segunda-feira, 27 de maio de 2013

A Geografia do Prazer


CONCERTO FESTIVO

Anos fazem-se todos os dias que acordamos dentro de uma paisagem de sonho, onde a mais irreal fantasia percorre connosco os atalhos secretos que levam, por entre doces pomares, às fontes de um rio que corre para o norte de todas as sensações. Os laranjais reflectem-se nas águas vagarosas, acabadas de nascer por entre nogueiras  e fetos que escondem os muros de pedra solta. São estas imagens carregadas de cor e sabor que dão vida à memória da vida e, permanentemente, adiam a distância entre nós e aquele outro horizonte que fechará o círculo do tempo à nossa volta.               
 
Festejamos as datas com promessas e música de Vivaldi. Estes sons de flauta de bisel, cordas e cravo são o contraponto ideal ao silêncio dos sonhos e dos pomares que justificam o rio e a corrente. As cores são mais apetecidas e os sabores mais apetecíveis. As águas parecem acelerar o seu curso ao ritmo da partitura, como se o executante, o maestro e o espectador fossem uma e a mesma pessoa. O concerto aproxima-se do fim e da nossa tristeza. Lembramos os tempos em que ouvimos esta mesma melodia, em viagem, a caminho do mar e do sol poente, enquanto recordávamos muitas coisas e não dizíamos nada de nós. Nem sabíamos nada de nós. Ou sabíamos, sem saber que sabíamos. Ou sabíamos e não dizíamos. No entanto fomos a caminho do mar e ouvimos mesmo as ondas a desfazerem-se na noite da praia, como se quisessem  prolongar a melodia que já nos excitara a viagem e as recordações.
 
O sortilégio do mar, à noite, é o ser capaz de prolongar as viagens que já fizemos e todas as que gostaríamos de fazer a caminho de nós. As ondas, que só ouvíamos, excitavam à aventura e o fresco da noite acentuava o cheiro da areia e do sal e fazia apetecer um passeio à beira-mar, apanhando vieiras.
 
Vai longo o dia e temos de fazer o rio regressar às fontes e ao seu curso calmo, entre pomares e laranjais. Repetimos a melodia e despedimo-nos do sonho e da paisagem. Sequiosos de tanto vaguear, por terra e por mar, bebemos água fresca da nascente e colhemos dos melhores frutos para favorecer a viagem de volta à realidade dos dias e das noites.   
 
 
Augusto Mota, texto 41 de «A Geografia do Prazer», 1999
 
- Exaltação do corpo em viagem pelos continentes da memória.
              

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