quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Textos transversais




A Geografia do Prazer


O AIDO DA ESPERANÇA

No papel branco nasce um traço de horizonte a azul esverdeado. É mar, ou apenas a maresia a tingir de esperança os desejos de que a distância vença a separação de Domingo? Se for mar viajaremos para o outro lado da terra, para lá onde os continentes vivem e morrem ao sabor e com o saber das mãos.  Se for maresia há sempre a esperança de que o mar esteja por perto, mesmo que só se aviste do alto do monte onde, em tempos, plantámos uma mão-cheia de árvores. Mas já as queríamos crescidas para, à sua sombra, desdobrarmos o mapa com as rotas do olhar, em busca de todos os continentes que havemos de agarrar com ambas as mãos esperando que, por entre os dedos, se desfie o rosário dos desejos do corpo. Mas sem dor. Bem basta o caminhar por entre os silêncios da noite, quando o sono deixa fugir os sonhos pelas janelas abertas da madrugada dos dias. Os silêncios consentidos pela noite são um outro acordar para as horas apressadas que o novo dia manda ao nosso encontro. Então ficamos sem saber o que fazer do tempo que não espera por nós. E nem os sons distantes do despertar da natureza são lenitivo para um acordar antecipado, ou para um adiar do sono para além do raiar da luz fria da madrugada.

Por tudo isto preferimos o mar, pois a viagem é directa aos continentes perdidos e achados da nossa memória de hoje. E com as mãos desenharemos caminhos bordados de esperança e  morangueiros-silvestres, que, na estação própria, hão-de salpicar as bermas do sonho com o vermelho de seus frutos maduros. Um dia, ao pôr-do-sol, havemos de os colher para um açafate de verga branca e, depois, juntar-lhes os frutos suculentos das nespereiras que iluminam de amarelo este aido onde, secretamente, cultivamos palavras e cores e sabores. 

Amanhã venderemos todos estes genuínos produtos biológicos no grande mercado abastecedor da memória!  


Augusto Mota, texto 65 de «A Geografia do Prazer», 1999

- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória. 


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Textos transversais



A Geografia do Prazer



DORES


Que dores são estas que atravessam o corpo quando os olhos moram em outras paisagens? Nem o sol, nem a chuva ajudam a um refrigério da alma porque tudo o que se vê, se sente e se pressente tem a marca do sofrimento. Que dores são estas que já começaram a invadir a paisagem dos olhos e vêm ao encontro das horas que esperamos sentados à espera de vez e de ver os secretos meandros do corpo, mas por dentro. As sensações agora são outras e morrem nos horizontes ofuscados de uns olhos tristes. As dores têm sempre o sortilégio de alterar o mundo que está ao alcance das mãos, contornando a floresta mais próxima para acampar nas clareiras estéreis, onde o tojo arnal, de grossos e ressequidos espinhos, fere a carne e a imaginação que dela se alimenta, multiplicando as dores e abrindo as janelas da noite de par em par. O sono, assim, foge para longínquas paragens e o sonho abandona o corpo junto aos precipícios da madrugada.


Que dores são estas que atravessam os dias quando os olhos moram em outras paisagens? Nem as flores, nem os frutos ajudam a um consolo da alma porque tudo o que não se vê não se sente, nem se pressente e, assim, a realidade imediata é pesada demais para umas mãos frágeis e trémulas. Por isso colhemos só rosas-dos-caminhos como homenagem às grandes travessias interiores e anteriores, esperando que todo o passado seja um bom prenúncio para a alegria do corpo que, para ser feliz, deve acampar em camas de rosmaninho e perpétua-das-areias, pelo meio dos pinhais soalheiros da beira-mar. Nestes leitos perfumados buscaremos a paz para as dores que desanimam o corpo e turvam o olhar. Antes de adormecer esfregaremos ainda as mãos nos ramos das camarinheiras para sorver aquele aroma subtil a mar que tanto excita os olhos e a boca. Pena que, agora, não tenham frutos, pois um punhado de camarinhas, acabadas de ripar, seria um alento novo para o corpo dorido e para a alma esmorecida.


