quarta-feira, 13 de novembro de 2013
A Geografia do Prazer
A OFICINA DO TEMPO
A escultura nasce da modelação das formas
que mãos ávidas procuram moldar ao jeito do tempo, contra os limites estreitos
do espaço.
Por isso deliciámos as mãos no barro
fértil que fez surgir, na oficina do tempo, as formas ansiosas de um novo
espaço.
Por isso deliciámos as formas férteis,
surgidas na oficina do tempo, com as mãos ansiosas de um novo espaço.
Por isso deliciámos o espaço fértil,
surgido na oficina do tempo, com as formas ansiosas de novas mãos.
Por isso as mãos férteis surgiram na
oficina do tempo, deliciando o barro ansioso de novas formas em novo espaço.
A memória, como a escultura, nasce da
modelação ávida do tempo, ao jeito dos limites estreitos do espaço.
Augusto Mota, texto 81 de «A Geografia do Prazer», 1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
A Geografia do Prazer
O CERVO
À sombra do Cervo semeámos as
sementes da lua cheia, mas, enquanto a
corrida pela noite fora não incitou a sua germinação, os olhos ficaram a
alimentar-se da paisagem verde que o rio arrastava, vagaroso, até ao mar lá ao
fundo, onde a névoa da manhã brincava com o sol e confundia a verdadeira posse
do horizonte. E assim viveram os olhos entre dois territórios, separados pela
fronteira de um rio, como se as mãos não fossem o veículo justo a caminho de
todos os sentidos de trânsito do corpo.
E o rio, como as mãos, contornava a Ilha
dos Amores que víamos lá em baixo e que íamos modelando, a nosso
bel-prazer, ao sabor da corrente. A distância e a altura eram os instrumentos
precisos e preciosos de um silêncio que entusiasmava o sonho. Os amores, esses,
talvez habitassem algures nessa ilha entre a homenagem ao poeta e os verdes
vários que acalmavam a vista e o ardor das mãos que, pressurosas, ora
caminhavam, como os olhos, pela paisagem, ora pelo corpo do próprio sonho. E
assim não perdemos o direito à realidade que, permanentemente, se atravessava a
nossos pés, deixando que o silêncio e o Cervo se agigantassem ainda mais
para vigiar os atalhos escorregadios do regresso e sugerir os melhores
percursos para a noite, já que a lua cheia, por certo, iria ficar mais propícia
à germinação de todas as sementes.
E o rio, como os olhos, contornava,
depois, uma outra ilha mais pequena, a Boega, parecendo querer dividir as suas carícias
entre as duas, antes de se espreguiçar num mar sem fronteiras, a caminho de
países distantes de onde veio a saudade que invadiu a lua cheia, no
preciso momento em que o sonho reflectia, nas águas prateadas, a memória de
todas as manhãs claras e de todos os gestos que ficaram por anunciar.
Vertiginosas viagens estas pela estrada
larga das palavras que as mãos talharam entre serranias e vales profundos!
Vertiginosas pontes estas sobre todos os rios, a montante e a jusante das mãos
e dos olhos!
O luar, agora, corre apressado a nosso
lado, desenhando no asfalto a velocidade limite para os olhos que conduzem o
corpo pelo espaço apertado da noite. As mãos, essas, mal conseguem adivinhar o
sentido correcto das palavras que, por isso mesmo, se ficam mudas entre os lábios
e o desejo. Talvez as sementes da noite germinem melhor entre a memória e as
mãos banhadas de luz, do que entre as palavras pensadas, mas nunca articuladas!
As viagens são sempre a descoberta de
muita outra coisa para além das cores da noite, ou para além dos sons que
animam a passagem do tempo a caminho de um outro espaço que aguarda, inquieto,
a nossa rendição.
Augusto Mota, texto 80 de «A Geografia do Prazer», 1999
A Geografia do Prazer
A ALIMPA
As mãos, hoje, não descobrem palavras
novas entre as sementes dos dias que passaram em litúrgica ausência. Talvez
atirando ao ar tais sementes consigamos ainda apanhar, no crivo da sorte,
aquelas que o vento não arraste para fora da eira onde decorre a tarefa da
alimpa. As que ficarem na joeira serão como trigo separado do joio e com elas
iremos fazer o pão que alimentará a boca e os olhos. E as mãos? Essas ajudarão
a levedar a massa, a tendê-la e a empoá-la, antes de a colocar na pá que a
levará ao forno. Assim vivem, também, as palavras, arrastadas que são pelos
caminhos da experiência, antes de as enformar e enfornar. Como em forno
comunitário, algumas levam o sinete particular do amassador, para que, depois
de escritas (ou cozidas), se saiba a quem pertencem.
