quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A Geografia do Prazer

 

 
 
O BARDO
 
 
Vinte vezes ouvimos o bardo lamentar os desencontros do amor. Vinte vezes vimos Ullin dedilhar a harpa a favor de Alpin, que já habitava o reino dos mortos, enquanto Minona, irmã de Morar, ao ouvir os acordes de Ullin,  se esconde atrás de uma nuvem, para exercitar o seu canto de lamentações.
 
Que murmúrios se escondem nas poucas sílabas lamentadas ao som da harpa de Ullin? Entristecem tais sons dedilhados ao arrepio da corrente deste rio e das vagas deste mar que tudo submerge, quando batido pelos ventos do Outono. E se as folhas dos ulmeiros já rodopiam pelos campos, é o sinal esperado para desferir, enfunando as velas ao encontro das vozes que, sem cessar, choram Arindal, filho de Armin.
 
Que melodia é esta que lamenta os desencontros do amor? Vinte vezes a ouvimos e vinte vezes a repetimos, enquanto os heróis de Ossian continuavam os combates pela noite dentro e pela madrugada fora, até as árvores projectarem no chão sombras  temerosas, agigantadas pela aragem forte da manhã. Sombras que em breve se transformaram na cabeleira esvoaçante da bela Daura, filha de Armin, esgotando a dor e a vida por Armar, seu amor, desaparecido entre as vagas e o vento.
 
 
Agora a melodia é bem outra: ao som da ‘Opus 45’ de Tchaikovsky agita-se, ao longe, o verde acinzentado dos débeis e caprichosos ramos dos pinheiros-de-Alepo, mas, de onde estamos, já não vemos heróis adormecidos à sombra guerreira do passado, a não ser a silhueta milenar de um ou outro teixo, cujos troncos ainda ecoam as vitórias e as derrotas das longas batalhas havidas por aquelas colinas à  beira-mar. Os  mitos, esses,  desfizeram-se contra os rochedos e o tempo, como se fossem vagas alterosas durante uma tempestade de sentimentos. Resta às mãos peregrinar pela distância que separa uns olhos cansados de um corpo enternecido pela música que chega de longe, oferecida pela maresia e perfumada pela seiva dos pinheiros debruçados sobre  todos os caminhos que levam à cidade.

Assim, acompanhados pela melodia de tais sentimentos, depressa chegamos às portas que atravessam a muralha e, felizes, subimos até ao rossio. Não é dia de feira. Tudo está deserto e as mãos sentem-se bem descansando na frescura das sensações que se alimentam dos aromas e dos sons que os olhos e a boca vão tacteando, até adormecermos à sombra de um belo exemplar da Árvore-do-ponto, ou Tulipeira-da-Virgínia, mas, hoje, as suas flores verde e laranja, como se fossem aves exóticas raras, já não nos angustiam, como dantes, os dias e o saber que íamos adiando com festas e fitas.
 
 
Refeitos do esforço de tanto caminhar, acordamos para o dia que se extingue e olhamos bem de frente as flores que, também elas, parecem querer olhar para nós. Colhemos uma só e vamos oferecê-la à ausência dos dias que, sozinhos, iremos contar um a um, até que esta mesma flor, nadando solitária  em nossas mãos, se multiplique por mil e nos cubra o corpo todo para, assim, ganharmos raízes e ramos e voltarmos a adormecer à sombra de nós mesmos, vivendo entre o sonho e a realidade.
 
 
Augusto Mota, texto 75 de «A Geografia do Prazer», 1999 


 

Textos transversais

 
 


A Geografia do Prazer

 
 
 
QUINTA SINFONIA
 
 
Beethoven excita tanto os sentidos como se fosse uma tempestade de sons a fazer-nos repetir a palavra mágica de Charlotte: Klopstock! E  com os sons fortes desta tormenta vem a saudade de caminhar para trás, muito para trás, ao encontro dos dias que já passaram por nós e deixaram nos olhos  as lágrimas que secaram na garganta muitas palavras que, por isso mesmo, nunca foram pronunciadas. Poderíamos, então, ter pensado em ode, ou em sublime, mas nem estas conseguimos articular. Poderíamos ter oferecido ao silêncio palavras mais prosaicas, mas nem essas as lágrimas conseguiram rejuvenescer.
 
