVOS
O farol na ponta do cabo adensa o mistério
que fica para além do horizonte cerrado
e, em breve, uma chuva
grossa, tocada a vento, impede a
viagem pelos miradouros do sonho. Não é noite,
mas gostaríamos que os olhos corressem por uns secretos rastos de luz a caminho
das ilhas que ficam a estibordo da nau que navega o mar de todas as sensações.
Não há corvos, mas gostaríamos que o seu grasnar anunciasse o fim de todas as
tempestades, como se a barca em que vogamos fosse a redenção para as lágrimas
de todos os queixumes. Ouvem-se, apenas, os gritos das gaivotas contra o vento
forte que as faz planar sobre as rochas marcadas pelo tempo e pelas vagas.
Mesmo assim continuamos a viagem a caminho de um novo regresso.
Regressa-se sempre pelos caminhos apressados que as mãos vão
talhando e atalhando nas paisagens marítimas do nosso
olhar. Mesmo em dias cinzentos sabemos esculpir as nuvens para que o Sol
festeje o verde que corre pelos campos fora até às arribas que os protegem da
maré-cheia. E o amarelo que pontilha montes e vales é o que resta da sagração
do mar e da Primavera da terra. São
secretos rastos de luz a caminho das ilhas que ficam a bombordo das sensações
que povoam o mar de todas as naus. E é nelas que poisam os corvos-marinhos dos bons e dos maus presságios. E é nelas que, no silêncio da
espera, aportamos, peregrinos, em terras distantes e tristes. E é nelas que, no
silêncio do desejo, transportamos as árvores que plantamos à beira do sonho, ou
arrecadamos os frutos silvestres que alimentam a viagem. Levamos, por vezes,
abrunhos bravos, colhidos em manhãs orvalhadas, para matar a sede e a saudade.
Que terras distantes são estas que ficam
para além dos gestos e do olhar? Difíceis viagens esperam o corpo nas rotas de
tamanha empresa!
Se a sede se mata com o orvalho dos frutos
selvagens, já a saudade se alimenta das árvores que abrolham, perpetuamente, à
ilharga das ilusões.
Augusto Mota, texto 62 de «A Geografia do Prazer», 1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
A Geografia do Prazer
A ROSA AZUL
Escorrem os dedos pelas pétalas que o
orvalho da madrugada manchou de vermelho e amarelo. Os espinhos das rosas Climbing Tzigane, assim colhidas no frescor da manhã, parecem demasiado
viçosos para ferir os olhos que admiram o Sol a erguer-se por detrás das
colinas. As cores vão ganhando um outro brilho, como se as flores quisessem
atrair todos os insectos do mundo para o festim da polinização. À medida que o
Sol deixa de se ver por entre os pinheiros das encostas
a nascente, para se espreguiçar num céu ainda avermelhado, os perfumes da manhã
começam a alegrar os voos irrequietos das Papilio machaon e das Iphiclides
podalirius, como se estas borboletas rabo-de-andorinha não tivessem
alfazema tão odorífera noutra parte do mundo,
tendo, por isso, que disputar espiga a espiga com as Vanessa atalanta, o
almirante vermelho das sebes, a conquista das hastes mais promissoras.
São as asas do desejo a marcar as rotas do acasalamento por cima dos aromas
doces e quentes que os nossos jardins interiores oferecem a todos os habitantes
alados dos territórios do sonho.
As giestas amarelas e vermelhas, tocadas pela luz forte da manhã, são o
estralejar de um vistoso fogo de artifício a comemorar a vida que corre na
seiva, sobe até às folhas e ilumina as flores e as mãos que, como borboletas exóticas, percorrem as cores todas
que brilham nos olhos da manhã. Mais abaixo, num recanto escondido e húmido,
entre rochas do monte e gramíneas a esmo, crescem tufos de Digitalis
purpurea para satisfação dos Bombus lucorum, os abelhões que
percorrem sistemática e silenciosamente os interiores destas dedaleiras
ornamentais, sem saber que fazem parte de um ritual de enamoramento e reprodução
de suas flores. Mesmo ao lado impõe-se a inflorescência dourada do Verbascum
thapsus, um verbasco de espiga alta e densa que os insectos parecem evitar, quando têm ao seu
dispor o pólen tonificante de tanta campainha rosa-púrpura.
No coração do jardim vibra agora a luz do
meio dia. O Sol está quase a pino e as sombras das árvores indicam o norte.
Guiamo-nos pelo relógio da natureza e rumamos mais a sul, para regiões mais
quentes onde as rosas vermelhas Príncipe Negro já passearam de mãos dadas com
os primeiros gestos da Primavera. Era ao anoitecer e o ar estava morno. Por
isso tudo à volta rescendia já aos aromas da noite. E os gestos de outrora
ficaram gravados na palma das mãos, para hoje os dedos escorrerem pelas
pétalas de outras rosas, de rosas de outras cores, de rosas de todas as cores,
sobretudo da rosa azul que tem o sabor do impossível, mas que anima o desejo
desta nossa arte de jardinar em solos fertilizados pelo sonho.
É nesses solos que vivem os morangueiros
silvestres que atapetam as recordações das viagens às
ilhas que ficam para lá do oceano visível. É nesses solos, na sombra das
ladeiras arborizadas e íngremes, que descansam muitas recordações de muitas
viagens e se pode dormir o sono mais despreocupado da vida. Os frutos vamo-los
comendo à medida do tempo. E sem pressas. Saboreando o acaso que tacteamos com
os olhos e saboreamos com os dedos todos. De todas as mãos. Das que percorrem
as palavras, das que plantam as árvores, das que colhem as flores, das que
oferecem os frutos, das que saboreiam a comida e das que guiam vertiginosamente
pelas estradas do sonho.