Mas hoje está difícil às mãos encontrarem o
fermento que ritualize o acto da amassadura, ou que os olhos recordem o perfume
que se esvaiu por entre os dedos, como se fosse sal para o bom tempero da
massa. Talvez cobrindo a masseira com mantas e xailes tudo levede mais depressa
e, daqui a pouco, já tenhamos as palavras justas que agora nos faltam.
O pior é se deixamos descair o forno!
Augusto Mota, texto 79 de «A Geografia do Prazer», 1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
A Geografia do Prazer
A REMIÇÃO DAS PALAVRAS
Com os cães adormecidos aos pés das
palavras que vamos escrevendo não há que ter medo da noite, nem apetece
acordá-los para vigiarem bem os tesouros da memória que guardamos atrás do
significado dessas palavras. Mesmo com eles assim quietos ainda conseguimos
caçar algumas recordações boas dos tempos em que o mundo se reduzia ao espaço
visível até às encostas a nascente, onde refugiávamos certas tardes de feição
na inconsciente aventura de escorregar vertiginosamente, em cima de uma tábua,
por um trilho de barro seco e luzidio aberto num acentuado declive, a caminho
de um providencial arbusto de aroeira, lá em baixo,
que amortecia as chegadas menos airosas.
Foi oportuno este sossego dos animais,
pois, na fronteira de um novo dia, chegaram de longe as palavras há muito
esperadas. Palavras onde se adivinhava um rosto coroado de flores campestres.
Palavras trazidas por uma nuvem de falenas atraídas pelo perfume nocturno da
madressilva caprina, que se espalha pelas encostas
soalheiras viradas a poente. Palavras tão intensas como o perfume das flores
que as borboletas da noite polinizam em seu voo apressado. Palavras também
apressadas, mas que floriram em nossas mãos, ainda viradas a sul, a vertigem
das recordações mais antigas.
Embalamos as recordações, e as palavras
vindas de longe, ao ritmo do tempo que nos vai arrastando, suavemente, para lá
do horizonte dos sentidos. E olhamos cada momento como se fosse uma despedida
que imaginamos ser a última. Por isso as mãos ficam sempre arrependidas de não
terem saboreado cada segundo das horas que passam por nós a caminho do nada,
quando julgam estar a construir o tudo. Tudo e nada são extremos
de um universo que fomos moldando à medida do tempo que passámos a
aprender palavras e, depois, a apreender, em proveito próprio, o correcto significado dessas mesmas palavras.
As palavras, como nós, vivem e morrem ao
ritmo do tempo que se escoa por entre os dedos, no espaço que nos redime.
Augusto Mota, texto 78 de «A Geografia do Prazer», 1999
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
A Geografia do Prazer
MIOSÓTIS
Como um anjo persa descemos do trono para
semear, como penitência, miosótis pelos
campos alagados dos territórios da ausência e do sonho. Assim não vamos
esquecer o trajecto dos olhos a caminho de umas mãos agora vazias dos frutos da
véspera. Vamos, pois, esperar pela estação própria, quando na terra húmida
germinar uma delicada renda vegetal para, então, bordar uma coroa de singelas
flores azuis nas mãos frescas da madrugada e, com elas assim enfeitadas, subir
a grande escadaria que antecede o arco-íris de todas as sensações. De lá de
cima espalharemos aos quatro ventos sementes de bonina que também hão-de germinar em abundância por montes e vales, assim perpetuando
a memória dos dias claros.
E pelos bosques do arco-íris descansaremos
os sentidos ao longo de veredas orladas de pervinca,
enquanto aguardamos o desabrochar do azul violáceo de suas flores. Com elas
faremos um filtro raro que acautele a distância do tempo e traga de volta o
feitiço das noites quentes, quando as vozes chegam de longe, de muito longe, de
tão longe que apenas adivinhamos o verdadeiro rosto das palavras, embora o
saibamos coroado de miosótis e de boninas.
E pelos lagos que animam a frescura destes
bosques havemos de procurar o nenúfar e o golfão-amarelo para com os seus pedúnculos e flores, pacientemente,
fazer os colares honoríficos que irão distinguir os bons serviços prestados por
nós mesmos, em nosso próprio proveito.
Assim frutifiquem todas as sementes que
lançámos aos ventos do sonho!