Só estes sons que invadem a paisagem, e se desdobram em ritmos violentos pelos caminhos que ainda temos de percorrer, conseguem arrastar-nos para a nova aventura dos dias, como se o rio e o mar se encontrassem na palma das mãos para, depois, fazerem do corpo o oceano imenso que várias vezes sulcámos em direcção a latitudes mais a sul. Só estes sons, em crescendo violentamente repetido, conseguem iluminar a rota de todas as viagens empreendidas entre um silêncio e um olhar, entre uma sensação e outra recordação.
 
Colma, Ryno, Alpin, Armin - dramáticas personagens de um enredo de palavras e sentimentos à flor da pele do bardo Ossian, ou ao sabor romântico de Macpherson! Míticas personagens a aguardar um outro diário, mas, agora, feito de todas as memórias que vivem para lá das emoções de Werther e que não se esgotam no existir dos dias, antes rejuvenescem as palavras que, como sangue, serenamente percorrem as artérias do corpo à espera de uma secreta redenção, talvez em Golma, o reino de Armin, circundado pelas vagas da tristeza e da esperança.
 
Beethoven excita tanto os sentidos como se fosse uma tempestade de sons a fazer-nos repetir a apoteose que Werther sentiu ao ouvir  a palavra  mágica, enquanto o olhar de Charlotte divagava pela paisagem além, atrás do eco da sua própria paixão. Klopstock! 
 
 
Augusto Mota, texto 74 de «A Geografia do Prazer», 1999
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
 

domingo, 15 de setembro de 2013

Textos transversais

 
 


A Geografia do Prazer

 
 
 
RESSACA
 
 
As sensações escorrem pelos braços abaixo e chegam à palma das mãos como se fossem frutos sorvados pelo sol e pelo tempo. Aí se transformam em recordações vivas de todos os momentos passados a acarinhar a árvore que um dia plantámos num jardim de Inverno, ao abrigo das geadas e dos ventos mais agrestes. Aí vivem, num  recanto secreto dos dedos mais ágeis, à espera de alguém que, sabiamente, as faça viajar para lá do corpo onde habitam e, desse modo, regressarem, como flores, a essa árvore que antecipa todas as estações do ano e todas as palavras que adubam as leiras onde germinam as memórias do futuro.
 
Sábio propósito este o de acarinhar as árvores como quem exorta a natureza a produzir os melhores frutos! Frutos que havemos de saborear não em algum recanto secreto dos dedos, mas à beira-mar, num dia quente de Verão, quando o sal cristalizar, em segundos, sobre a pele húmida dos braços. Então abriremos os olhos de espanto e sorveremos o infinito que, como uma onda gigante, arrastará os olhos e a boca pelo areal fora, para além do horizonte, em direcção ao sul de onde viemos.
 
Assim, até onde nos levará esta maré de sensações? Por certo até a um porto seguro onde amarraremos o bote, antes que preia-mar se extinga e fiquemos presos ao fundo de nós mesmos, pois aí não haverá correntes marítimas que desencalhem a angústia do timoneiro. Ou então iremos até à foz e apanharemos o balanço de uma onda para viajar pelo rio acima até onde reponte a maré-cheia, ancorar junto à margem e descansar à sombra dos frondosos amieiros, ouvindo a água marulhar a nossos pés, ou observando os saltos alegres das tainhas, enquanto os guarda-rios  riscam de azul e laranja o seu voo apressado e silencioso, antes de mergulharem a cabeça em busca do melhor peixe .
 
