quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
A Geografia do Prazer
FOGO DE ARTIFÍCIO
Hoje há festa. Subo ao céu da noite
agarrado à cana de um foguete de luzes e, de repente, sinto-me pairar sobre o
arraial, envolto em flores de mil cores. É fogo este artifício que inunda os
olhos e queima as mãos. É de artifício este fogo que desabrocha antecipadamente
em nova Primavera, enquanto pétalas de luz se desfazem por entre os dedos, riscando a noite em todas
as direcções.
É efémera esta viagem aos confins do
tempo! Mas os olhos querem ir sempre mais além do que as mãos podem tocar. Por
isso voamos sobre a noite da festa, entre foguetes e luzes. Por isso imaginamos
o adro, lá em baixo, ornado de recordações e sabores. É o passado que vem até
nós, agora na forma de arcos ornados de flores recortadas em papel de seda e
cheiros típicos dos Invernos gelados, só aquecidos pelas fogueiras de rua e
pelo café da púcara, assente à pressa com uma brasa viva e bem soprada.
Chega-nos ainda o som das bandas de música nos dois coretos, a tocar ao
desafio, enquanto pares de ocasião volteiam à vontade na estrada, até que algum
automóvel vem interromper a dança. Que depois segue, ainda mais animada.
Tudo vemos aqui de cima. O tempo. O
espaço. A memória. A festa de hoje.
O fogo de artifício continua a subir e o
céu já está cinzento de tanto fumo. Vou descer agarrado a um dos minúsculos
pára-quedas azuis que um foguete de luzes espalhou, agora mesmo, ao redor da noite.
Tudo vimos lá de cima. O tempo. O espaço.
A memória. A festa de sempre.
Augusto Mota, texto 99 de «A Geografia do Prazer», 2000
A Geografia do Prazer
O ROSTO DOS GESTOS
Secreta é a voz que nos fala distante,
perdida nas ruas de si própria. Secreto é o olhar que guia os nossos passos
pelos atalhos da tarde. Secreto é o perfume que anima o rosto dos gestos,
agora, também eles, perdidos nas ruas de si próprios.
Divagando pelas ruas, arrastamos as palavras de encontro aos muros brancos da cidade antiga e neles registamos os sentidos particulares que se escondem por detrás de cada letra de cada palavra. Assim expostos, alguém há-de ajudá-los a encontrar o caminho certo de volta às palavras onde sempre habitaram, antes de a aventura dos dias lhes ter destinado outras paragens.
Em cada gesto mora uma palavra. Em cada palavra mora um gesto. Tudo começa e acaba no gesto do olhar, no rosto dos gestos.
Secreta é a esperança que, como um rio, reflecte o corpo e o rosto. Só as mãos ficam de fora para, do cimo do monte, acenar um adeus ao sol poente que se esconde, ao longe, apressadamente, entre os pinhais da beira-mar, levando consigo, para o outro lado do mundo, um novo sentido para a palavra saudade.
Augusto Mota, texto 98 de «A Geografia do Prazer», 2000
Divagando pelas ruas, arrastamos as palavras de encontro aos muros brancos da cidade antiga e neles registamos os sentidos particulares que se escondem por detrás de cada letra de cada palavra. Assim expostos, alguém há-de ajudá-los a encontrar o caminho certo de volta às palavras onde sempre habitaram, antes de a aventura dos dias lhes ter destinado outras paragens.
Em cada gesto mora uma palavra. Em cada palavra mora um gesto. Tudo começa e acaba no gesto do olhar, no rosto dos gestos.
Secreta é a esperança que, como um rio, reflecte o corpo e o rosto. Só as mãos ficam de fora para, do cimo do monte, acenar um adeus ao sol poente que se esconde, ao longe, apressadamente, entre os pinhais da beira-mar, levando consigo, para o outro lado do mundo, um novo sentido para a palavra saudade.
Augusto Mota, texto 98 de «A Geografia do Prazer», 2000
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
A Geografia do Prazer
TERCEIRA CRUZADA
Sobrevoando as dunas deste deserto da alma
chegam, de longe, os lamentos dos guerreiros feridos no assalto da véspera. E
este tempo chuvoso parece abrir ainda mais as feridas que rasgam os corpos de
lés a lés, como se estes golpes profundos fossem a fronteira visível que os
olhos terão de ultrapassar a caminho de um outro país.
Mas como emigrar assim ferido, mal arrastando o corpo pelo campo de batalha? E como socorrer as lágrimas que se diluem, vagarosas, nos rios de tanto descontentamento? E que mar, ou que maré, irá trazer-nos de volta a cidade de tantos contentamentos?
Mas como emigrar assim ferido, mal arrastando o corpo pelo campo de batalha? E como socorrer as lágrimas que se diluem, vagarosas, nos rios de tanto descontentamento? E que mar, ou que maré, irá trazer-nos de volta a cidade de tantos contentamentos?
Sulcam as ondas do tempo os grandes veleiros do passado. Mas é melodia nova o vento que lhes enfuna as velas e cresta a pele rija da marinhagem. Vamos, mais uma vez, a caminho do sul, agora contornando a costa árida deste deserto que acaba no mar, mesmo junto a uma enseada luminosa onde queremos ancorar a cabeça esgotada de tanto peregrinar. E assim fazemos.