Aguardaremos o Verão como promessa enfeitada de rosas-bravas e frutos amarelos. Colheremos, então, camarinhas por entre as dunas do corpo, enquanto o mar, no máximo da vazante, arrastará consigo as dores e os desalentos de hoje.


Augusto Mota, texto 64 de «A Geografia do Prazer», 1999

sábado, 10 de agosto de 2013

Textos transversais



A Geografia do Prazer


AS ESTRELAS-DO-MAR

Que mares e que marés inundam as praias do nosso viver? São os braços que, cansados, se esforçam por nadar por entre as vagas de uma melodia celta a caminho da harpa das ilusões. São os dedos que, cansados, iludem o timbre das cordas num desenho novo dos sons. São os olhos que, cansados, já não lêem a partitura escrita nas pautas do vento. São os pés que, cansados, já não percorrem os trajectos do corpo.

Ouvimos, agora, os sons do vento leste como se uma harpa imitasse os longos e prolongados murmúrios das marés em noite de lua nova. E esperamos que o auge da maré cheia lance à praia as estrelas-do-mar que enfeitarão o firmamento de nossas mãos e as pautas de todas as melodias.
Com elas desafiaremos os esforços dos mares e das marés. Com elas em nossas mãos saberemos ler as partituras do vento e iluminaremos os trajectos do corpo, nadando entre vagas e ilusões.

Depois de cumprido o ritual de tal viver, as estrelas-do-mar serão, de novo, cadentes, para riscar a noite em direcção ao mar alto, onde se apagarão para repetir o ciclo das marés e do corpo.


Augusto Mota, texto 63 de «A Geografia do Prazer», 1999 

Aviso à navegação


Aviso à navegação
Em maré de calor, refresque o ânimo no mar, ora calmo, ora alteroso, das palavras e das imagens nestes endereços:
  

Textos transversais



A Geografia do Prazer


A NAU DOS CORVOS

O farol na ponta do cabo adensa o mistério que fica para além do horizonte cerrado  e, em breve,  uma  chuva  grossa, tocada a vento, impede a viagem pelos miradouros do sonho. Não é noite, mas gostaríamos que os olhos corressem por uns secretos rastos de luz a caminho das ilhas que ficam a estibordo da nau que navega o mar de todas as sensações. Não há corvos, mas gostaríamos que o seu grasnar anunciasse o fim de todas as tempestades, como se a barca em que vogamos fosse a redenção para as lágrimas de todos os queixumes. Ouvem-se, apenas, os gritos das gaivotas contra o vento forte que as faz planar sobre as rochas marcadas pelo tempo e pelas vagas. Mesmo assim continuamos a viagem a caminho de um novo regresso.

Regressa-se sempre  pelos caminhos apressados que as mãos vão talhando e atalhando nas paisagens marítimas do nosso olhar. Mesmo em dias cinzentos sabemos esculpir as nuvens para que o Sol festeje o verde que corre pelos campos fora até às arribas que os protegem da maré-cheia. E o amarelo que pontilha montes e vales é o que resta da sagração do mar e da  Primavera da terra. São secretos rastos de luz a caminho das ilhas que ficam a bombordo das sensações que povoam o mar de todas as naus. E é nelas que poisam os corvos-marinhos dos bons e dos maus presságios. E é nelas que, no silêncio da espera, aportamos, peregrinos, em terras distantes e tristes. E é nelas que, no silêncio do desejo, transportamos as árvores que plantamos à beira do sonho, ou arrecadamos os frutos silvestres que alimentam a viagem. Levamos, por vezes, abrunhos bravos, colhidos em manhãs orvalhadas, para matar a sede e a saudade.

Que terras distantes são estas que ficam para além dos gestos e do olhar? Difíceis viagens esperam o corpo nas rotas de tamanha empresa!

Se a sede se mata com o orvalho dos frutos selvagens, já a saudade se alimenta das árvores que abrolham, perpetuamente, à ilharga das ilusões. 