Que natureza esta que voga ao sabor dos dias e da memória! Memória de ontem, de hoje e de sempre, mesmo quando as palavras se misturam com as ondas e são pescadas no rio do tempo, com a ajuda do isco mais conveniente. Então as sílabas saltam da corrente das imagens como se fossem tainhas a exercitar-se para o jogo das palavras, sobretudo das palavras que se agarram às sensações para, depois, escorrerem pelos braços abaixo a caminho da foz, ou da palma das mãos.
  
Secreta natureza esta a das palavras escritas que vivem e morrem nos gestos do corpo, enquanto os olhos acarinham a boca que se ausenta, silenciosa, para parte incerta! 
 
 
Augusto Mota, texto 73 de «A Geografia do Prazer», 1999
 



Textos transversais

 
 


A Geografia do Prazer

 
 
ALITERAÇÃO
 
Secretos segredos são suavemente segredados no sagrado e simbólico silêncio das sílabas sucessiva e sistematicamente soletradas como sustentáculo da supremacia dos sons supostamente sinónimos do supracitado simbolismo do silêncio. Semelhante sinonímia sintetisa a sinuosidade do sistema semiológico singularmente simplista subjacente à supérflua sinalética que supostamente sacraliza um sensacionalismo seguidista  e sentencioso sem o sagaz sexto sentido servo da sensibilidade serena e sincera subentendida nos secretos significados subterraneamente substituídos por sinais singulares e simplificados mas simétricos de situações substantivas saboreadas no sagrado silêncio das palavras.
 
Que secreta repetição invadiu a planície do sonho onde germinam as palavras? Que rigor é este que só rega a raiz das palavras que se alinham nos regos por onde andaram as mãos das mondadeiras? Assim, estiolam as ideias na terra seca e gretada dos campos ensolarados! Assim, as palavras verdes e tenras murcham a meio da tarde, mesmo antes da pausa para a merenda! Talvez o pão e o vinho consigam novo ânimo para os sentidos das sílabas criadas entre a infância e a memória. Talvez o cheiro da fruta perfumando um quarto de dormir nos faça sonhar sobre a areia macia da praia, mesmo que tarde a maré-cheia dos sentimentos que guardámos para, um dia, lançar ao vento suão como se fossem papagaios coloridos presos ao fio invisível da pré-história das recordações.
 
Sagrada fruta a que se guarda no silêncio de um quarto onde dormem os perfumes secretos que simbolicamente invadem as mãos e os olhos! Não sabemos que supremacia é esta que as palavras subitamente nos impuseram. Nem sabemos o que louvar mais, se a gramática, se os olhos que acariciam os gestos e prolongam o sonho e o tempo!
 
E a dor? A dor alimenta o sonho e, como um rio tempestuoso, avassala as mãos que tremem e já não desenham o significante das palavras que, assim, se vão acumulando em traços sem significado, enquanto o olhar vagueia, tímido, pelos caminhos incertos do tempo.
 
Só o sonho segura as mãos trémulas para, com firmeza, lavrar os regos na planície onde germinará, sem ervas daninhas, a sementeira de todas as palavras que, no silêncio do olhar, havemos de segredar ao futuro.
 
Augusto Mota, texto 72 de «A Geografia do Prazer», 1999
 

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A Geografia do Prazer



VIAGEM CÓSMICA


Mil vezes percorremos a distância entre o Sol e a Lua. Mil vezes repetimos o trajecto que vai de uma mão a outra mão. E mil vezes repetimos no corpo da noite os nomes femininos de todas as constelações do universo conhecido e desconhecido. Por Andrómeda andámos. Junto de Cassiopeia descansámos o corpo e os olhos fatigados das estrelas que atravessámos à velocidade da luz. Mas em Lira ouvimos a máquina do mundo rodar em torno de Vega, a estrela que marcou o caminho para o desconhecido de nós.