O calor da tarde já endureceu os espinhos
das rosas e, agora, torna-se penoso dormir sob o desejo das recordações que, como
os morangueiros silvestres, atapetam a memória. Por isso temos de viajar para
longe. Para lá do sul onde já estamos. Iremos até às regiões antárcticas e
ultrapassaremos o pólo para o outro lado, a caminho de um regresso ao equador
de todas as sensações.
Continuaremos, depois, mais para
norte, até atingirmos o mar árctico e
ficarmos, para sempre, com uma aurora boreal em nossas mãos, ou, então,
deixá-la escorrer por entre os dedos como se fosse o orvalho da manhã a
despir-se no meio das pétalas de uma rosa azul.
Augusto Mota, texto 61 de «A Geografia do Prazer», 1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
sábado, 13 de julho de 2013
A Geografia do Prazer
O VULTO DA MEMÓRIA
Nus dormem os sonhos à beira-mar,
refrescando as mãos no silêncio da manhã que a medo desperta por entre as
ondas. O vulto da memória, sorrindo sobre as vagas, abençoa a paz e o mar que
alimenta todos os desejos do passado e todos os gestos do presente. A estes
dedicamos as emoções que percorrem a
noite e a vigília, enquanto as intenções de ontem rejuvenescem o corpo de novas
fantasias.
Caminhamos pelo areal da vazante, em
direcção ao sul do território que descobrimos de véspera. Por vezes descansamos
os pés húmidos na areia quente e fina das dunas. Refrescamos, agora, a boca com
uma mão-cheia de camarinhas e fechamos os olhos para melhor viver o sonho. Mais nítido fica o farol, lá longe,
para sul. O mar parece mais revolto. Confunde-se o desejo nos caminhos da
realidade. Os pés, já refeitos, avançam pela fantasia dentro. Já é noite. Um
feixe de luz varre o mar, a praia e os pinheiros para além das dunas.
É o acaso a sinalizar o rumo certo das sensações e das grandes viagens. Mas a
maré começa a encher e as marcas deste caminhar já são desfeitas pelas ondas
que avançam, cada vez mais, em direcção ao nosso repouso. Apressamos a viagem e
seguimos a estrada de luz que fixa o
horizonte para lá do farol e da noite. Ofegantes, lavamos a cara na água
que uma onda maior depositou em nossas mãos. O sal e o sul caminham mais rápido
para nós. É a natureza a festejar o descanso do corpo.
Abrimos os olhos. O mar, afinal, está
calmo. A vazante está para durar. O farol é o único vestígio do sonho que
permanece realidade, talvez para orientar os caminhos do sul, mesmo em dia
claro. Só a névoa da manhã dificulta o juízo das distâncias.
Voltamos à beira-mar e deixamos o corpo
caminhar, silencioso, em direcção ao sol do meio-dia. Sem pressas. A caminho do
sul. Enquanto o sal cristaliza em nossas mãos, para com ele pagarmos os favores
do sonho.
Como romeiros em penitência, decoramos com
uma vieira o bordão que nos servirá de apoio nas peregrinações da memória.
Augusto Mota, texto 60 de «A Geografia do Prazer», 1999
A Geografia do Prazer
A ROSA DA NOITE
Um botão de rosa vermelho escuro
-‘Príncipe Negro’- passeia pelos
caminhos do corpo em direcção ao
território da noite. As mãos saboreiam os perfumes novos das promessas que enfeitam
os prazeres do sonho e se cumprem em cada gesto ao desfolhar as suas pétalas
uma a uma para, depois, as atirar ao vento leste como recordação das grandes
viagens já empreendidas e, assim, melhor cruzarem o oceano em direcção às ilhas
silenciosas dos mares do sul.
Pelas praias nuas, junto aos palmares que
bordejam a maré-cheia, descansamos o
corpo e o sonho. Aí revivemos os tempos da Ria, quando o sono na areia, debaixo
de uma tamargueira, deixava molhar os pés
exaustos e as mãos se encantavam com o delírio da Primavera e do corpo. Também agora a água nos
acorda para o silêncio que vai de um
gesto a outro gesto, de uma palavra a outra palavra, de um olhar a outro olhar.
Só os desenhos na areia húmida significam a distância que vai das praias do
nosso litoral oeste aos longínquos arquipélagos do sul. A maré, porém, atinge
aí o seu máximo e uma onda de prazer desfaz o significado de todos os traços
que, como desejos, desaparecem ao sabor da água que recua e revolve a areia e o
sonho.
De sonho e de sal se enfeitam as rosas que
perfumam a noite. Vermelhas, ou amarelas, todas desesperam as mãos e cravam na
carne a aventura de um velejar à bolina entre as sensações que, como ilhas,
povoam o corpo e o espírito de todos os mares abaixo da linha do equador. Mas é
nessas ilhas perdidas entre os espinhos e o sonho que procuramos a justificação
dos dias. E em suas praias teimosamente desenhamos, na areia fina e dura da
vazante, os traços de grandes projectos de máquinas de construir cidades sob o
sal da memória, mesmo sabendo que, em breve, a preia-mar do equinócio apagará
os alicerces de tal futuro.
Restará o perfume da noite entre as mãos e
a madrugada.
Augusto Mota, texto 59 de «A Geografia do Prazer», 1999
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