Augusto Mota, texto 62 de «A Geografia do Prazer», 1999  

- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Textos transversais



A Geografia do Prazer


A ROSA AZUL

Escorrem os dedos pelas pétalas que o orvalho da madrugada manchou de vermelho e amarelo. Os espinhos das rosas Climbing Tzigane, assim colhidas no frescor da manhã, parecem demasiado viçosos para ferir os olhos que admiram o Sol a erguer-se por detrás das colinas. As cores vão ganhando um outro brilho, como se as flores quisessem atrair todos os insectos do mundo para o festim da polinização. À medida que o Sol deixa de se ver por entre os pinheiros das encostas a nascente, para se espreguiçar num céu ainda avermelhado, os perfumes da manhã começam a alegrar os voos irrequietos das Papilio machaon e das Iphiclides podalirius, como se estas borboletas rabo-de-andorinha não tivessem alfazema tão odorífera noutra parte do mundo, tendo, por isso, que disputar espiga a espiga com as Vanessa atalanta, o almirante vermelho das sebes, a conquista das hastes mais promissoras. São as asas do desejo a marcar as rotas do acasalamento por cima dos aromas doces e quentes que os nossos jardins interiores oferecem a todos os habitantes alados dos territórios do sonho.

As giestas amarelas e vermelhas, tocadas pela luz forte da manhã, são o estralejar de um vistoso fogo de artifício a comemorar a vida que corre na seiva, sobe até às folhas e ilumina as flores e as mãos que, como  borboletas exóticas, percorrem as cores todas que brilham nos olhos da manhã. Mais abaixo, num recanto escondido e húmido, entre rochas do monte e gramíneas a esmo, crescem tufos de Digitalis purpurea para satisfação dos Bombus lucorum, os abelhões que percorrem sistemática e silenciosamente os interiores destas dedaleiras ornamentais, sem saber que fazem parte de um ritual de enamoramento e reprodução de suas flores. Mesmo ao lado impõe-se a inflorescência dourada do Verbascum thapsus,  um verbasco de  espiga alta e densa que os insectos parecem evitar, quando têm ao seu dispor o pólen tonificante de tanta campainha rosa-púrpura.

No coração do jardim vibra agora a luz do meio dia. O Sol está quase a pino e as sombras das árvores indicam o norte. Guiamo-nos pelo relógio da natureza e rumamos mais a sul, para regiões mais quentes onde as rosas vermelhas Príncipe Negro já passearam de mãos dadas com os primeiros gestos da Primavera. Era ao anoitecer e o ar estava morno. Por isso tudo à volta rescendia já aos aromas da noite. E os gestos de outrora ficaram gravados na palma  das  mãos, para hoje os dedos escorrerem pelas pétalas de outras rosas, de rosas de outras cores, de rosas de todas as cores, sobretudo da rosa azul que tem o sabor do impossível, mas que anima o desejo desta nossa arte de jardinar em solos fertilizados pelo sonho.

É nesses solos que vivem os morangueiros silvestres que atapetam as recordações das viagens às ilhas que ficam para lá do oceano visível. É nesses solos, na sombra das ladeiras arborizadas e íngremes, que descansam muitas recordações de muitas viagens e se pode dormir o sono mais despreocupado da vida. Os frutos vamo-los comendo à medida do tempo. E sem pressas. Saboreando o acaso que tacteamos com os olhos e saboreamos com os dedos todos. De todas as mãos. Das que percorrem as palavras, das que plantam as árvores, das que colhem as flores, das que oferecem os frutos, das que saboreiam a comida e das que guiam vertiginosamente pelas estradas do sonho.

O calor da tarde já endureceu os espinhos das rosas e, agora, torna-se penoso dormir sob o desejo das recordações que, como os morangueiros silvestres, atapetam a memória. Por isso temos de viajar para longe. Para lá do sul onde já estamos. Iremos até às regiões antárcticas e ultrapassaremos o pólo para o outro lado, a caminho de um regresso ao equador de todas as sensações.  Continuaremos,  depois, mais  para  norte, até  atingirmos o mar árctico e ficarmos, para sempre, com uma aurora boreal em nossas mãos, ou, então, deixá-la escorrer por entre os dedos como se fosse o orvalho da manhã a despir-se no meio das pétalas de uma rosa azul.


Augusto Mota, texto 61 de «A Geografia do Prazer», 1999  

- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.