Tantas vezes redimimos o olhar e os gestos, no justo espaço entre as constelações, que fácil foi encontrar a Estrela Polar no alinhamento de Merak e Dubhe. Muito para trás ficaram Alkaïd, Mizar, Alioth, Megrez e Phecda, como se o Carro celeste tivesse parado a meio da viagem, ou quisesse favorecer o nosso trânsito a caminho de Alfa de Centauro.

Que vertigem foi esta que comprometeu equinócios e solstícios? Estávamos em Julho e a carta do firmamento parecia indicar a posição das estrelas nos meses de Inverno! Por isso ficámos confusos. Por isso tivemos de deixar as mãos seguir outro curso, voltar atrás e atravessar a Cabeleira de Berenice para desenhar, na véspera do corpo, o modelo de astrolábio que nos permitisse calcular, com precisão, a latitude e a hora sideral do lugar onde moram os desejos mais íntimos e as palavras mais secretas.

Como sábios do espaço e da noite festejámos todos os achamentos. Era como se viajássemos num veleiro pela rota das estrelas visíveis. Não havia medos a assustar o percurso e foi bom aportar em segurança na constelação dos Gémeos. Castor e Pólux foram guias indispensáveis nesta aventura cósmica: com seus rastos brilhantes marcaram o porto onde descemos de velas enfunadas por uma brisa melodiosa. Aí respirámos o sossego e a luz que devorou a noite. Por isso, de repente, se fez dia na palma das mãos que ainda viajavam entre o Sol e o sul. Com força apertámos contra o peito a Lua Nova, deixando o dia claro germinar por entre os dedos até subir aos lábios e, aí, articular uma só palavra: amanhã.         


Augusto Mota, texto 71 de «A Geografia do Prazer», 1999
 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

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A Geografia do Prazer


NOITE OPERÁTICA


De noite se constroem cidades. De noite se voa sobre as cidades que vivemos e imaginamos, enquanto os olhos correm sobre uma paisagem de milhares de pontos luminosos a debruar os caminhos das trevas. Tantas luzes vistas do cimo do Monte, a brilhar lá em baixo e ao longe, transformam a noite numa imensa basílica onde os peregrinos somos nós que pagamos a promessa de viajar eternamente entre as mãos e a madrugada. As orações são os novos sentidos do corpo e o oficiante é o desejo que, humilde, celebra o renovar de todas as caminhadas.

Atravessamos o território da noite enquanto milhares de velas cintilam no vasto recinto do santuário ou se espalham, atentas, pela escadaria sagrada. São figurantes que aguardam, extáticos, que alguém escreva o libreto de uma monumental ópera cujos ensaios vão decorrendo ao longo dos ofícios nocturnos.  Antecipamos, só para nós, a chegada da carruagem divina, puxada por oito  corcéis brancos, com estrelas azuis a decorar os finos arreios de ouro e prata. Vindo de longe, do meio das nuvens e da lua cheia, um carro alegórico atravessa a colunata e estaca mesmo em frente da multidão ansiosa. Um coro entoa salmos que elogiam os anjos e os tronos de onde eles zelam pela sombra de nossos passos. Abrem-se as portas da carruagem e a rainha da noite, de largas vestes azuis e brancas, desce suavemente, por entre harpas e trombetas,  amparando  uma  lua no regaço e erguendo um sol na mão direita. Caminha, agora, sobre um tapete de incenso e de ervas aromáticas, até se diluir por entre as luminárias que redobram os seus lampejos para, de súbito, tudo se apagar da memória, tudo ficar uma noite escura vista do cimo do Monte, com luzes reais a brilhar lá em baixo e ao longe.

Descemos da noite e do Monte pelas estradas íngremes da emoção, a caminho da nascente de um rio claro que atravessa as mãos e desagua na infância do olhar, todos os dias ao pôr do sol. 


Augusto Mota, texto 70 de «A Geografia do Prazer», 1999 


- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.