Augusto Mota, texto 77 de «A Geografia do Prazer», 1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória
A Geografia do Prazer
ROTAS MIGRATÓRIAS
Estar longe é estar perto das palavras que
tentam adivinhar os caminhos que, todos os dias, vamos percorrer em direcção ao
Sul, lá onde o calor das mãos não chega para aquecer o rosto que adivinhamos
arrefecido pela aragem da distância. Estar longe é estar perto das emoções
recordadas e vividas pelas esquinas das ruas que percorrem a cidade
transversalmente, a caminho do castelo onde habitam as memórias do corpo. Estar
longe é, ainda, estar perto do que os olhos vão, secretamente, sonhando para
dentro, muito para dentro, cada vez mais para dentro, até que o sono nos atraiçoe e faça o corpo
atravessar, de novo, as paisagens desertas do passado.
O longe e o perto são relações de espaço
que o tempo e a memória anulam a nosso favor. Relações vividas segundo um novo
sistema métrico, que começa e acaba nos limites do nosso próprio corpo, onde,
qual fortaleza avançada, se criam e aperfeiçoam singulares estratégias
defensivas. Por isso viajamos tanto ao encontro do nada e do
tudo! E as mãos e os olhos até já pressentem o significado de cada palavra que
aparece debaixo dos pés, quando, manhã cedo, deixamos o corpo passear,
solitário, à beira-mar. Ou quando, em letras enormes, desenhamos na areia da
vazante o nosso secreto pedido de socorro, à espera que alguma ave migradora
nos veja lá de cima, abandone o bando e nos leve a saudade mais para Sul, para
onde voam a rola e a garça-real,
se os ventos dominantes favorecerem as suas rotas.
Sabemos que o Outono vem longe, mas
devemos estar preparados para, ao primeiro sinal, também levantar voo e deixar
as mãos seguir a rota migratória do sonho que inunda os olhos. Sonho e saudade
são palavras aladas em viagem para Sul.
Aí estarão até que a natureza as chame de novo a habitar as fontes e os montes,
quando a água já correr límpida debaixo da velha nogueira e o orvalho da manhã cintilar nas alvas flores do pilriteiro e nas folhas aromáticas da tomilhinha que atapeta as colinas viradas a poente.
Ajudados pelas palavras, voamos agora ao
encontro do Sul, levados pelo sonho, mas deixámos para trás a saudade, que
ainda há-de alimentar voos mais difíceis, rumo ao Norte.
Augusto Mota, texto 76 de «A Geografia do Prazer», 1999
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
A Geografia do Prazer
O BARDO
Vinte vezes ouvimos o bardo lamentar os
desencontros do amor. Vinte vezes vimos Ullin dedilhar a harpa a favor
de Alpin, que já habitava o reino dos mortos, enquanto Minona, irmã
de Morar, ao ouvir os acordes de Ullin, se esconde atrás de uma nuvem, para exercitar
o seu canto de lamentações.
Que murmúrios se escondem nas poucas
sílabas lamentadas ao som da harpa de Ullin? Entristecem tais sons
dedilhados ao arrepio da corrente deste rio e das vagas deste mar que tudo
submerge, quando batido pelos ventos do Outono. E se as folhas dos ulmeiros já rodopiam pelos campos, é o sinal esperado para desferir,
enfunando as velas ao encontro das vozes que, sem cessar, choram Arindal,
filho de Armin.
Que melodia é esta que lamenta os
desencontros do amor? Vinte vezes a ouvimos e vinte vezes a repetimos, enquanto
os heróis de Ossian continuavam os combates pela noite dentro e pela madrugada
fora, até as árvores projectarem no chão sombras temerosas, agigantadas pela aragem forte da
manhã. Sombras que em breve se transformaram na cabeleira esvoaçante da bela Daura,
filha de Armin, esgotando a dor e a vida por Armar, seu amor,
desaparecido entre as vagas e o vento.
Agora a melodia é bem outra: ao som da
‘Opus 45’
de Tchaikovsky agita-se, ao longe, o verde acinzentado dos débeis e caprichosos
ramos dos pinheiros-de-Alepo, mas, de onde estamos,
já não vemos heróis adormecidos à sombra guerreira do passado, a não ser a
silhueta milenar de um ou outro teixo, cujos troncos
ainda ecoam as vitórias e as derrotas das longas batalhas havidas por aquelas colinas à beira-mar. Os mitos, esses, desfizeram-se contra os rochedos e o tempo, como se fossem vagas alterosas durante uma tempestade de sentimentos. Resta às mãos peregrinar pela distância que separa uns olhos cansados de um corpo enternecido pela música que chega de longe, oferecida pela maresia e perfumada pela seiva dos pinheiros debruçados sobre todos os caminhos que levam à cidade.