O cansaço arrasta-nos mais para o sonho do que para o sono. E nele avistamos a terra prometida, mas não libertada. E com ele transformamos os veleiros em máquinas de guerra que avançam deserto dentro, sempre com o vento de feição. Pelo caminho vamos deixando padrões que marquem os nossos achamentos e facilitem o regresso no meio de tanta miragem. Ondas de areia avançam alterosas sobre as dunas e alguns veleiros naufragam no meio da tempestade. Outros rumam à estrela da tarde para, aí, em segurança, se reverem as cartas do universo e, depois, se empreender a conquista definitiva e decidida da cidade.
Nem Vénus, nem outra qualquer estrela da tarde ajudou muito neste sonho. Os mapas do céu deviam estar confusos e o sonho fez-se sono e tudo acabou como tinha começado. Com os lamentos dos guerreiros feridos no assalto da véspera a chegarem, de longe, até nós, depois de sobrevoarem as dunas deste deserto da alma.
Augusto Mota, texto 97 de «A Geografia do Prazer», 1999
A Geografia do Prazer
SEGUNDA CRUZADA
A cidade, como um corpo exangue,
debruça-se a custo sobre os desejos da alma e parece não vibrar à aproximação
do exército. Sitiados, os gestos perdem-se pelas ruas desertas e as mãos,
trémulas, percorrem a distância que vai de um medo a outro medo. Só os olhos
estão atentos. E neles brilha o calor das fogueiras junto das tardes escuras e
chuvosas de Inverno, quando o solstício anuncia o fim de mais um ciclo à volta
das nossas próprias recordações.
Que batalhas injustas são estas, passadas
entre a ciência e o devaneio?
Assim, quantas vitórias mais conseguiremos satisfazer, antes de a contagem dos anos se iniciar por dois?
A boca cansa-se de tanto espanto e as
mãos, essas, não sabem se devem correr pela paisagem além, se devem extasiar-se
na contemplação da natureza que rodeia a própria cidade, agora que os ventos
agrestes sacudiram os ramos frágeis dos araçás e os seus
frutos exóticos pontilham de vermelho os secretos caminhos do parque, enquanto
os kiwis atapetam de folhas castanhas
encarquilhadas as lajes dos terraços em frente da alcáçova. E por esses
caminhos nos perdemos, entre a classificação científica de tais frutos e o
sabor levemente ácido da sua polpa.
Assim, quantas vitórias mais conseguiremos satisfazer, antes de a contagem dos anos se iniciar por dois?
Augusto Mota, texto 96 de «A GEografia do Prazer», 1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória
A Geografia do Prazer
RECONQUISTA
Cansados do silêncio da véspera acampámos
desejos e recordações às portas da cidade. Como cruzados à espera da
reconquista, descansámos o corpo junto ao fogo do arraial e sagrámos as mãos no
calor das chamas que iluminavam a noite e projectavam na muralha mais exterior
sombras agigantadas de lanças em riste e maças-de-armas volteando agressivas,
como que a treinar a destreza para o assalto final.
Entretanto o silêncio caiu sobre o
acampamento como se fosse uma melodia vinda de longe para adormecer o sonho,
enquanto as chamas iam consumindo as últimas achas deitadas para a fogueira.
Por fim só o tom quente do brasido ficou noite fora a envolver os corpos
exaustos dos guerreiros.
Que muralha é esta em volta da cidade?
Umas vezes encostamos-lhe as mãos como se orássemos lamentos e recordações!
Outras cercamo-la de exércitos e emoções! É como se os sentidos buscassem o
atalho justo que os levasse à rota das grandes cruzadas, ou àquele mítico oásis
para onde se dirigem todas as caravanas que atravessam o deserto do tempo. Para
aí voltarem a descansar à sombra das miragens e das horas que enchem as mãos de
orvalho e de tâmaras frescas.
O frio da
madrugada acordou o exército e povoou a paisagem de vultos ainda
estremunhados. Um galo cantou três vezes sobre as ameias da muralha e a grande
ponte levadiça começou a descer lentamente sobre o fosso das palavras.
A cidade rendeu-se a meio da manhã.
Augusto Mota, texto 95 de «A Geografia do Prazer», 1999
A Geografia do Prazer
ATALHO
As palavras, como as lamentações, nascem e
morrem entre a névoa da manhã e a luz dourada de um fim de tarde outonal. Mas é
junto às muralhas da nossa própria cidade que ritualizamos as orações e os
lamentos da memória. Por isso ninguém escuta estas orações dos sentidos em
redor do corpo e do tempo.
Assim, que religião diviniza os segundos
que sofremos em busca de uma outra cidade perdida entre anseios e devaneios?
Secreta é a oração que alimenta o rosário de tais emoções! E quantas sensações
comemoramos neste silêncio, quando as mãos se encostam às muralhas das
recordações e adiam a conquista da cidade adormecida no regaço da noite!
Como continuar a escalada de barbacã, se
os sentidos e as palavras e os sentidos das palavras são as únicas armas de que
dispomos para o cerco da cidade?
Augusto Mota, texto 94 de «A Geografia do Prazer», 1999
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
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