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A Geografia do Prazer



A  RIBEIRA  DAS  FRAGAS


Do mirante vimos o revérbero do calor ao bater nas fragas abruptas do outro lado do desfiladeiro.

Mas olhar lá para o fundo da garganta, ver a ribeira de Alge a saltar pequenas cachoeiras e a correr por entre a ramaria de árvores frondosas antecipou-nos a frescura das suas águas e o conforto da sombra de tanto amieiro, de tanto  carvalho, de tanto freixo, de tanto loureiro. E descer lá abaixo, depois de tanto calor, foi descer a uma outra realidade, onde um subtil jogo de luz e sombras parecia criar uma ilustração tridimensional de um bocado do paraíso, com a água a correr por entre penedos e manchas de claridade projectadas por um sol da tarde, coado pela folhagem viva e agradecida daquela floresta primeva.  Como numa catedral havia o silêncio respeitoso das pessoas a quererem gozar a sua paz e a paz dos outros. Só as levadas que outrora deram força às engrenagens das azenhas pareciam querer impor a música diluída da sua corrente, apressada em retomar o curso da ribeira.

Apetecia mergulhar os pés e as mãos naquela água límpida e caminhar, caminhar por aquele líquido silêncio, até encontrar o resto do paraíso, ou, então,  adormecer   bem   no   meio  da   ribeira,  em  cima   de  um   penedo arredondado e batido pelo sol para, como uma sereia, divagar pelos caminhos encantados das mãos, dos olhos e das palavras. Construiríamos a noite em pleno dia e saudaríamos a vontade de ver as árvores florescerem milhares de estrelas. Estrelas para iluminarem o rasto das palavras que vamos deixando atrás de nós, como indício de uma peregrinação a caminho de nada e de tudo. Talvez até construíssemos uma jangada que nos levasse  a outros continentes, perdidos entre a memória e os dias claros.

Se aportássemos ao litoral da memória, em dia bem claro, iríamos, por certo, a uma azenha trocar grão para, depois, espoar muito bem a farinha e fazer pão fino que alimentasse o sonho e o passado. Do farelo tenderíamos  alimento para os cães que estivessem de guarda ao nosso sossego, ou nos ajudassem a pescar alguma truta mais distraída. De varas de eucalipto faríamos uma ponte de aventura suspensa sobre os dias escuros, já que do outro lado há sempre lugar para novas esperanças. Ou, então, atravessaríamos a ribeira a vau, se a corrente não fosse muito forte e não houvesse o perigo de sermos arrastados para as margens longínquas do passado. Uma vez do lado de lá regressaríamos à realidade de uma tarde quente de Domingo. 

Do mirante vimos o revérbero da emoção ao bater nas fragas abruptas do outro lado da memória.

Augusto Mota, texto 69 de «A Geografia do Prazer», 1999

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Textos transversais


A Geografia do Prazer



DIA  DE  MERCADO


Hoje era dia de mercado na cidade. Vendia-se e comprava-se roupa. Vendia-se e comprava-se fruta. Mas dava-se alegria. A alegria que as mãos sentiram ao percorrer os caminhos sinuosos e sombreados por entre as tendas do mercado de levante. O calor era muito e tivemos que repousar   quando o sol parecia querer atrasar os passos em direcção à tenda onde se expunham imagens de sonho e de mar. Soubemos, deste modo, antecipar o que os olhos percorreram no corpo dos frutos pintados na maré-cheia das emoções e das tintas e das telas, quando o mar conseguiu trazer até nós o sabor e a cor das enormes maçãs, à sombra das quais passeámos as mãos pelas sensações dentro. Se numa das telas alguém dormia à beira-mar, encostado ao fruto do desejo, esse alguém era, por certo, uma imagem antecipada do futuro recobrando forças para caminhar ao lado do presente.