Assim, acompanhados pela melodia de tais
sentimentos, depressa chegamos às portas que atravessam a muralha e, felizes,
subimos até ao rossio. Não é dia de feira. Tudo está deserto e as mãos
sentem-se bem descansando na frescura das sensações que se alimentam dos aromas
e dos sons que os olhos e a boca vão tacteando, até adormecermos à sombra de um
belo exemplar da Árvore-do-ponto, ou Tulipeira-da-Virgínia, mas, hoje, as suas flores verde e laranja, como se fossem aves
exóticas raras, já não nos angustiam, como dantes, os dias e o saber que íamos
adiando com festas e fitas.
Refeitos do esforço de tanto caminhar,
acordamos para o dia que se extingue e olhamos bem de frente as flores que, também
elas, parecem querer olhar para nós. Colhemos uma só e vamos oferecê-la à
ausência dos dias que, sozinhos, iremos contar um a um, até que esta mesma
flor, nadando solitária em nossas mãos,
se multiplique por mil e nos cubra o corpo todo para, assim, ganharmos raízes e
ramos e voltarmos a adormecer à sombra de nós mesmos, vivendo entre o sonho e a
realidade.
Augusto Mota, texto 75 de «A Geografia do Prazer», 1999
A Geografia do Prazer
QUINTA SINFONIA
Beethoven excita tanto os sentidos como se
fosse uma tempestade de sons a fazer-nos repetir a palavra mágica de Charlotte:
Klopstock! E com os sons fortes
desta tormenta vem a saudade de caminhar para trás, muito para trás, ao
encontro dos dias que já passaram por nós e deixaram nos olhos as lágrimas que secaram na garganta muitas
palavras que, por isso mesmo, nunca foram pronunciadas. Poderíamos, então, ter
pensado em ode, ou em sublime, mas nem estas
conseguimos articular. Poderíamos ter oferecido ao silêncio palavras mais
prosaicas, mas nem essas as lágrimas conseguiram rejuvenescer.
Só estes sons que invadem a paisagem, e se
desdobram em ritmos violentos pelos caminhos que ainda temos de percorrer,
conseguem arrastar-nos para a nova aventura dos dias, como se o rio e o mar se
encontrassem na palma das mãos para, depois, fazerem do corpo o oceano imenso
que várias vezes sulcámos em direcção a latitudes mais a sul. Só estes sons, em
crescendo violentamente repetido, conseguem iluminar a rota de todas as viagens
empreendidas entre um silêncio e um olhar, entre uma sensação e outra
recordação.
Colma, Ryno, Alpin, Armin - dramáticas
personagens de um enredo de palavras e sentimentos à flor da pele do bardo
Ossian, ou ao sabor romântico de Macpherson! Míticas personagens a aguardar um
outro diário, mas, agora, feito de todas as memórias que vivem para lá das
emoções de Werther e que não se esgotam no existir dos dias, antes
rejuvenescem as palavras que, como sangue, serenamente percorrem as artérias do
corpo à espera de uma secreta redenção, talvez em Golma, o reino de Armin,
circundado pelas vagas da tristeza e da esperança.
Beethoven excita tanto os sentidos como se
fosse uma tempestade de sons a fazer-nos repetir a apoteose que Werther sentiu
ao ouvir a palavra mágica, enquanto o olhar de Charlotte
divagava pela paisagem além, atrás do eco da sua própria paixão. Klopstock!
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
domingo, 15 de setembro de 2013
A Geografia do Prazer
RESSACA
As sensações escorrem pelos braços abaixo
e chegam à palma das mãos como se fossem frutos sorvados pelo sol e pelo tempo.
Aí se transformam em recordações vivas de todos os momentos passados a
acarinhar a árvore que um dia plantámos num jardim de Inverno, ao abrigo das
geadas e dos ventos mais agrestes. Aí vivem, num recanto secreto dos dedos mais ágeis, à
espera de alguém que, sabiamente, as faça viajar para lá do corpo onde habitam
e, desse modo, regressarem, como flores, a essa árvore que antecipa todas as
estações do ano e todas as palavras que adubam as leiras onde germinam as
memórias do futuro.