Como num espelho de duas faces, presente e futuro confundem-se nas voltas sinuosas do olhar que se espraia por horizontes longínquos, contrariando as mais elementares leis da perspectiva. Contrariando, até, as leis da gravidade, ao imaginar alguém fugindo do presente e remando afincadamente, num mar de nuvens encapeladas, em direcção ao futuro. Que presente é este, então, de onde fugimos ao sabor das vagas que assolam o corpo e arrastam as mãos para lá das imagens reflectidas num espelho já embaciado pela maresia, ou pela transpiração ofegante das mãos? Se a tinta das maçãs, que vimos a deslizar pelo glaciar abaixo, ainda estivesse fresca, teríamos aberto nelas uma porta de acesso ao outro lado do espelho da realidade e deixado que a imaginação cavalgasse golfinhos pelo céu além, como se fossem cavalos selvagens à desfilada por uma reserva à beira do sonho e do mar.


Saímos da tenda das  imagens e perdemo-nos no mercado de tanta sensação. Eram sons, odores, sabores e cores. E também as dores que sentimos pelo corpo todo quando tacteámos o caminho de regresso às tendas que vendiam fruta e roupa. Comprámos trajos novos para outras ocasiões e cerejas para enfeitar as mãos no dia a dia. E também para motivar as conversas que deram vida nova às palavras que animaram este dia de mercado.


Apesar de tudo fizemos boas compras!


Augusto Mota, texto 68 de «A Geografia do Prazer», 1999



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A Geografia do Prazer

 
 
O ALBATROZ
 
 
Sempre fomos à praia. O mar não estava calmo e o vento era forte demais para permitir navegação à vela. O sonho de ontem foi levado pela vazante para longe da rebentação. Assim o veleiro de verdura deve ter rumado a outras paragens menos agrestes, onde a folhagem das velas não corresse o risco de antecipar o Outono e ficarem os mastros nus e o casco à deriva até à próxima Primavera. 
 
No entanto vimos o mar! E as mãos entenderam o sofrimento dos olhos que moravam longe, longe como as palavras que não foram ditas, mas apenas adivinhadas. Os olhos devem ter fugido atrás do veleiro do sonho e arrastaram consigo todas as palavras que costumavam dizer de nós, do sol, do vento, do mar e do ar. Devem estar agora no outro lado do mundo à espera de ver o raiar de uma nova madrugada. E as palavras, por certo, descansam ainda de uma longa e inesperada viagem. Mas quando acordarem rejuvenescidas hão-de acompanhar uns olhos claros e sorridentes na viagem de regresso às imagens que digam de nós, do sol, do vento, do mar e do ar. Do ar, sobretudo. Porque as palavras gostam de voar céleres pelas novas significações dentro, ou pairar acima das paisagens que rodeiam a cidade onde habitamos os dias. Onde plantámos árvores. Onde colhemos frutos. E onde aquecemos as mãos e a saudade.
 
Dizer do mar é fácil quando as palavras vêm ao nosso encontro trazidas pelo vento sul e chegam aqui como se fosse o barulho do mar bravo ecoando, em noite invernosa, sobre as dunas e as corutas dos pinheiros.
 
Que dizer do vento? Além de transportar as palavras que brotam de todas as fontes a sul da cidade, enfuna as velas de todos barcos que semeamos nos nossos mares interiores, mesmo daqueles que rumam aos mares quentes do sul e, sempre guiados pelo bom agoiro de algum albatroz-real, fundeiam em porto da nossa esperança.
 
E o sol? Esse aquece a alma e dá sabor aos frutos. De manhã acorda as flores e as borboletas. Ao meio-dia ajuda-nos a encontrar o norte. À tardinha parece esculpir as formas que os olhos percorrem e ilumina o caminho das mãos. Depois esconde-se no mar e entristece as nuvens.
  
De nós, hoje, as palavras já disseram tudo!
 
 
Augusto Mota, texto 67 de «A Geografia do Prazer», 1999
 
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
 


segunda-feira, 19 de agosto de 2013