Sábio propósito este o de acarinhar as
árvores como quem exorta a natureza a produzir os melhores frutos! Frutos que
havemos de saborear não em algum recanto secreto dos dedos, mas à beira-mar,
num dia quente de Verão, quando o sal cristalizar, em segundos, sobre a pele
húmida dos braços. Então abriremos os olhos de espanto e sorveremos o infinito
que, como uma onda gigante, arrastará os olhos e a boca pelo areal fora, para
além do horizonte, em direcção ao sul de onde viemos.
Assim, até onde nos levará esta maré de
sensações? Por certo até a um porto seguro onde amarraremos o bote, antes que
preia-mar se extinga e fiquemos presos ao fundo de nós mesmos, pois aí não
haverá correntes marítimas que desencalhem a angústia do timoneiro. Ou então
iremos até à foz e apanharemos o balanço de uma onda para viajar pelo rio acima
até onde reponte a maré-cheia, ancorar junto à margem e descansar à sombra dos
frondosos amieiros, ouvindo a água marulhar a nossos
pés, ou observando os saltos alegres das tainhas, enquanto os guarda-rios riscam de azul e laranja o seu voo apressado e silencioso, antes de
mergulharem a cabeça em busca do melhor peixe .
Que natureza esta que voga ao sabor dos
dias e da memória! Memória de ontem, de hoje e de sempre, mesmo quando as
palavras se misturam com as ondas e são pescadas no rio do tempo, com a ajuda
do isco mais conveniente. Então as sílabas saltam da corrente das imagens como
se fossem tainhas a exercitar-se para o jogo das palavras, sobretudo das
palavras que se agarram às sensações para, depois, escorrerem pelos braços
abaixo a caminho da foz, ou da palma das mãos.
Secreta natureza esta a das palavras
escritas que vivem e morrem nos gestos do corpo, enquanto os olhos acarinham a
boca que se ausenta, silenciosa, para parte incerta!
Augusto Mota, texto 73 de «A Geografia do Prazer», 1999
A Geografia do Prazer
ALITERAÇÃO
Secretos segredos são suavemente
segredados no sagrado e simbólico silêncio das sílabas sucessiva e
sistematicamente soletradas como sustentáculo da supremacia dos sons
supostamente sinónimos do supracitado simbolismo do silêncio. Semelhante
sinonímia sintetisa a sinuosidade do sistema semiológico singularmente
simplista subjacente à supérflua sinalética que supostamente sacraliza um
sensacionalismo seguidista e sentencioso
sem o sagaz sexto sentido servo da sensibilidade serena e sincera subentendida
nos secretos significados subterraneamente substituídos por sinais singulares e
simplificados mas simétricos de situações substantivas saboreadas no sagrado
silêncio das palavras.
Que secreta repetição invadiu a
planície do sonho onde germinam as palavras? Que rigor é este que só rega a
raiz das palavras que se alinham nos regos por onde andaram as mãos das
mondadeiras? Assim, estiolam as ideias na terra seca e gretada dos campos
ensolarados! Assim, as palavras verdes e tenras murcham a meio da tarde, mesmo
antes da pausa para a merenda! Talvez o pão e o vinho consigam novo ânimo para
os sentidos das sílabas criadas entre a infância e a memória. Talvez o cheiro
da fruta perfumando um quarto de dormir nos faça sonhar sobre a areia macia da
praia, mesmo que tarde a maré-cheia dos sentimentos que guardámos para, um dia,
lançar ao vento suão como se fossem papagaios coloridos presos ao fio invisível
da pré-história das recordações.
Sagrada fruta a que se guarda no
silêncio de um quarto onde dormem os perfumes secretos que simbolicamente
invadem as mãos e os olhos! Não sabemos que supremacia é esta que as palavras
subitamente nos impuseram. Nem sabemos o que louvar mais, se a gramática, se os
olhos que acariciam os gestos e prolongam o sonho e o tempo!
E a dor? A dor alimenta o sonho e, como
um rio tempestuoso, avassala as mãos que tremem e já não desenham o
significante das palavras que, assim, se vão acumulando em traços sem
significado, enquanto o olhar vagueia, tímido, pelos caminhos incertos do
tempo.
Só o sonho segura as mãos trémulas
para, com firmeza, lavrar os regos na planície onde germinará, sem ervas
daninhas, a sementeira de todas as palavras que, no silêncio do olhar, havemos
de segredar ao futuro.
Augusto Mota, texto 72 de «A Geografia do Prazer», 1999
A Geografia do Prazer
VIAGEM CÓSMICA
Mil vezes percorremos a distância entre o
Sol e a Lua. Mil vezes repetimos o trajecto que vai de uma mão a outra mão. E
mil vezes repetimos no corpo da noite os nomes femininos de todas as
constelações do universo conhecido e desconhecido. Por Andrómeda andámos. Junto
de Cassiopeia descansámos o corpo e os olhos fatigados das estrelas que
atravessámos à velocidade da luz. Mas em Lira ouvimos a máquina do mundo rodar
em torno de Vega, a estrela que marcou o caminho para o desconhecido de nós.
Tantas vezes redimimos o olhar e os
gestos, no justo espaço entre as constelações, que fácil foi encontrar a
Estrela Polar no alinhamento de Merak e Dubhe. Muito para trás ficaram Alkaïd,
Mizar, Alioth, Megrez e Phecda, como se o Carro celeste tivesse parado a meio
da viagem, ou quisesse favorecer o nosso trânsito a caminho de Alfa de
Centauro.
Que vertigem foi esta que comprometeu
equinócios e solstícios? Estávamos em Julho e a carta do firmamento parecia
indicar a posição das estrelas nos meses de Inverno! Por isso ficámos confusos.
Por isso tivemos de deixar as mãos seguir outro curso, voltar atrás e
atravessar a Cabeleira de Berenice para desenhar, na véspera do corpo, o modelo
de astrolábio que nos permitisse calcular, com precisão, a latitude e a hora
sideral do lugar onde moram os desejos mais íntimos e as palavras mais
secretas.
Como sábios do espaço e da noite
festejámos todos os achamentos. Era como se viajássemos num veleiro pela rota
das estrelas visíveis. Não havia medos a assustar o percurso e foi bom aportar
em segurança na constelação dos Gémeos. Castor e Pólux foram guias
indispensáveis nesta aventura cósmica: com seus rastos brilhantes marcaram o
porto onde descemos de velas enfunadas por uma brisa melodiosa. Aí respirámos o
sossego e a luz que devorou a noite. Por isso, de repente, se fez dia na palma
das mãos que ainda viajavam entre o Sol e o sul. Com força apertámos contra o
peito a Lua Nova, deixando o dia claro germinar por entre os dedos até subir
aos lábios e, aí, articular uma só palavra: amanhã.
Augusto Mota, texto 71 de «A Geografia do Prazer», 1999
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
A Geografia do Prazer
NOITE OPERÁTICA
De noite se constroem cidades. De noite se
voa sobre as cidades que vivemos e imaginamos, enquanto os olhos correm sobre
uma paisagem de milhares de pontos luminosos a debruar os caminhos das trevas.
Tantas luzes vistas do cimo do Monte, a brilhar lá em baixo e ao longe,
transformam a noite numa imensa basílica onde os peregrinos somos nós que
pagamos a promessa de viajar eternamente entre as mãos e a madrugada. As
orações são os novos sentidos do corpo e o oficiante é o desejo que, humilde,
celebra o renovar de todas as caminhadas.
Atravessamos o território da noite
enquanto milhares de velas cintilam no vasto recinto do santuário ou se espalham, atentas,
pela escadaria sagrada. São figurantes que aguardam, extáticos, que alguém
escreva o libreto de uma monumental ópera cujos ensaios vão decorrendo ao longo
dos ofícios nocturnos. Antecipamos, só
para nós, a chegada da carruagem divina, puxada por oito corcéis brancos, com estrelas azuis a decorar
os finos arreios de ouro e prata. Vindo de longe, do meio das nuvens e da lua
cheia, um carro alegórico atravessa a colunata e estaca mesmo em frente da
multidão ansiosa. Um coro entoa salmos que elogiam os anjos e os tronos de onde
eles zelam pela sombra de nossos passos. Abrem-se as portas da carruagem e a
rainha da noite, de largas vestes azuis e brancas, desce suavemente, por entre
harpas e trombetas, amparando uma
lua no regaço e erguendo um sol na mão direita. Caminha, agora, sobre um
tapete de incenso e de ervas aromáticas, até se diluir por entre as luminárias
que redobram os seus lampejos para, de súbito, tudo se apagar da memória, tudo
ficar uma noite escura vista do cimo do Monte, com luzes reais a brilhar lá em
baixo e ao longe.
Descemos da noite e do Monte pelas
estradas íngremes da emoção, a caminho da nascente de um rio claro que
atravessa as mãos e desagua na infância do olhar, todos os dias ao
pôr do sol.
Augusto Mota, texto 70 de «A Geografia do Prazer», 1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
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